quarta-feira, 23 de maio de 2012

Do novo de ontem


Me vesti de saudade, e já faz tempo. Vivo tirando saudade de dentro do guarda-roupa, uso de domingo a domingo, não me canso.
Me vesti de saudade e deixei o amor me despir, mas como num paradoxo complexo fico mais ainda enfurnada em tecidos nostálgicos quando bate a porta e se vai para voltar em breve. E por mais que o breve seja curto, a saudade é extensa. Não o culpo, nem me culpo, sou assim.

Me vesti de saudade nas brincadeiras de criança, nos livros já lidos, relidos, nas antigas tranças.
Me vesti de saudade no até logo, até mais, até breve. Na mão erguida num gesto fraco.
Me vesti de saudade no ano passado, e nos anos passados, e ontem, e hoje. Amanhã estarei eu, com essa estampa cheia de saudade. Cheia de remendos, lembranças, suspiros.

Me vesti de saudade nas palavras, nas músicas, e até no novo a saudade se mostrou. Por que o que é o presente senão passado à curto prazo? Veja, o agora já passou.

Então é isso, foi isso, me vesti de saudade e Vestida de Saudade estou.

* Não estranhe, esse não é outro blog, é o Entrelinhas de sempre mas com outro título. O blog completou 3 anos esse mês, mudou o nome, quis mostrar maturidade, assinou na identidade sozinho. Pois é. 
Aos leitores que não me deixam, mesmo com meu desmazelo sem culpa, agradeço de coração a presença de sempre, prometo que irei aos seus respectivos espaços agradecer. E aos que chegam agora, sintam-se em casa, posso não responder de imediato, mas sempre respondo. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dos devaneios turvos



Fui para o canto beirando a janela aberta, irritada com o nariz vermelho, os olhos entreabertos, papeis amassados nas mãos. Um resfriado inconveniente por conta da mudança de estação. O Inverno sempre começa assim pra mim, talvez porque eu fale tão bem do calor para ele, só pode ser mesmo despeito. Fiquei ali, encolhida no parapeito, observando o jardim iluminado lá embaixo e o telhado da velha catedral lá em cima, um quadro agradável, é verdade. 

Uma cruz no topo da torre me chamou a atenção, estava coberta pelo manto escuro noturno, mas se fez visível apesar do tamanho discreto. Naquele instante pensei que diante da essência a estrutura física faz-se dispensável. E não discutirei significados ou afins, é tudo muito relativo e subjetivo, nos olhos de cada um cabe um berço de interpretações mútuas. E naquele instante em meus olhos coube a imparcialidade do tempo, e ao mesmo tempo a beleza guardada pelo velho .

Uma mão de tinta nova pra quê? Deixemos o limo escorrer pelas arestas acidentadas pelo antigo, não lutemos contra o tempo, embarquemos no barco sem vela e deixemos que nos leve, nos ensine que aceitá-lo não é submeter-se aos seus caprichos, mas emaranhar-se em suas mãos para que um dia possamos enxergar as rugas das nossas. Sejamos otimistas, porque mais vale as rugas do que a interrupção apressada dos dias. Mais vale o limo escorrendo por tudo . Recuso-me a aceitar uma segunda mão de tinta, a primeira me basta.

sábado, 12 de maio de 2012

Discrepância do destino



As janelas iam diminuindo enquanto eu me distanciava, as portas iam diminuindo, tornaram-se uma mancha. Uma mancha simples, como aquelas que por descuido sujam a camiseta branca. Depois nem isso parecia, era só um vulto que se reduziu a nada ao virar a esquina.

Da janela tudo parecia correr em sentido contrário, tudo ia ficando para trás. As árvores, a grama, as manchas. Quando rompi a barreira entre ali e lá o coração reclamou, apertou no fundo do peito, senti o aperto também na garganta. Fui. Malas, livros, recordações. Fui. Mas em suma, fiquei. Porque eu era as janelas, as portas, as árvores, a grama, as manchas. Eu era aquele pedaço de terra visto de lá, e aquelas pessoas que me cabiam ali.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Desculpas sinceras


Emaranhada em seus braços fico ali enchendo o pulmão com aquele vento manso que faz dançar as laranjeiras.
Suspiro enquanto mentalmente treino as palavras envergonhadas. Peço desculpas tímidas, a voz fraca de gente arrependida. Lembro das flechas lançadas, e da minha tolice em sustentar o arco. Poderia voltar atrás, pensar no alvo, lembrar que ao atingi-lo atinjo também a mim mesma.

Espero ouvir o som de sua voz me dizendo desaforos, dizendo que sou mesmo uma tola, que estava tão errada e cega. Mas só ouço a sua respiração pesada, então cobro palavras, qualquer que seja, menos aquelas que colocam pontos nas frases, quero de outras, quero perdão sincero, mas antes quero que jogue tudo à minha frente, provas e mais provas das flechas infelizes.

Depois de insistir, as ouço, mas não de um jeito agressivo, não de um modo cruel, não do mesmo jeito que fiz. Você não é como eu nesse aspecto. Suas palavras soam tristes, cansadas, bondosas ao mesmo tempo, mas acima de tudo, soam com sinceridade.
Eu agradeço em silêncio e você muda o assunto. Não quer mais falar sobre isso, já podemos deixar no passado.

Com a conversa em outros rumos lembro de partes pueris de um livro de que gosto. E com as mãos de 21, inverto o número e começo a tatuar com as mãos de 12 um coração desajeitado no tronco do pé de carambola. Você finge insensibilidade e eu paro de rabiscar na árvore, faço birra, volto a sentar. E é você quem termina esse nosso retrato cheio de pieguices, de longe vejo as nossas iniciais juntinhas, me aproximo e você diz que são uma só, como tem de ser.

É verdade, já faz tempo que somos um só, e o pé de carambola é a nossa recente testemunha.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Verão de 1995


A porta rangeu apática. Luíza suspendeu os olhos sem vontade, para ver se daquela vez era alguém, além do vento. Colocou uma expressão cansada no rosto, era a decepção velha com cheiro de mofo.  Mais uma vez. Até quando? Já não se perguntava; ou se perguntava e já nem percebia. Estava tudo tão igual. Presa ao avesso. Mais uma vez.

A persiana gasta sibilou nostalgicamente, um barulho de chuva no telhado fez um suspiro pesado estalar no peito. A sala escura, a TV ligada no noticiário local. O homem na TV falava de uma tempestade rigorosa, mas Luíza não se importava com o tempo lá fora, nem ali dentro. Estava à mercê de tudo, do mundo.

Às vezes sentia falta de si, mas só nos momentos insalubres. Quando a memória  dos tempos atrás sussurra em seus ouvidos ela os cobre com as mãos desajeitadas, mas não adianta, está tudo atravessado nela mesma.

Verão de 1995. Quente. O calor vinha de tudo, mas eram os braços que mais a aquecia. As risadas atônitas ao mundo. Entregues. Entregue. Porque foi singular desde o começo, só ela não sabia.

No inverno tudo mudou. Chovia, e a chuva não deu trégua. Ela esperou. E esperou. Nem sequer uma bandeira branca apareceu à cima de si. Trégua, ela pedia. Implorou.
As pessoas diziam que tudo era assim mesmo. Tudo vem e vai e a vida continua, não é mesmo? Para ela, não. Difícil é quando uma pessoa vai e leva o outro consigo, deixa a casca, um poço fundo, uma porta que só sabe ranger apaticamente. Deixa.

Luíza balançou a cabeça tentando afastar os fantasmas do adeus de um só. Olhou para a TV, um acidente na via principal havia deixado cinco pessoas feridas. Ela não se importou. Quis desligar a TV, mas seria obrigada a ouvir os próprios pensamentos gritando alto. Levantou-se assim mesmo, cambaleou até a porta entreaberta. Ainda. Pra sempre.

Um vento frio cortou seu rosto pálido. A chuva ricocheteava no asfalto. Doía sentir as gotas gélidas contra o seu rosto. Já estava cansada daquela sensação. Chuva. Lágrimas. Chuva.
Deu alguns passos trôpegos e já estava na rua. Sem saber exatamente o que estava fazendo ali. Mas não importava. A importância de tudo escorreu por suas mãos, foram para longe, talvez estivesse com ele, ou além.

Os dedos dos pés enrugados pelo frio, a sensação do asfalto contra sua pele era cortante e ao mesmo tempo cálida. Cansou. Já estava cansada há muito tempo. Deitou-se no chão à espera da sua bandeira branca. Deitou-se à espera do Verão de 1995. Mas já era 2000.


113ª Edição Visual - Projeto Bloínquês