terça-feira, 1 de agosto de 2017

Saudade é um bicho danado de ruim

Desde que te vi, e te gostei, e te amei, saudade vem crescendo desembestada, e eu nunca sei se vou conseguir comportar suas exigências, parece mesmo que a qualquer momento ela vai pular do peito deixando um buraco do tamanho do mundo. Aí a gente suspira pelos cantos como um moribundo asmático, apoiando a cabeça nas mãos hora ou outra, com uma cara de paisagem ou de gente que sofre de úlcera crônica. 

Tem dias que acho que não vou conseguir manter o bom senso e compostura, fico com vontade de me espernear no chão do supermercado até tu aparecer e dizer que estou sendo ridícula, enquanto ri e me abraça com carinho. E tudo isso porque te quero a todo instante. Sinto como se tivesse uma febre que não passa, um vício que não cura, uma música que toca e nunca termina, mas nunca se repete. Nos dias em que há mais candura, sinto ainda como se eu fosse feita de vento que sopra leve, alma sossegada na varanda, dia manso, sol pintando o céu num fim de tarde, conversa boa em que o tempo não se conta. 

A verdade é que te quero e ponto, mesmo agora, mesmo sempre. E é engraçado esse querer outro alguém com tanta urgência e bem perto, dividindo o mesmo espaço, suor, juntando a pele, os poros, os mundos. E eu te quero. Como quis ontem quando acordei e você não tava do lado, a mão passeando solitária pela cama, e você dentro de quilômetros de saudade. 

Eu fico aqui lembrando de tudo, dos teus cílios longos, do barulho da risada, do jeito que você diz as coisas, da cor dos teus olhos quando acorda e a claridade tocando-os de leve, da tua barba passando em meu pescoço. Fico lembrando você, porque no fundo eu não esqueço. E te quero. Agora. Sempre.  

domingo, 14 de maio de 2017

O que você deseja, te deseja de volta?


Pensava que nossos sonhos eram todas as coisas que gostaríamos de ser; tudo o que ainda não éramos e queríamos, de algum modo, nos tornar. Depois de um tempo, percebi que não havia no mundo algo de tão nosso quanto os sonhos que sonhávamos; nada que pudesse ser tão eu quanto os desejos adormecidos em algum lugar dentro de mim mesma. Talvez isso explicasse um pouco sobre minha vontade de querer saber sobre os desejos das outras pessoas; sobre a matéria que dava vida aos seus sonhos. Dá pra saber muito sobre alguém sabendo sobre as coisas que ele deseja. E eu, particularmente, me interessava por tudo o que tinha alma no fundo, ou na beira, mas mergulhar sempre foi mais interessante. 

É uma sensação única poder tocar com gentileza o universo do outro, enquanto vê seu tecido de sonhos sibilar; é algo que aquece enquanto desperta o imaginário das coisas impossíveis aguardando na fila das possibilidades. Todo objeto interno esperava ser potencializado, desde os sentimentos mais nobres até os mais miseráveis. Cabia ao potencializador dosar as medidas. E isso nunca implicou dizer que a realidade seria arrastada em todas as coisas que, depois de muito tempo e muitas tentativas, acreditavam piamente que chegariam ao ápice da materialização, era triste assumir pra si mesma, principalmente quando o mundo ainda não tinha se mostrado em grande vigor, que haveriam sonhos que nunca sairiam da gaveta de idealizações. Porém, era uma ideia monótona acreditar que tudo fosse passível de realizações. Que ser humano enfadonho devia ser aquele que fosse capaz de possuir tudo o que quisesse ter. Haveria motivos pra alimentar uma existência sem direções? Alguém que possui tudo, teria motivos pra buscar algum movimento? E o brilho nos olhos, apelaria para que Deus? 

Saber que nem todas as coisas vingariam era uma espécie de tranquilidade madura para assumir; nem todas as plantas dariam frutos, nem todas as pessoas seriam gentis; e que nem todo mundo, mesmo com as melhores das intenções, seriam capazes de permanecer em sua vida. Nunca se tratou de acreditar no irreal, mas sim, de prever o que poderia alcançar o lado mais significativo de sua alma. E tudo é caminho onde nada se perde; tudo se aproveita. Fazer da caminhada mais leve depende muito do modo como se carrega a bagagem, de que as bagagens são feitas, e de quem escolheu caminhar, verdadeiramente, ao teu lado.       

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Se conselho fosse bom

Não há como estar preparada se não definirmos o momento em que estamos. E não dá pra saber até que tentemos. Eu sou boa em dar conselhos sobre tudo, mas sou ruim em segui-los, provavelmente com a maioria das pessoas é assim. E quando você se coloca dentro da maioria, aprende a olhar com mais cuidado e humildade para o mundo. Tem aquela fase que você enxerga a si mesmo como uma notoriedade especialmente importante. Algo diferente e tão destoante dos demais. Mas há outra fase em que é de extrema importância descer deste pedestal imaginário e se perceber como uma coisa comum, algo pequeno e passageiro. Não significa que devemos menosprezar certas peculiaridades pessoais, mas é necessário descer do pódio moldado pela adolescência.


Não há nada o que provar para o mundo. Não há nada o que provar para ninguém além de si mesmo. Esse é o momento em que se olha pro canto das coisas não terminadas, metades de metades, tudo o que você adiou por motivos de variadas espécies, e pensa: ei, vamos terminar essa bagunça? E aí você entra nesse momento de autocorreção. Há coisas que não têm jeito, precisam ir pro lixo. Há outras que é possível oferecer uma continuidade em outros caminhos. E ainda aquelas que é melhor colocar na caixa do esquecimento e jogar no mar. Adeus, adeus. É preciso dizer claramente; é questão de sobrevivência. Porque se não arrumamos essa nossa própria bagunça acumulativa de anos a fio, as outras coisas não se movem, não evoluem, fica tudo com um cheiro esquisito de coisa parada, de lugar nenhum. Esse é outro bom conselho que eventualmente ofereço a quem acredita que sou uma boa pessoa para orientar o correto, ou o melhor a ser feito em determinadas situações. Bem, eu sou boa em oferecer bons caminhos para outros navegantes, mas sou uma pessoa que frequentemente se perde. Eu chamo de dilema pessoal. Coisa que faz parte de uma peculiaridade interessante a ser observada. É quase como uma ignorância, só que atraente.