quarta-feira, 18 de abril de 2018

Eu que sou desfeita por certezas

Passaria toda uma eternidade e ainda assim não conseguiria dizer como se dá o funcionamento das coisas que nascem e morrem dentro da gente. Às vezes acredito que sei, às vezes só imagino. Dentro de meus próprios ninhos de dúvida prestes a alçar voo - elas sempre estão prontas para voar - já criei certezas, e apesar de não garantir o risco, eu sempre aposto que entre o acerto e o erro é a minha versão que beira a sensatez. Você me entende? Tenho 27 tons de razão, montando circos, querendo pão. Apesar de sempre ser tão certa, e certamente errada, ouço suas verdades e dentro de murmúrios, assumo: errei! "Mas já não temos que falar disso." 

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Me disseram que eu deveria ser mais direta, mas aprendi a esconder tudo o que me foi dado em legado irreparável. Meu amontoado de coisas, empilhando luz e escuridão daquele karma ancestral. Me viu sangrar? Rezando no escuro aquelas preces de proteção, me rasgando inteira por tudo o que me toca a alma, me esquecendo que só eu mesma sou capaz de comportar meus excessos. Ah, mas já foi escrito, a responsabilidade afetiva que assumi comigo mesma comporta minhas próprias exigências. Sussurrando em meu ouvido que por mais que eu me lance, me rasgue, me entregue, ainda hei de voltar inteira. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Feita de pássaro

Na maior parte do tempo as pessoas são feitas de plástico, no tempo que não são, ninguém pode nota-las, talvez nem elas mesmas. Se você fica muito tempo olhando as pessoas, sente o cheiro do plástico e vê a textura brilhar. Todos os rostos que mostram são de plástico. E o restaurante novo, o filme que estão vendo, a companhia, a imagem exposta em todos os canais. Tudo por trás de vidro, e adivinha: de plástico.

Ainda ontem, às duas da tarde, eu observava um céu que nem sabia se chovia ou se fazia sol. Era fim de tarde, um menino chorando longe. Foi nesse cenário que vi um bando de pássaros voando assustados, imaginei que algum perigo os encontrou. Os pássaros voando, se distanciando, cada vez mais pra lá. Meus dedos que nunca alcançaria tamanha profundidade, era alto, e meus pés pregoavam o chão, e toda vez que eu olhava para as pessoas, eu queria ser feita de pássaros. E eu era. Quando eu não cheirava a plástico, nem me desfazia em sua textura, eu era pássaro. Quando ninguém mais olhava, e a tarde caía, e o menino chorava ao longe, e os pássaros voavam, eu era pássaro.
Eu fiquei imaginando que no fundo, depois de tudo o que era mostrado, talvez houvesse um pássaro morando quietinho no peito de todo mundo que é feito de plástico. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Saudade é um bicho danado de ruim

Desde que te vi, e te gostei, e te amei, saudade vem crescendo desembestada, e eu nunca sei se vou conseguir comportar suas exigências, parece mesmo que a qualquer momento ela vai pular do peito deixando um buraco do tamanho do mundo. Aí a gente suspira pelos cantos como um moribundo asmático, apoiando a cabeça nas mãos hora ou outra, com uma cara de paisagem ou de gente que sofre de úlcera crônica. 

Tem dias que acho que não vou conseguir manter o bom senso e compostura, fico com vontade de me espernear no chão do supermercado até tu aparecer e dizer que estou sendo ridícula, enquanto ri e me abraça com carinho. E tudo isso porque te quero a todo instante. Sinto como se tivesse uma febre que não passa, um vício que não cura, uma música que toca e nunca termina, mas nunca se repete. Nos dias em que há mais candura, sinto ainda como se eu fosse feita de vento que sopra leve, alma sossegada na varanda, dia manso, sol pintando o céu num fim de tarde, conversa boa em que o tempo não se conta. 

A verdade é que te quero e ponto, mesmo agora, mesmo sempre. E é engraçado esse querer outro alguém com tanta urgência e bem perto, dividindo o mesmo espaço, suor, juntando a pele, os poros, os mundos. E eu te quero. Como quis ontem quando acordei e você não tava do lado, a mão passeando solitária pela cama, e você dentro de quilômetros de saudade. 

Eu fico aqui lembrando de tudo, dos teus cílios longos, do barulho da risada, do jeito que você diz as coisas, da cor dos teus olhos quando acorda e a claridade tocando-os de leve, da tua barba passando em meu pescoço. Fico lembrando você, porque no fundo eu não esqueço. E te quero. Agora. Sempre.