quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Se conselho fosse bom

Não há como estar preparada se não definirmos o momento em que estamos. E não dá pra saber até que tentemos. Eu sou boa em dar conselhos sobre tudo, mas sou ruim em segui-los, provavelmente com a maioria das pessoas é assim. E quando você se coloca dentro da maioria, aprende a olhar com mais cuidado e humildade para o mundo. Tem aquela fase que você enxerga a si mesmo como uma notoriedade especialmente importante. Algo diferente e tão destoante dos demais. Mas há outra fase em que é de extrema importância descer deste pedestal imaginário e se perceber como uma coisa comum, algo pequeno e passageiro. Não significa que devemos menosprezar certas peculiaridades pessoais, mas é necessário descer do pódio moldado pela adolescência.


Não há nada o que provar para o mundo. Não há nada o que provar para ninguém além de si mesmo. Esse é o momento em que se olha pro canto das coisas não terminadas, metades de metades, tudo o que você adiou por motivos de variadas espécies, e pensa: ei, vamos terminar essa bagunça? E aí você entra nesse momento de autocorreção. Há coisas que não têm jeito, precisam ir pro lixo. Há outras que é possível oferecer uma continuidade em outros caminhos. E ainda aquelas que é melhor colocar na caixa do esquecimento e jogar no mar. Adeus, adeus. É preciso dizer claramente; é questão de sobrevivência. Porque se não arrumamos essa nossa própria bagunça acumulativa de anos a fio, as outras coisas não se movem, não evoluem, fica tudo com um cheiro esquisito de coisa parada, de lugar nenhum. Esse é outro bom conselho que eventualmente ofereço a quem acredita que sou uma boa pessoa para orientar o correto, ou o melhor a ser feito em determinadas situações. Bem, eu sou boa em oferecer bons caminhos para outros navegantes, mas sou uma pessoa que frequentemente se perde. Eu chamo de dilema pessoal. Coisa que faz parte de uma peculiaridade interessante a ser observada. É quase como uma ignorância, só que atraente.

domingo, 12 de junho de 2016

que o que não foi não é


A necessidade daquela presença era indigente, tinha pretensão de nada, nasceu e morreu em silêncio, nem nome tinha, não me lembro. O nome que escorria noite a dentro não dava paz de forma alguma, tinha mania de querer textura onde nem tato tinha. Não podia segurar nada, os dedos eram fracos e perdiam pra logo o interesse. Só entendia, eu mesma, de memórias. Vagava entre a poeira, sacudindo os lençóis do tempo, sem tempo de soluçar, chorava era baixinho, porque tinha medo de chamar ouvidos e olhos. Atrelei o passado no encalço, arrastando sorrisos e lágrimas secas há tanto, e pranto já não era, mas entendia sobre ser sem querer fluir. Os nós eram sós, e presos enfileirados na garganta. Todo o grito imaginário ecoava por dentro, e nada vinha até a superfície, nada bastava. Mas dentro do peito, mordido, apanhava mais que batia por uma existência só, das outras era mais singelo e livre, corria feito criança desenfreada, sem preocupar-se com coisa ou bicho ou gente. Eu tanto que quis que já não sabia se tanto queria, o tempo gasta os rostos, gasta os corpos, gasta as vontades, gasta.  

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Gatos no quintal

Queria fragmentar as coisas. Queria dissecar. Chegar ao cerne. Alcançar uma satisfação que não fosse leviana. Mas se distraía facilmente com os gatos perseguindo gafanhotos no quintal. Os gatos eram naturalmente despreocupados, eles queriam caçar gafanhotos e se divertiam desmembrando os pequenos animais, e para eles não era crueldade, não sabiam o significado de tal palavra, então era só a natureza, e eles aceitavam-na. 

Eis uma das coisas mais difíceis ao ser humano: aceitar sua própria natureza. Mesmo porque isso significaria uma passagem só de ida ao desequilíbrio social, adeus ao bom senso, às regras, às normas, à moral e ética. Seria cômico, se não fosse um pouco trágico, o desmembramento cultural de toda uma espécie que almeja a liberdade enquanto corta suas próprias asas. Mas estão todos cansados das utopias e palavras que enaltecem sonhos mortos, os que sobreviveram, pagaram e ainda pagam preços altíssimos pela coragem de ser exatamente aquilo que se desejou. Fazer-se caber numa forma pré-estabelecida é muito mais simples do que transformar a forma em algo desejável. Então restam os doces felinos sádicos desmembrando gafanhotos em seu quintal, alheios ao mundo, ocupados demais em suas próprias vontades. E uma insana inveja de não ser exatamente como eles.