quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Memórias de uma Rosa


Ele apareceu inesperadamente, tinha uma das mãos nas costas e um sorriso longo no rosto.
Fitou-a. Estudando a expressão da moça, mostrou o que escondia.
Inicialmente julgou-se pateticamente ridículo, mudou de idéia quando a viu desmanchar-se em um sorriso doce.
O mundo inteiro pararia para observá-la naquele instante, se assim fosse possível.
Ela se perguntou como duas coisas incrivelmente fantásticas poderiam interligar-se com tanta facilidade. A rosa, e o seu portador.

...

Ele gostava de palavras e de flores, gostava excepcionalmente das essências que traziam.
Gostava do cheiro, da cor, do gosto que provocavam em seus sentidos exacerbados.
Em sua mesa, livros e rosas cochilavam. Ele observava-os como um pai quando olha para um filho dormir na mais perfeita inocência.
Todos aqueles livros sonolentos guardavam aromas entre suas páginas. Pétalas que ele extraia sem nenhum receio.
Para os alheios ele era um leitor descuidado que manchava seus livros com rosas banais.
Mas em seu conceito, ele era um leitor amante. Via as manchas em seus livros como arte. Via lembranças expostas em páginas vivas. Ele sentia seu cheiro, sua textura, seu gosto.

...

Uma gota de sangue tocou o assoalho, na ponta do espinho jazia o mesmo fluído.
A criança exigente levou o dedo à boca, arremessando a rosa ao chão.
Mas que culpa tinha a flor se a visão e o olfato não foram suficientes para sua contemplação?
A jovem menina queria tocar. E o toque tinha o seu preço.
Ao lado da gota vívida, pétalas flutuaram serenamente.
Adormeceram, na espera de sussurros melancólicos murmurados pelo vento.

...

Agora ela repousa em um chão antigo, mais antigo que o seu próprio corpo.
Suas pétalas não são mais fascínio, um tom pastel tomou conta de si. Ela está vazia, e desconhece os livros que lhe roubaram seus pedaços.
Por entre páginas seu cheiro brincou, mas o tempo efetivou seu dever.
Perdeu a cor, o cheiro, a vida. Contudo, a sua essência permaneceu, pois o que foi um dia, nunca deixará de ser. Jamais.
Rosa caída. Caminhou ao natural, fez a sinceridade complacente se estender no sorriso da moça, trouxe lembranças ao leitor descuidado, e até mesmo do sangue provou, quando dedos insistiram em prendê-la de maneira descuidada. Agora adormece sobre a madeira carcomida. Fria e esquecida. Sem cheiro, sem cor, sem vida.
Just do it cause you want it. Just do it cause you like it.

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