sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Due

"As trevas sempre tiveram sua parte. Sem elas, quem iria saber quando andamos na luz? Só quando as ambições se tornam grandiosas demais é que elas precisam ser contestadas, disciplinadas e às vezes, se necessário, derrubadas por algum tempo. Depois elas se erguem de novo, como deve ser." /Cliver Barker – Aborat/




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Elevou a visão ao encontro do manto negro estendido ao intocável. Uma luz em meio à escuridão brilhava insistentemente, mesmo que todo o resto fizesse o contrário. E se houvesse outras tantas como ela, tornando o céu um manto claro, perderia o seu sentido. Como estrela solitária que era, e como luz incomparável. O reverso necessário. Sem ele nada seria, e tudo precisa ser. Por menor que o nada ou o tudo sejam, a precisão de ser alguma coisa é inevitável.

E foi assim que olhos vividos exploraram a noite de uma estrela só.
O observador transportou-se para outro lugar, mas seu corpo estava debruçado sobre uma janela no topo do mundo estável. Seu rosto descansava em sua mão direita, enquanto a esquerda tocava a madeira fria do parapeito.
Ignorou a lua minguante ao deparar-se com o brilho teimoso na imensidão escura, e ali ficou por incontáveis minutos, horas, eternidades. Não soube dizer quando lhe perguntei mais tarde.
A palidez lunar tocou-lhe a face revelando a barba por fazer, sua expressão era serenidade, talvez por isso a lua insistisse em recordá-la, mesmo sendo esquecida momentaneamente. Descansando na madeira fria um caderno de anotações farfalhava enquanto o vento corria descuidado pelo quarto. Fios negros caíram cobrindo-lhe os olhos, uma brisa calma acariciou-lhe o rosto. Foi assim que o observador voltou ao corpo. Passou a mão no cabelo, encarou seu caderno rabiscado onde mais uma folha acabara de virar, o vento parecia ser curioso, não cansava de ler àquela caligrafia desajeitada. Apanhou seu conjunto de memórias, e caminhou em passos silenciosos à sua cama, uma organização relativa o encarava. Do caos resgatou uma caneta, e a fez dançar por mais uma folha faminta pela coreografia da caligrafia ímpar.


- Tudo em profunda escuridão. Nada visível ao mortal. Uma luz. Nada volta a ser tudo.

- Tolos são os que desqualificam as transições, tolos são os imperceptíveis, tolos são os que ignoram.

- Qual seria o nome da escuridão se não houvesse luz? E como chamariam a luz sem a escuridão?

- Na solidão de uma estrela, o que se mantém nítido é o essencial. Pensamentos envolvem o reverso, e o reverso envolve o ser.

PS. Ela me perguntará mais tarde, e eu não saberei o que dizer.

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