quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ao inusitado

Apanha as sandálias e caminha sentindo a areia da praia brincar entre seus dedos. Aproxima-se do mar, deixando ondas lamberem seus pés. Permite que a lua invada seus pensamentos e traga lembranças de tudo o que viveu. É tirada de meio a devaneios pelo barulho de algumas pessoas que estão por ali também. Umas beiram fogueiras, outras beiram suas barracas de acampamento, algumas tomam banho de mar, outras apenas caminham, correm, riem. Ela os observa por alguns instantes, mas resolve voltar aos próprios pensamentos. Senta-se na areia e sente mãos lhe puxarem o braço.
- Está quase na hora, levanta logo daí! – a voz soa eufórica.
- Calma criatura, ou vai arrancar o meu braço. – ralha com a amiga. Essa tem uma expressão extasiada no rosto. O reveillon sempre a deixa assim.
- Como me achou no meio de tanta gente?
- Procurei a mais sem graça de todas e voilà. – disse sorrindo. A outra por sua vez revirou os olhos.
- Droga! Deixei a bebida no carro, espera aqui enquanto corro até lá. – correu esbaforida, deixando a amiga em meio a algumas pessoas. Essa olhou mais uma vez o mar e depois a lua. Alguém lhe tocou o ombro e ela presumiu que a sua amiga estava de gozação com a sua cara.
- Nossa! Você tem asas ou... - engoliu as palavras quando se virou e viu que o rosto que olhava não era o da amiga. Era o de um estranho.
- Me desculpe, achei que fosse outra pessoa. – disse encarando o outro.
- Ah, desculpa pela decepção. É que eu a vi quando chegou, e sei lá, nem sei por que estou aqui tendo essa conversa bizarra com você agora. Mas já estou indo, não quero lhe causar problemas.
Ela manteve-se estática, ouvindo cada palavra pronunciada pelo outro. Quando ele virou-se para sair, foi a vez dela de tocá-lo nos ombros. Não sabia por qual motivo estava fazendo aquilo, só seguiu o impulso, e quando deu por si seus dedos já estavam sobre os ombros desconhecidos.
- Eu achei que fosse a minha amiga, ela foi buscar a bebida no carro. – disse constrangida enquanto tirava as mãos do ombro do estranho. Ele virou-se e sorriu. Ela não pôde deixar de notar que o seu sorriso era fascinante, assim como todo o resto.
- Então acho que não vou ter problemas em conversar com você, ou vou? – ele a fitou.
- Ah, acho que não. Quer dizer, vai depender sobre o que você quer falar.
- Hum. O que a trouxe aqui hoje? Eu sei que parece uma estupidez perguntar isso, porque hoje é reveillon e etc. Mas gosto de me surpreender, e perguntar o óbvio às vezes faz com que eu me surpreenda.
- Estranho, mas interessante. Bem, na verdade não estou aqui exclusivamente pelo reveillon, quer dizer, eu venho à praia quase todos os dias, então estou aqui porque pra mim é o melhor lugar pra si estar.
Ele a ouviu com atenção e sorriu mais uma vez.
- Como eu disse, adoro me surpreender. Então, você mora por aqui desde quando?
- Desde sempre, 18 anos pra ser mais exata. E você? – ajeitou uma mecha do cabelo negro que lhe caia sobre os olhos.
- Acabei de me mudar. Meu pai foi transferido então...
- Ah. Está gostando?
- Pra ser sincero a coisa mais interessante que me aconteceu até agora foi ter vindo até aqui e ter tocado em seu ombro. – ele fitou o âmbar dos olhos dela. E essa não desviou o olhar, apesar de sentir as bochechas queimarem. Agradeceu por ser noite.
Quando abriu a boca pra dizer alguma coisa foi interrompida pela silhueta ofegante que chegou com duas taças e uma garrafa de espumante nas mãos.
- Ainda temos dois minutos. Opa, quem é esse?
- Sou um desconhecido que se atreveu a puxar conversa com a menina mais interessante da praia. – sua voz soou confiante.
- Que seria essa minha amiga sem graça aqui? – apontou a garrafa para a figura enrubescida a sua frente. E riu.
- Às vezes me pergunto por qual motivo me tornei a sua amiga.
- Talvez por minha incrível sinceridade.
- Na verdade acho que foi por faltas de opções mesmo. – disse para a amiga, mas olhava para o recém conhecido que lhe encarava sem disfarces.
A outra pareceu que ia dizer mais alguma coisa, mas parou para observar as pessoas que começaram a se agitar ainda mais. Em uníssono a praia inteira inicia a contagem, e então, os fogos de artifício anunciam que o ano novo está presente. Todos se abraçam, sorriem, beijam-se. A amiga destrambelhada demora a estourar o espumante, mas ainda assim faz um alvoroço quando consegue encher as taças, aperta a outra forte e corre para o mar.
- Feliz Ano Novo! – grita por cima do ombro.
Essa por sua vez sorri, acenando para a amiga que se perde em meio às outras pessoas. Em seguida vira-se para aquele que antes era um completo estranho, e que agora é um fascinante recém conhecido, ela observa o seu rosto colorido pelos fogos que tingem o céu em seus variados tons. Ele faz o mesmo, os dois riem e ele a abraça. Demora um pouco a retribuir o abraço, mas o faz, e com demasiada verdade. Já que um novo ano estava começando que se comecem novas loucuras.
- Feliz Ano Novo. – ele diz em seu ouvido.
- Feliz Ano Novo. – ela sussurra de volta.



- Pauta para o Bloínquês – Edição conto/história

3 comentários:

Arianne Carla disse...

Que lindo, amei o enredo, a sua escrita. Nossa... Me fascinou do início ao fim! Um super parabéns! Ainda estou em estado de transe... Tentando te seguir.

Maiara :) disse...

Muito obrigada mesmo :)

Luanderson disse...

Parabéns!
Sucesso