quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Aos riscos


Olha mais uma vez a passagem em suas mãos, testando a certeza sobre o que ela pretende fazer: passar o reveillon numa ilha magnífica que dois dias antes ela conhecera pelo folheto solitário em frente à sua porta. Nunca tinha feito algo tão inesperado até agora. Estava decidida a ir, a se entregar ao desconhecido. Todas as pessoas que conhece fizeram seus planos para o reveillon, e ela não se enquadrou em nenhum deles. Então faria do jeito que julgasse melhor. Embarcou sem olhar pra trás, nas mãos uma mala pequena. Tratou logo de se acomodar e começou a ouvir música, observando algumas pessoas que pareciam felizes por estarem ali. Casais, grupo de amigos, crianças com seus pais, idosos, todo o tipo de gente. Não achou ninguém que estivesse sozinho, mas também não se importava, estava ali e começaria o ano se entregando ao inesperado. Tirou os fones de ouvido e seguiu até o deque, poucas pessoas estavam lá, ela apoiou as mãos em uma das extremidades e plantou os olhos no horizonte. Admirando a imensidão azul com suas ondulações sendo douradas pelos raios intensos do sol, sentindo o cheiro marítimo que lhe invadia as narinas. Pensando em como tinha feito a escolha certa, e que jamais se arrependeria disso. Alguém se aproximou sem que ela percebesse, era um rapaz que aparentava ter mais ou menos a mesma idade que ela, 22 anos no máximo. Ele se postou ao seu lado, com uma camiseta branca permitindo que sua pele bronzeada ficasse exposta. Passou uma das mãos no cabelo castanho e pigarreou.
- Saudades? – foi o que disse. Ela o olhou minuciosamente, tentando entender o motivo pelo qual aquela pergunta tinha sido feita.
- Também. – respondeu voltando os olhos para o mar.
- Sei... E qual seria o outro fator? – ele tirou os olhos dela e os direcionou para o horizonte.
- Como disse? – suspendeu uma sobrancelha.
- O que mais influencia esse seu olhar nostálgico? – fitou-a. Ela o olhou com curiosidade, não sabia nem por que estava tendo aquela conversa, e o olhar dela não era nostálgico, bem, talvez o fosse, mas quem ele pensava que era para fazer esse tipo de pergunta afinal?
- Hey, não precisa me olhar assim. Sei que está pensando que eu sou um completo estranho, e que você nem deveria está conversando comigo. Mas veja bem, se a gente não arrisca uma conversa em situações inusitadas não temos histórias interessantes pra contar depois, e você também não faz ideia de quantas coisas maravilhosas surgem de diálogos ao acaso. – disse em tom suave. Ela achou aquela situação realmente inusitada, mas gostou de ter ouvido aquelas palavras. E tão bem pronunciadas, de maneira tão natural que ela sentiu vontade em levar a conversa adiante.
- A surpresa. – ela diz enfim.
- Surpresa?
- Sim, é a surpresa que influencia esse meu olhar. Há alguns dias atrás eu nem sequer me imaginaria dentro de um navio, indo pra uma ilha desconhecida, passar o reveillon sozinha, e ainda por cima falando essas coisas para um completo estranho. Mas aqui estou eu.
- Fascinante. – disse sorrindo. Ela sorriu de volta, e voltou a olhar o mar.
- A propósito, pode me chamar de Robbie, e agora eu não sou mais um completo estranho.
- Charlote. E pode me chamar assim mesmo. – ela lhe deu meio sorriso.
- Hum. E se eu quiser chamá-la de Charlie? Não que seu nome não seja bonito, ele é lindo, na verdade combina muito com você. E sabe, o seu rosto me lembra esse nome. Aliás... – parou ao perceber mais uma vez o olhar curioso que ela lhe lançava.
- Você é sempre tão tagarela?
- Às vezes. – disse timidamente.
- Bem, se quiser me chamar de Charlie vai ter que me falar mais coisas sobre você.
- Ah. Adoro o mar, sou surfista e estudo fotografia. Tenho 21 anos e 2 irmãos. É a segunda vez que entro nesse navio, e a primeira que me sinto completamente satisfeito de tê-lo feito. Sua vez, Charlie. – disse piscando um dos olhos.
- Hum... Adoro música, estudo arquitetura. Tenho 20 anos e sou filha única. É a primeira vez que entro nesse navio, e a primeira que tenho esse tipo de conversa com um quase desconhecido. E pra ser sincera, estou adorando.
Ele esboçou um largo sorriso, e ela retribuiu o mesmo. O navio atracou e as pessoas começaram a desembarcar.
- Então, já tem lugar pra ficar? – ele disse já em terra firme.
- Na verdade eu não planejei nada, só ia ficar na praia, e pronto. – ela sorriu satisfeita consigo mesma.
- Meus pais têm uma casa aqui, e sei que Lucia não iria se importar de ter mais alguém conosco. Por falar nela... – disse correndo em direção a outra.
Charlote ficou atônita, petrificada em meio à multidão que ia saindo do navio. Seria possível ser tão ingênua? Mas também, estava tudo bom demais pra ser verdade. E qual era a dele afinal? Por que teve aquele tipo de conversa com ela minutos atrás? Fervilhava de raiva, o viu abraçando a tal Lucia calorosamente. E então ele virou-se, apontando em sua direção. – Ah não, agora mais essa! – pensou. Quando se aproximou estava rindo, ao lado de Lucia.
- Essa é a Charlie, Lu. Mas Chame-a de Charlote até que você a conte mais coisas sobre você.
- Muito prazer, sou a Lucia. – estendeu a mão sorrindo.
- Prazer. – ela fez o mesmo, apesar de sentir-se rígida como pedra. Ele notou seu olhar de incredulidade, era mesmo bom em lê-los.
- Lucia é a minha irmã casula. – disse com um sorriso travesso nos lábios. Charlie riu aliviada e ao mesmo tempo sentindo-se uma estúpida.
- E então, vai nos dar o prazer de sua inusitada e agradável companhia? – disse fitando os olhos esverdeados de Charlote.
- Não quero ser incômoda. – ajeitou a mala nas mãos.
- Não seria incômodo algum, na verdade eu adoraria ter alguém pra conversar coisas femininas, às vezes o Robbie sabe ser irritante. – disse Lucia, dando uma cotovelada no irmão. Esse por sua vez revirou os olhos. Charlie riu, pensando em como aquele dia estava se tornando cada vez mais extraordinário. E acima de tudo, inusitado.
Quando a noite chegou, todos foram para a praia. Lucia acabou encontrando um amigo, que parecia ser mais do que isso. Robbie caminhou pela areia úmida ao lado de Charlote, contando como o mar o fascinava, e como aquele dia havia sido bom para ele. Charlie sentiu-se satisfeita por estar ali, e por ter arriscado.
- Está quase na hora dos fogos. – ele disse.
- Então vamos nos juntar aos outros. – virou-se olhando em direção às pessoas que se acomodaram no gramado próximo à praia. Foi detida pela mão que segurou a sua.
- Espera. – sua voz parecia nervosa.
- Sim? – o encarou com olhar tênue.
- É que eu a conheci assim tão repentinamente, e foi maravilhoso. Quer dizer, hoje de manhã nem passava por minha cabeça conhecer alguém assim como você, e eu estou realmente me sentindo como um adolescente. Não sei ao certo como me comportar, na verdade gosto de olhar pra você e não conseguir ler tudo. Mas isso também me deixa... – foi interrompido pelos dedos finos em seus lábios.
- Você é sempre tão tagarela? – o laçou pelo pescoço e fitou os olhos vivos dele. Esse a envolveu pela cintura, e inclinou-se delicadamente, beijando-a por um longo tempo.
- Os fogos. – ela sussurrou.
- Como? – disse com cara de paisagem.
- Os fogos seu bobo. – puxou-o pelo braço. E foram correndo sentar-se junto às outras pessoas. Aninharam-se na grama, e avistaram Lucia acenando, ainda estava junto com o tal amigo não muito longe dali. Voltaram os olhos mais uma vez para o céu, deixando os rostos ganharem tons distintos.
- Feliz ano Novo, Charlie. – ele disse inclinando-se para beijá-la novamente.
- Feliz ano Novo. – devolveu entre beijos.



- Pauta para o Bloínquês - Edição visual

5 comentários:

vell disse...

May, a foto parece você e Celo! Nossa, parecido mesmo!

Amei o texto, você que escreveu? ;*
Feliz Ano novo, cheiro!

Amanda ~~* disse...

Oi! Acabei de fazer o "Projeto: Eu Escrevo Bem!" e como gostei do que você faz, resolvi te convidar para participar com a gente!
Bom... O projeto é novo, mais espero que goste e claro, participe! O link segue aqui: http://migre.me/3hL24
Espero que visite! Obrigada!
Amanda. Tenha uma boa tarde e um ótimo final de ano!

Maiara :) disse...

Veeell, agora que você falou... é bem parecido com Celo mesmo, haha.

Ah! E sim, eu escrevi, e que bom que você gostou ^^

Feliz Ano Novo pra você também, já não é preciso dizer que estou com saudades né?! Beijoos.

Maiara :) disse...

E Amanda, obrigada pelo convite, dou um pulinho por lá sim ;*

Tay disse...

Você conseguiu me cativar depois de muitos textos lidos com a mesma foto.
Estou seguindo!

Boa sorte!!


PS: E feliz ano novo!!!!!!!!!!!!