segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Encontrar-se

Eram quatro e meia da manhã quando a menina desajeitada escorreu pelo lado da cama. Como gato manso quando acaba de acordar ela caminhou silenciosamente ao quarto do pai, olhou pela greta da fechadura e tudo estava escuro, por baixo da porta ela enfiou um envelope claro. “Tudo teria sido diferente se você tivesse acreditado em minhas verdades.” – Era o que estava escrito na parte da frente do envelope.
Seu pai nunca acreditou em seu potencial, e quando ela dizia que queria outras coisas além daquelas que já conhecia, ele a olhava com uma expressão entediada. Quando ela falava em mudança ele dizia que envelheceria ali, e que ela também faria o mesmo. Isso lhe dava arrepios.
Ela encarou a porta e passou as mãos pela madeira fria, suspirou, e em dez minutos ela já estava do lado de fora, com uma mochila nas costas e um violão nas mãos. Caminhou com passos pesados pelo asfalto úmido. Uma lágrima molhou seu rosto sem aviso, ela tratou de secá-la rapidamente. Disse para si mesma que sua decisão era a certa, e que por mais que isso lhe doesse teria de ser feito. Ela não pertencia àquele lugar, nada naquela cidade lhe atraía. Aos olhos dos outros era um capricho. Aos seus olhos era uma necessidade. E por isso ela estava saindo de casa, para encontrar a si mesma aonde quer que seja. Uma loucura, sim. Mas quem se importa? O que lhe faz chorar nesse dia é a saudade do pai, que apesar de tudo continua sendo seu pai, e ela o ama. Também vai sentir saudades dos poucos amigos que tem. Quer dizer, apenas do amigo que tem. Mas ele vai entender um dia. Assim ela espera.
Enquanto caminha observa as casas ao redor, sabe que não sentirá saudades de nenhuma delas. Ao longe começa a ver o sol colorindo o céu. Uma brisa suave lhe beija a face e ela sorri em silêncio. Depois por algum tempo senta-se a beira da estrada, arrancando a grama da terra com olhar distante. Distraída não percebe o carro que se aproxima. Ele para ao lado dela. A menina levanta-se de súbito. Uma silhueta masculina pula do veículo, bate a porta e encosta-se no capô. Observa a expressão atônita dela.
- Você ia sem se despedir? – diz com olhos tristes.
- Você sabe que eu não gosto de despedidas. Então... – ela passa as mãos no jeans velho.
- Sei... Mas eu achei que merecia, sou seu amigo. Ou isso é só um título figurativo?
Ficam em silêncio por um tempo constrangedor.
- Por você ser o meu amigo eu não queria me despedir. – diz finalmente.
- Hum... Seu plano me parece meio furado.
- Se veio aqui pra zombar de mim pode ir dando meia volta, já estou farta disso. – esbraveja serrando os punhos.
- Vai com calma.
Ela cruza os braços e encara a estrada. Ele continua com olhar fixo nela. Dá mais alguns passos em sua direção.
- Por que você veio aqui? – ela volta a fitá-lo.
- Não está claro? Queria me despedir de você.
- Que droga! Você não deveria ter vindo, isso só piora as coisas. – sua voz soa agressiva.
- Se quiser posso ir embora agora. – ele permanece calmo.
Ela encara a estrada mais uma vez e suspira.
- Desculpe. Eu só queria que não fosse tão difícil. – sua voz soa quase inaudível.
- De qualquer maneira seria muito difícil, vai ser muito difícil. Você não entende?
- Eu sei, mas... Eu preciso fazer isso. Aqui eu me sinto como um pássaro em uma gaiola.
Ela volta os olhos para o chão, e ele coloca uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Ela encara-o, seus olhos começam a embaçar. Ele a abraça e ela fica imóvel por um tempo. Enfim retribui o abraço mergulhando em seu peito. Ele volta a encará-la enquanto inclina-se delicadamente. Por um instante ela fica confusa, mas se entrega. Beijam-se. E ela não sabe o quanto aquele momento durou. Quando se afastam o rosto dela queima, e ele ri.
- Suas bochechas estão... Ah você sabe.
Ela se vira para o outro lado escondendo o rosto.
- Não tem graça.
Ele faz com que ela o olhe outra vez.
- Acho que isso é um adeus – encara-o.
Ele a olha como se a estudasse, inclina-se mergulhando nas ondulações do cabelo negro que ela tem.
- Eu vou com você. – sussurra enfim.


- Pauta para o Bloínquês - Edição conto/história

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