domingo, 26 de dezembro de 2010

Fático


Olha-me com olhos de penúria. E isso me dói profundamente. Pois não me lembro de ter visto esses olhos antes. Presos naquela face enrugada e cansada da vida. Pergunto-me onde está a mulher que me ensinou a fazer bolo, que remendou as minhas roupas, que cantou pra mim em tardes quentes. Pergunto-me onde está a mulher que adorava os meus afagos em seu cabelo fino, que me enchia de guloseimas quando a minha mãe me proibia de comê-las, e que ria de todas as minhas piadas sem graça. Porque essa mulher que hoje me atravessa com esse olhar vazio não é nada parecida com aquela de antes. O tempo levou todas as coisas boas, e deixou-a assim: Sem risos, sem olhares quentes, sem vontade de seguir. Envelheceu. E a cada dia que passa a vida lhe esvai. Suas limitações tomaram rumos irreversíveis, e isso me assusta. É difícil olhar pra ela e ver tristeza, ver que lhe falta até a memória das coisas que um dia lhe foram boas. Talvez se esqueça do meu rosto, e de todos mais que lhe observam com expressões de pena e preocupação. Quando lhe perguntamos como está, já sabemos a resposta. “Não vou bem.” – murmura.
Para os rostos mais infantis às vezes mente, e diz que está bem. Mas até esses conseguem ver através daqueles olhos opacos.
Hoje elogiei o seu vestido, sei que ela gosta de sentir-se bonita. Ela agradeceu-me com um sorriso meio chocho. Foi alguma coisa diferente da expressão rígida que mantém cravada entre rugas. E me deixou feliz por um breve e quase imperceptível momento. Ainda que eu consiga arrancar breves sorrisos dela, sinto uma dor visceral por vê-la assim. E a impotência perante o tempo pesa-me nos ombros. E por mais difícil que seja dizer, no fundo sabemos que ela nunca mais voltará a ser o que era antes.

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