domingo, 5 de dezembro de 2010

Inaceitável

A mulher cansada, enfeitada de olheiras, mapeia a presença daquele que agora lhe falta. Na sala ela vê as marcas das botas na mesa de centro, misturadas às marcas de café forte, brigava com ele todas as vezes que o via marcando a sua pobre mesa. E ele ria.
No sofá revistas de esporte espalhadas, ela nunca havia aberto-as até hoje. Folheava uma por uma, sem prestar atenção em nada.
- Isso é uma perda de tempo. – sua voz era monotonia.
- O tempo não me diz muito, querida. – suas palavras acariciavam a ironia delicadamente.

Leva os olhos para o tapete queimado em lugares sortidos por pontas de cigarro que escorregavam em momentos de distração.
- O cigarro ainda vai te matar. – ela sempre dizia.
- Mas todo mundo tem que morrer de alguma forma não é? – ele sempre ria.

A mulher arrastou seu corpo até a cozinha. Olhou melancolicamente para a quina da mesa corroída pelas inúmeras tampas de cervejas insistentemente abertas ali.
- Qual é o seu problema com o abridor? – falava alto, segurando a cintura.
- Ele é o seu amante. Se esconde sempre quando chego. – revirava os olhos e beijava-a.

Ela passa os dedos na madeira destroçada, olhando para a porta da geladeira que está cheia de papéis em branco. Foi numa tarde chuvosa que ele havia os colado ali.
- Sabe aquelas famílias condicionais que pregam milhares de bilhetinhos na porta da geladeira com os afazeres do dia? – falou desligando a TV para reter toda a atenção dela.
- O que é que têm elas?
- Venha ver. – puxou-a pelo braço até a cozinha.
- Às vezes você me assusta sabia? – disse no meio do caminho.
- Aí está. A nossa rotina.
- Esse amontoado de papéis em branco implica dizer que a nossa rotina é... vazia?!
- Não. Significa dizer que a nossa rotina é inconstante. E que só a gente vai entender quando olharmos para os papéis. Nós os preenchemos mentalmente. – piscou para a figura abobalhada a sua frente.
Ela o entendia, mas não assumia. Não dava os créditos por ele ter uma genialidade incomum sobre coisas tão pequenas. Agora olhando para os papéis, os via mais vazios do que nunca.
Escorrega as costas pelos azulejos frios entregando-se ao chão. Ainda tinha cheiro do extrato que ele havia derramado quando se esqueceu de usar a tampa do liquidificador.
- Você às vezes é tão estúpido. – esbravejava.
- E às vezes até que você é doce. – zombava o outro.
Encostou o rosto no chão, sentindo o cheiro do extrato, e viu embaixo do armário o abridor. O seu amante. Como ele o chamava. Levantou-se devagar, seguindo o seu mapa até o banheiro. As meias dele ainda estavam jogadas pelo corredor, ela apenas observou-as, levando os olhos para passearem na desordem que habitava o seu banheiro. A culpa era dele, claro. A tampa da pasta de dentes estava no ralo da pia, o espelho manchado, a tampa do vaso suspensa. Todas as pistas de que ele esteve ali um dia.
- Eu não arrumo mais o banheiro. Desisto.
- Você é engraçada. – ria.

Encaminhou os seus pés descalços para o quarto, sentou-se na cama desarrumada. Olhando em volta, observando tantas marcas que ali ele deixou. Suas roupas, livros, gibis, revistas de esporte. Sapatos e pantufas. Ela sempre ria quando ele as usava. Os porta-retratos que ele sempre se encontrava com aquele riso fácil. Segurou um com firmeza, apertando contra si. Tentativa inútil de senti-lo. Chorou em silêncio. Passou a mão por cima de seu travesseiro. Lembrou da última vez que o viu. Ele estava com suas botas pesadas, camiseta branca, jaqueta de couro e calça jeans. Ela lembra até do movimento no tecido enquanto ele falava.
- Você sabe, eu preciso ir.
- Não! Eu não sei. Eu não entendo. – escondeu o rosto nas mãos. Ele caminhou até ela, e encarou-a com seriedade.
- Você não pode ir! Você simplesmente não pode. Eu te odeio tanto. – socou o peito daquele que lhe segurava.
- Eu preciso. Me desculpe. Mas eu preciso fazer isso.
- Você é um estúpido mesmo. Não entende que há milhares de homens para servir a pátria em seu lugar? E que se dane a pátria. Que se dane o exército. Que se dane você.
- Eu sei. Mas nenhum deles sou eu. – abraço-a com força. Ela desmoronou em seus braços.
- Mas se você for, você pode... Eu não quero que isso aconteça, eu quero você aqui. – sussurrou enquanto fitava os olhos cinza daquele que a encarava com cumplicidade.
- Você sabe que por você eu sempre volto. – beijou os lábios salgados pelas lágrimas teimosas dela.
- Mas isso pode levar muito tempo. E isso é cruel. Machuca. – soluçou passando as mãos pela barba por fazer dele.
- Você sabe que o tempo não me diz muito, querida.
- Mas e pra mim?
- Você também sou eu. Entende agora? Somos uma coisa só. Por favor, pare de chorar.
Ela o encarou com os olhos embaçados. Amava aquele homem, não era clichê, era a verdade incontestável que vivia. E o amava de uma maneira estranhamente incomum. O odiava por isso também. Mas um ódio apenas dito por dizer. Era assim entre eles. Engraçado.

O telefone toca, ela o encara com remorso, deixando que a pessoa ouça a sua voz rouca na gravação feita há duas semanas atrás. - Por que você não liga novamente daqui a dois meses? Depois de bip ela ouve a voz da sua amiga, não digere uma só palavra dita em tom preocupado que ecoam pelo quarto. Desvia os olhos do aparelho eletrônico, levanta-se e olha pela janela, como faz todos os dias. Esperando ver a figura de jaqueta escura e mochila nas costas amassar a sua grama com aquelas botas pesadas.
Ela apenas quer voltar a ter motivos para se irritar por nada. Quer ter motivos para odiar aquele seu amado homem.


Pauta para o Bloínquês - Edição conto/história



2 comentários:

aldaí disse...

muito criativo....
gostei...

Maiara disse...

thanks aldaí ^^