segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Inevitável

Quando ela entra a casa está escura, tem garrafas espalhadas por todo o canto, na mesa de centro bandejas de alumínio e sacos de salgadinhos. O cinzeiro transborda e no chão uma silhueta ébria segura uma garrafa de vinho quase vazia. Ela abre as persianas deixando a luz invadir o ambiente. Ele aperta os olhos e leva os braços até a face.
- Que merda é essa? Você quer me cegar? – resmunga.
Ela não fala nada, começa a tirar o lixo da sala. Ele permanece no chão, olhando para a TV desligada com cara de paisagem. Depois de tirar quase todo o lixo ela senta-se no sofá.
- O que veio fazer aqui? – ele diz encarando a garrafa.
- Saber como você está. – ela encara-o preocupada.
- Satisfeita? – levanta-se abrindo os braços, ainda com a garrafa na mão.
- Não. – o seu olhar é de lamento.
- Tanto faz. Você já conhece a porta. – dá de ombros jogando o corpo no sofá, ao lado dela.
Ela suspira sem dizer nada. Ele está com os olhos fechados.
- Eu quero te ajudar. Estou preocupada. – diz finalmente quebrando o silêncio.
- Você não pode. – ele aperta os olhos jogando a garrafa no tapete.
- Mas...
- Você nunca mudará o que aconteceu. – a interrompe.
Ele se inclina, escondendo o rosto entre as mãos. Ela o observa sem saber ao certo o que deve fazer.
- Não foi culpa sua. – é o que consegue dizer.
Ele a encara, com os olhos vermelhos rodeados por olheiras negras.
- Você não entende. Eu briguei com ele naquela noite, eu disse coisas horríveis. E ele saiu dirigindo, nervoso. E se não fosse por isso ele... – cerrou os dentes.
- Você não pode se culpar por isso. Brigas entre irmãos acontecem o tempo todo. E o acidente não foi culpa sua. Às vezes acontecem coisas que fogem do nosso controle. Eu sei que o seu irmão te perdoou pelas coisas que você disse. – ela encosta a mão nas mãos dele.
- Como você pode ter certeza disso? – ele a encara.
- Porque ele te ama. E quando nós amamos aprendemos a perdoar.
E pela primeira vez ela o vê chorar, o abraça, pois sabe que ele não quer que ela o veja dessa maneira, tão vulnerável. E ele fica aninhado em seu abraço, como criança chorando. E naquele dia sentiu-se como se alguém houvesse tirado o peso do mundo de suas costas.

- Pauta para o Bloínquês - Edição musical


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