sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Nas asas da Mariposa

Em frente ao espelho ela tinge os lábios com cor rubra. Ajeita no corpo o vestido branco e dourado, na luz suas ondulações iluminam-se. Passa as mãos sobre o cabelo farto e sobe nos saltos agulha. Está pronta. Pega a bolsa que descansa em cima da cama e sai por noite a fora. Tamborilando os saltos na calçada ela mantém os olhos alerta, a procura de luzes acesas. Como mariposa. Sem demora adentra em um bar vagabundo, exageradamente cheio de luzes coloridas. A mariposa caminha até o balcão, detendo olhares dos mais variados tipos de bêbados. Senta no banco carcomido, pede uma bebida e entorna alguns copos. Recusa alguns convites que chegam com cheiro de álcool, e sai de lá. Em busca de mais. Em busca de lugares que tenham luzes acesas. E é assim que passa as noites, pousando de bar em bar. Caçando até o menor sinal de claridade. Quando o sol começa a nascer ela volta para casa, trocando pernas, emanando um cheiro ardente e insalubre. Volta, pois do sol ela não gosta, prefere a luz lunar. Abre a porta depois de algumas tentativas, e se joga no sofá, só acorda a noite. E torna a refazer seus vôos em busca de luz. Pobre mariposa.

(...)

Uma noite, porém, cansada de voar e nunca chegar a lugar algum, ficou em casa. E por três dias seguidos não os passou de frente ao espelho, não arrumou os longos cabelos, não queimou os lábios com o batom rubro. A mariposa estava cansada. Cansada de seguir luzes artificiais. Essa noite ela ligou a TV, viu um filme antigo enquanto tomava um café forte. Ouviu um CD do Elvis, dançou sozinha, rodando na sala com os braços abertos. Havia se esquecido de como gostava do Elvis, aquele CD tinha sido presente do seu pai. Ah... O seu pai. Não falava com ele faziam dois anos, como sentia a sua falta... Abaixou o volume e jogou-se na cama, embalou as lembranças sobe som de “Are You Lonesome Tonight?”. Sentia falta da vida de antes. Antes de lhe jogarem em um casulo e lhe forjarem uma metamorfose. Antes de ela mesma ter ajudado com a forja. Pobre mariposa. Pegou uma caixa antiga e molhou as fotografias com lágrimas pesadas, que há tempos foram escondidas pelo álcool excessivo. Coberta por nostalgia e culpa, pegou o aparelho celular. Discou a sequência de números que há dois anos não tinha sentido o toque dos seus dedos finos. O celular chamou duas vezes, na terceira alguém atendeu.
- Pai?!
Silêncio.
- Pai... Eu sei que está me ouvindo. Eu só queria dizer que eu não te odeio. Não odeio a mamãe. Não odeio o Tom. Não odeio ninguém. Desculpe-me.
Com isso ela desligou o telefone, sentindo a garganta seca. Ficou encarando o aparelho, até que ele tocou.
- Filha. Nós amamos você. Não lhe procurei antes porque sabia que você precisava desse tempo. Sua mãe queria que eu lhe procurasse no primeiro dia em que você saiu de casa. Mas eu não o fiz, e foi doloroso. Desculpe-me se fiz você se sentir pressionada. Desculpe-me por ter prendido as suas asas.

(...)

A mariposa enfim deu a luz ao significado que a luz podia ter. Foi assim que ela aprendeu a voar alto. E foi assim que entendeu que a liberdade às vezes pode ser quando você está com mais alguém, ou com muitas pessoas.






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Gente, essa é pra fechar o 2010. E que 2011 seja um ano cheio de luz, nos seus mais variados e verdadeiros sentidos. God bless us.

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