sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sem dama e sem honra

Empacotaram-lhe em um vestido elegante, e lhe disseram que iria caminhar como se planasse. Entregaram-lhe anéis dourados, e lhe avisaram que seria dama. A dama de honra. Impuseram-lhe e não lhe perguntaram, na verdade odiou toda a ideia de dama e de honra. Pois não viu honra alguma. E menos ainda dama. Não achou graça em ficar parada o tempo todo em um vestido que lhe fazia parecer um bolo decorado. Ainda por cima estava usando sapatos que lhe apertavam os pés. As pessoas olhavam-na e diziam que era a coisa mais linda do mundo. Pouco lhe importava. Queria mesmo era que acabasse tudo bem depressa e que fosse arrancar o vestido. Enfiar as mãos no bolo. Sujar até a alma de glacê. E tudo ficaria bem. Mas para a sua decepção ela notou a presença de um menino travesso que lhe mostrava a língua e lhes arremessava piscadelas. Ela revirava os olhos o achando um perfeito imaturo. Será possível que teria de aguentar ainda mais essa? Quando lhes falaram que já podia ir entregar as alianças, ela caminhou sem leveza, derrubou as alianças no tapete de camurça e o menino moleque as cobriu com seus sapatos bem engraxados. Ela viu tudo. Com olhar furioso mudou seu trajeto e foi até ele.
- Vamos, não tenho tempo para as suas brincadeirinhas sem graça. Dei-me as alianças, quero acabar logo com isso.
- Só se você me der um beijo.
- Eca! Prefiro beijar a careca daquele homem ali, está vendo? – apontou para um dos convidados.
- Então nada feito. – cruzou os braços.
- Preste bem atenção seu asqueroso, os noivos estão nos olhando, se eu aumentar o tom de voz eles virão até aqui, e você estragará o casamento.
- Eu?! Mas não fui eu que deixei cair as alianças...
- Ora seu... – sem pestanejar empurrou o menino com força. Esse caiu entre algumas flores decorativas. Os convidados os olharam com horror nos olhos. Alguns escondiam risadinhas. A menina abaixou-se com naturalidade, pegou as alianças e afrouxou o laço do vestido. Soprando uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre os olhos caminhou com passos pesados até o altar.
- Não sei pra que tanta parafernália só pra lhes entregarem dois anéis. – disse enfiando as alianças nas mãos do casal. Esses lhe lançaram olhares assustados. A menina virou as costas e saiu com passos firmes, resmungando para quem quisesse ouvir. O outro tirava flores de sua roupa engomada, quando ela passou por ele riu satisfeita. O padre pigarreou e continuou com a cerimônia. A dama de honra saiu da igreja, arrancando o laço do vestido e o amarrando no cabelo que lhe feria a paciência que já não tinha.
- Agora sim, serei só eu e o bolo. – disse para si mesma enquanto deixava os sapatos apertados para trás.




3 comentários:

. pamela moreno santiago disse...

parabéns, você escreve muito bem.
seguindo aqui.
beijos e um feliz 2011 *-*

Maiara :) disse...

Obrigada ^^
beijo, feliz 2011 pra você também!

. pamela moreno santiago disse...

obrigada :)