quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aos heróis

Nota rápida: Antes de qualquer coisa, se começar a ler esse texto, por favor, termine.
Eu sei, ficou extenso, e eu queria deixá-lo muito mais. Mas conheço as reações das
pessoas quando se deparam com textos grandes. Não são todas elas, mas uma
maioria significativa. Enfim, o escrevi pensando nos últimos acontecimentos
originados pela chuva. Espero que cause o mesmo efeito que causou em mim
quando o escrevi. Let's go.



Lúcia acordou cedo, junto com Marcos, o marido. Ele iria trabalhar e ela cuidar do filho recém chegado àquele mundo. O choro agudo da criança lhe agredia os tímpanos, ela foi logo amamentando o pequeno serzinho. O marido fazia um café forte para despertá-lo naquele dia chuvoso e sombrio.
Lúcia embalava a criança em seu colo, Marcos caminhou até a esposa e filho para despedir-se. Lúcia o olhou preocupada, sabia que seria um dia difícil. Toda aquela chuva incessante, ela sempre ficava com o coração na mão quando o marido saia para trabalhar. Só sossegava quando já era noitinha, e ele voltava. Esgotado. Ela sempre perguntava sobre as coisas que ele tinha feito. Os incêndios que apagara, as pessoas que salvara, as situações difíceis que enfrentara. Ele evitava falar sobre os detalhes, queria preservar a esposa. Ela se preocupava demais com ele.
Certa vez ele pensou que jamais poderia ter uma família, pois adorava demais o trabalho, adorava demais o que fazia. E não queria ligar-se a outras pessoas, pois sabia que isso às machucaria caso acontecesse alguma coisa com ele.
Decidiu que seria solitário, assim poderia ir para o trabalho com a cabeça vazia, poderia dedicar-se a salvar sem se preocupar em ser salvo. Mas essas coisas são difíceis de escolher, ele conheceu Lúcia exatamente em um salvamento, e como nos filmes, se apaixonaram. Entrou no apartamento em chamas e a trouxe carregada, inconsciente e suja. Quando já estava recuperada, quis conhecer o homem que lhe salvara a vida. E já estão casados há três anos.
Na cozinha Marcos deu uma olhada no filho pequeno, aninhado no colo da mãe. O beijou na pequena testa, passou os dedos ásperos nas mãozinhas e riscou um sorriso no rosto. Lúcia o observava como se observasse a mais linda cena da vida. Ele levantou os olhos procurando os dela, a beijou e passou as mãos em seu rosto.
- Tenha um bom dia querido. – ela disse quase num sussurro.
- Obrigada, amor. À noite estou de volta.
- Lhe espero chegar.
- Não precisa, descanse mais cedo. Sei que está acordando muitas vezes durante a noite. – olhou para a criaturinha em sono angelical nos braços da mãe.
- Não é nada. Gosto de lhe esperar. – ela forçou um sorriso preocupado. E ele sorriu de volta.
Já na porta, beijou-o e acenou ajeitando o filho no colo. O céu ainda estava enegrecido, e a chuva não descansava. Logo entrou para evitar que um possível resfriado caísse sobre a sua cria. Pela janela ainda observava o marido descendo a rua com a capa de chuva lhe envolvendo. Em seguida pôs o filho no berço e sentou-se à sala, para assistir aos noticiários. Era assim que fazia quase todos os dias, principalmente em dias nebulosos como aquele.
Marcos recebeu a notícia que iria para um local de risco de deslizamentos, e que já havia vítimas no lugar. Teria que buscá-las. Não demorou para o carro de bombeiros chegar ao lugar soterrado. Os bombeiros agiam rápido, mas com cautela, era perigoso, porém qualquer minuto gasto era uma vida em jogo. Marcos e mais três amigos procuravam pelas vítimas entre os escombros. Estava tudo destruído. Seus olhos como radares buscavam qualquer movimento, seus ouvidos buscavam vozes abafadas.
Não se demorou e Marcos ouviu um grito fino de uma criança, ele gritou, avisando sobre o achado.
Trouxeram uma maca e equipamento de primeiros socorros, Marcos tirava os escombros com devida cautela. Viu um braço fino coberto de lama. Tirou mais algumas coisas até ver o rosto assustado da pequena criança, e o corpinho sujo. Estava feriada em várias partes do corpo, sangrava muito, chorava, mas estava viva. Marcos caminhou com ela pelos escombros até a maca, satisfeito, com um sorriso no rosto. Sussurrava que tudo ficaria bem. Ela chamava a mãe, o pai. Mas eles não estavam ali, provavelmente não estivessem mais nesse mundo.
Em casa Lúcia mantinha os olhos pregados na TV, zapeava pelos canais que transmitiam os mais recentes acontecimentos. Logo achou a notícia esperada. Corajoso bombeiro salva a vida de uma criança soterrada. Quando Informaram o nome do bombeiro heróico, ela juntou as mãos em agradecimento. Amava aquele homem. Amava-o com tudo o que podia.
A criança foi levada ao hospital, e as buscas continuaram, Marcos subiu ainda mais o morro escorregadio, e ouviu mais uma coisa. Mas dessa vez não era um grito, era o barulho do morro desmoronando.
Ele correu, chamou pelos amigos que estavam por ali. Procurou algo firme para lhe salvar a vida, pensou na esposa, no filho. Não, não poderia morrer. Ele teria de ensinar o garoto a jogar bola, andar de bicicleta, empinar pipa, pescar. Tantas coisas ainda pra fazer. Não podia morrer ali.
Sim, ele amava o que fazia. Amava salvar vidas, amava a sensação que sentia quando via o agradecimento no rosto de pessoas que nem o conhecia, mas que agradeciam pela sua existência. Amava ainda mais a mulher, salva por ele. E também a sua salvadora, aquela que o mantém firme quando ele se sente cansado. Definitivamente, não podia morrer.
Eram esses pensamentos que tomavam conta de sua mente quando ele escorregava pelo morro, quando viu a terra querendo tomar conta de si. Viu alguns dos seus amigos sendo soterrados, aquilo jamais lhe daria paz. Aqueles pensamentos o assombrariam para sempre se sobrevivesse. Sentiu vontade de salvá-los, mas nem ele mesmo estava a salvo. E as famílias deles? E as Lúcias? Os filhos? Todos pagariam por esse preço, todos sofreriam por seus maridos e pais que escolheram ser heróis.
A sala parecia grande demais para Lúcia, viu as imagens do desmoronamento transmitidas por um helicóptero, viu os bombeiros sendo soterrados. Estava aterrorizada, nem o choro do filho recém acordado a tirou do choque. Marcos. Era o único nome que lhe invadia a mente.
Marcos. Ele tombou em uma árvore resistente que se manteve firme perante aos deslizamentos, talvez ele fosse como aquela árvore. Agarrou-se a ela com toda a força que podia, começou a escalá-la enquanto a lama ia tomando conta de tudo, lá embaixo viu quando o carro de bombeiros foi soterrado. Agradeceu por estar vazio, agradeceu por alguns dos seus amigos estarem salvos.
Apertou os olhos, ainda agarrado ao troco da enorme árvore que tombava, mas não se deixava levar. Como poderia, em meio a tanto caos, uma árvore ser tão forte? Vai contra a lógica biológica das coisas. Mas quem se importa? Chame de milagre se quiser, Marcos já presenciou muitos deles. E foi por um milagre que sobreviveu àquele dia.
Quando a chuva deu uma trégua o morro pareceu mais estabilizado. Dois bombeiros foram ao resgate dos amigos, apenas um sobreviveu. Aquele que se agarrou a árvore como se ela fosse a sua vida. E naquele instante, foi.
Mais tarde, já no corpo de bombeiros, Marcos tinha ferimentos leves. Mas isso não era nada perante a morte que ele observou de relance hoje mais cedo.
Levou os olhos ao celular, viu 52 chamadas perdidas. Lúcia era a responsável por 80% delas. Estava tão cansado, estava triste, dilacerado. Seus amigos estavam mortos. Não queria se alegrar por ter sobrevivido. Agradeceu, apenas. Sabia que isso era muito, sabia que sobreviver naquele instante tinha sido tudo para ele. Ligou para casa. O telefone não chamou nem uma vez por inteiro.
- Alô! – a voz de Lúcia era desesperadora.
- Oi amor, eu estou bem.
- Oh Marcos, oh Deus. Obrigada. Obrigada. Eu tive tanto medo, eu... Oh Deus. – chorava ao telefone.
- Calma querida, eu estou bem agora. Tudo ficará bem, logo estarei em casa.
- Está bem querido. Estarei te esperando. – disse eufórica.
Naquela noite Lúcia pensou em pedir para Marcos largar o corpo de bombeiros, muitas vezes já lhe ocorreu isso. Mas ela não podia privá-lo de uma das coisas que ele mais adorava no mundo. Era egoísmo da parte dela. E ela sabia, ele tinha uma tarefa importante. Pessoas normais às vezes vivem e seguem suas rotinas individuais, não se sentem incumbidas de nada que lhes causem um impacto notável. Mas Marcos não, ele tinha o formato exato daquela tarefa, ele nasceu para aquilo. Ela sabia, e o deixaria continuar a salvar vidas, assim como a salvou naquele dia fatídico. Assim como a salva todos os dias.

2 comentários:

Luanderson disse...

"Mas Marcos não, ele tinha o formato exato daquela tarefa, ele nasceu para aquilo."
Que a cada dia vc seja que nem Marcos, um amante na sua arte de saber fazer bem as coisais. Sucesso!

Danii disse...

Poucos são os que se arriscam tanto por outros. E um mundo no qual o individualismo é tão presente, Marcos é um herói mesmo :D