terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Crucial


Numa sala de ambiente alegre a moça calça suas meias finas, se preparando para o dia que jamais havia desejado que lhe ocorresse.
Suas roupas combinam com o local, mas por dentro não há mais cor.
Ao se fazer arrumada, mas não pronta, descansa o rosto nas mãos enquanto direciona os olhos para o dia nublado que pulsa lá fora. Suas lembranças afloram-se como se acompanhassem os fatos naquele instante. Estava com ele outra vez. Estava no dia em que tiveram uma conversa estranha.
- Querida, quando eu não estiver mais aqui... Quer dizer, você sabe sobre o que eu estou falando não é? – disse passando em frente a um cemitério. Ela o encarou, olhou para as árvores secas que ele mirava e voltou a olhá-lo com temor nos olhos.
- Que tipo de conversa é essa? – disse em tom irritado.
- Não é nada, só quero que você fique sabendo que não quero um daqueles funerais cheio de gente vestida de preto, e aquelas músicas fúnebres. Não quero nada disso. – enlaçou os braços dela.
- Por que você está me dizendo isso? – ainda mantinha os olhos assustados.
- Não é nada querida, é só pra você saber. – disse passando as mãos sobre o rosto contraído dela.
- Por favor, conte-me a verdade. – atracou os passos enquanto agarrava-o pela camisa.
- Desculpe-me eu não deveria falar sobre esse assunto. Não há nada de errado, só falei por falar. – ele a olhou nos olhos.
- Está bem. Vamos embora.
- Querida, lembra dos votos que lhe dediquei em nosso casamento?
- Claro. “O corpo um dia morrerá, mas o nosso amor perdurará pela eternidade”. – Ela o encarou mais uma vez. E ele sorriu satisfeito.
- Está bem. Vamos embora. – disse por fim.
Mas não estava bem. Ela passou a noite pensando sobre o acontecido. E nos três dias consecutivos ela deixou-se esquecer. Pois ele os transformou nos melhores dias de sua vida. Eles viajaram, e conheceram muitas coisas juntos. No terceiro dia regressaram e assistiram a um filme antigo, calçavam meias e tomavam chocolate quente.
Hoje ela não gosta mais de chocolate quente, pois o cheiro lhe faz lembrar da noite em que arrancaram uma parte sua. A noite em que um relógio foi o motivo dela ter perdido toda a sua cor.
Quando ele foi embora naquela noite, um assaltante lhe parou na esquina da rua, pediu seus pertences e ele foi lhe dando. Mas o maldito relógio ficou preso no braço, ele tentou e tentou. Nada. O assaltante apenas atirou. Sem pensar em nada, sem pensar em ninguém. Destruiu não apenas uma vida, mas várias outras ligadas àquela.
Agora ela lembra das palavras ásperas do policial sobre a morte do seu outro eu, lembra de todas as lágrimas derramadas. Lembra de toda a dor que ainda está ali presente. E a conversa próxima ao cemitério. Será que ele já sabia? Loucura. – pensa.
Hoje ela vestiu-se com o seu vestido estampado que ele tanto adorava, foi presente dele, aliás. Sabia que seria mal vista pelas pessoas quando a vissem chegar com tantas estampas alegres naquele dia triste com cor de chuva. Mas ela não se importa, ela está do jeito que ele lhe pediu. Na saída pega um CD do Elvis, a música que eram deles é a que vai ser tocada: Love Me Tender.
Está tentando fazer o que ele lhe pediu, tentando ser forte, mas sabe que no fundo está destroçada.
- Pauta para o Bloínquês - 10ª Edição roteiro.

2 comentários:

. pamela moreno santiago disse...

muito obrigada *-*
tens 19 também então? rs ^^
beeeeijos

Maiara :) disse...

por nada :]
sim, tenho ^^
bjs