domingo, 2 de janeiro de 2011

Laços

Entrou em casa correndo, espremendo a mochila contra o rosto. Subiu as escadas e bateu a porta do seu quarto com força. Jogou-se na cama, apertando o seu urso e o molhando com lágrimas ligeiras. A ponta do nariz estava vermelha, e os olhos marcados.
- Querida, está tudo bem? – a mãe bateu na porta do quarto.
- Está! – disse a menina entre um soluço e outro.
- Posso entrar? – sua voz soou calma e materna.
- Não mamãe! Me deixa ficar sozinha! – apertou ainda mais o urso contra si.
A mãe ficou em silêncio por um instante.
- Mas querida, eu só quero conversar com você.
Não se ouvia mais nada além dos soluços da pequena menina.
- Está bem. – disse fungando.
A mulher caminhou com cautela e sentou-se ao lado da menina, tinha uma expressão preocupada.
- O que houve meu amor?
- Não quero que fale essa palavra perto de mim. – apertou o urso com mais força.
- Que palavra? – disse acariciando o cabelo amendoado da filha.
- Amor! – gritou trincando os dentes.
- Ora, por que não?
- Porque é uma palavra idiota. E estúpida. – encarou a mãe com os olhos embaçados.
- Ah, minha querida... Não fale desse jeito. – passou o polegar pela face molhada da menina. Essa deu de ombros enquanto virava o rosto para o urso novamente.
- O que aconteceu? – disse baixinho.
- O amor não existe mamãe. Não existe. – voltou ao pranto.
- Mas é claro que existe querida. Eu amo você, e você ama a mim também. E ama a seu pai, e ao Tobbie. Não é?
- Mas não é esse tipo de amor mamãe. Eu falo do outro. – se ajeitou na cama, virando-se para a sua mãe outra vez.
- Que outro? – ergueu uma sobrancelha.
- Sabe quando o papai olha pra você enquanto você está distraída, aí quando você percebe que ele está te observando os dois riem? É esse tipo de que eu estou falando.
Sua mãe não pôde evitar, teve de rir. Mas os olhinhos da pobre menina continuavam tristes.
- Está certo. Mas se você vê esse amor entre o seu pai e eu, como pode dizer que ele é estúpido e que não existe?
- Mamãe, eu estou falando que para mim ele não existe, e que para mim ele é estúpido. Não o seu amor. O meu, e que agora não existe mais.
- Ah sim. E por que você diz isso?
A menina a encara, passando a mão na franja que insiste em cair sobre os olhos.
- Porque hoje eu vi o Max rindo para a Jane, e foi da mesma forma que ri pra mim. – fitou as mãos que apertavam o urso.
- Mas minha filha, isso não significa dizer que ele goste dela da mesma maneira que gosta de você. Ele pode rir assim para os amigos dele também.
- Não mamãe, ele nunca riu assim pra ninguém além de mim. E eu conheço todos os risos dele.
- Ah meu bem, você não pode sofrer assim por esse motivo. – puxou a filha para si.
- Eu sabia que você não iria entender! – manteve-se rígida enquanto a sua mãe afagava o seu cabelo.
- Eu entendo querida, mas o que eu estou dizendo é que você pode ter entendido errado. Um sorriso não pode mudar o que você sente por ele, ou o que ele sente por você.
- É claro que pode mamãe! Você iria gostar de ver o papai rindo para outra mulher? Não qualquer riso, mas aquele que ele só faz por e para você.
Era verdade, a filha estava deixando a mãe sem palavras. Tão pequena e tão sagaz. A mãe suspirou, e ouviu a campainha tocar. “Salva pelo gongo.” – pensou.
- Espere um instante, vou atender à porta.
A menina revirou os olhos com o velho urso nos braços, ouviu vozes lá embaixo. E reconheceu de imediato quem havia entrado em sua casa, estava subindo as escadas agora. Ela passou as mãos rapidamente no rosto, tentando limpar as pistas que as lágrimas haviam deixado. Ajeitou o urso ao seu lado na cama e sentou-se de maneira agressiva, com os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos.
- O que você quer aqui? – disse com aspereza na voz.
- Eu fiquei preocupado, você saiu antes da aula acabar. E também não falou nada. – se aproximou.
- Eu não quis interromper a sua conversa com a Jane. – deu de ombros. E ele sentou-se ao seu lado.
- Ah. E por que está brava? – fitou-a.
- Você ainda me pergunta?! Vai perguntar para a Ja-ne. Aliás, nem sei por que você veio aqui. Deveria ter ficado lá com ela, rindo para ela. Daquele jeito.
- Ah... É isso. – ele sorriu.
- Ainda tem a coragem de debochar de mim?! Saia agora! – ela cravou seus olhos nos dele como se quisesse arrancá-los.
- Calma, eu não estou debochando de você. E sobre a conversa com a Jane, ela estava me perguntando de quem eu gostava na sala. Eu disse que gostava de você, e por isso sorri daquele jeito, desse jeito. – sorriu mais uma vez, do jeito que era só dela.
A menina deixou mais uma lágrima escorregar, e ele passou a mão carinhosamente para secá-la. Beijou o rosto salgado dela, de maneira doce e inocente. E ela sorriu para ele, do jeito que era só dele.
- Me desculpa Max, eu sou uma idiota.
- Não, não é. Só um pouco cabeça-dura, e impulsiva, irritadinha, e também...
- Já entendi, pode parar.
Riram juntos. Risos que eram só deles, e de mais ninguém.

3 comentários:

Luanderson disse...

Bela história.

O Leão da Montanha disse...

Um história legal. Porém ficaria melhor de ler se você desse espaço entre os parágrafos. Seu blog está muito legal.



Beijos, fique com Deus e feliz 2011

Maiara :) disse...

Thank you guys.

Hum, sobre os parágrafos é que acaba estendendo ainda mais o texto, e muita gente se assusta com o tamanho e acaba não lendo :P

Amém, feliz 2011 ;*