domingo, 30 de janeiro de 2011

A linha fina que divide os lados

Ontem eu adorava essa minha cortina da janela da sala, era florida e alegre; hoje eu odeio essa cortina da janela da sala, é sem graça e brega. Ontem eu adorava esse sofá, tinha um cheirinho de antiguidade; hoje eu odeio esse sofá, tem cheiro de mofo e eu sou alérgica. Ontem eu adorava essa mesa de centro, tinha até um cheiro de café que exalava dela; hoje eu odeio essa mesa, está manchada de café. Ontem eu adorava os chocolates da geladeira; hoje eu odeio pensar que comer aquilo vai me engordar dez quilos. Ontem eu adorava as flores do jarro da mesa; hoje eu odeio esse cheiro doce de flor que tomou conta da casa. Ontem eu adorei ouvir o canto matinal dos pássaros; hoje eu odiei acordar com a luz forte invadindo os meus aposentos.
Ontem eu amei tantas coisas, e hoje eu as odeio. E sabe por quê? Porque ontem ele notou que eu havia trocado a cortina, e fez um elogio a ela. Ontem ele se sentou no sofá, e disse que adorava o cheiro de coisas velhas. Ontem ele derramou café em minha mesa de centro, e ficou todo desconsertado enquanto tentava limpar a sujeira. Ontem ele me deu chocolate, e disse que era impossível eu engordar, e se acontecesse ele não se importaria, pois eu estaria bonita de qualquer maneira. Ontem ele chegou à minha porta ao entardecer escondendo flores em suas costas. Ontem eu acordei e a primeira coisa que vi foi aquele rosto emoldurado pelo cabelo bagunçado dele.
Por isso ontem eu amei todas essas coisas. Porque ontem ele estava aqui, e fazia tudo isso ter sentido. E hoje, onde ele está? Hoje ele deveria estar aqui, me fazendo amar tudo isso, me fazendo amá-lo. Aliás, ele não precisaria me fazer amá-lo, porque isso eu sei fazer sozinha. Mas hoje ele não está. Hoje ele se foi, e não sei se hoje ele vai voltar.

6 comentários:

Caroline Araújo disse...

Olá querida,
É incrível a capacidade que certo perfume, cor, música, etc. nos lembram pessoas especiais. E o modo como isso faz com que a saudade aumente quando a pessoa querida não está. Porém, o que tem um imensurável valor aos nossos olhos não é a florzinha cor de rosa que nos foi dada junto a um bombom, mas sim quem nos presenteou. O seu escrito está lindo. Por vezes, indago-me se as palavras que saltam de ti e repousam nessas linhas (entrelinhas) cantam completamente os sentimentos da Mai, ou apenas fazem como o "poeta fingidor" de Fernando Pessoa.

Caroline Araújo disse...

Grande beijo.

. pamela moreno santiago disse...

Muito obrigada pelo comentário. São pessoas como você que me empurram para cima e não me deixam largar esse doce vício que é escrever.
É realmente incrível como pequenos detalhes que certas pessoas deixam marcados na gente nos fazem lembrar repetidamente.
Parabéns pelo belo texto.
Beijos ;*

Danii disse...

Acho que foi o texto mais , hm, romântico seu que eu já li. Nossa, mais uma vez eu fiquei admirada com a sua forma de descrever essa situação. Realmente existem coisas que a gente passa a odiar quando elas estão ligadas a alguém que já não está mais conosco D: Mas ao mesmo tempo, lá no fundo, ainda existe um 'gostar' porque afinal, nos faz lembrar daquela pessoa. Bgs:*

Ana disse...

O tempo passa. Nós mudamos. As pessoas mudam. E em alguns momentos tudo começa a estar diferente, sem que nós mesmos percebemos. Só quando estivermos em um certo momento da vida, vamos ver como tudo mudou.

• cynthia bs disse...

Oh, Maiara, que texto lindo. Muito legal a forma como expressastes uma certa "saudade". Bom, mas é sempre assim. Tudo é mesmo muito lindo quando temos quem amamos por perto. Mas as coisas mudam, mesmo que nós não queiramos. E, então, o jeito é dançar conforme a música, para não perder o embalo sem haver necessidades.

Amei o texto!

Obrigada por tudo!

Beijos **