terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A menina da flor

Antes a chamavam de Clara. Apenas Clara. Aquela de sorrisos abertos, rebolado faceiro, e sinceridade nos olhos.
Hoje a chamam de menina da flor. E passou a ser chamada assim quando conheceu alguém. Quando conheceu o portador das flores.
Deixe-me explicar o motivo que a leva a esse ponto: Há dois anos atrás encontrou um sujeito curioso, recém chegado na cidade. Ele estava no parque, dentro de um moletom folgado e suado. Quando ele a viu, consertou a postura e fez um alongamento sobe muito esforço. Ela naturalmente revirou os olhos e mudou a direção. Ele a seguiu, com deveras dificuldade para acompanhar o ritmo. Quando encostou, não lhe perguntou seu nome, nem endereço, apenas tirou uma flor amassada de dentro do moletom e enfiou-a na mão de Clara. Parou de correr e gritou que ela o veria outra vez.
Clara jogou a flor no chão, revirou os olhos. Achando tudo muito clichê.
Na mesma noite, já em casa, pensou na estupidez do rapaz de moletom.
No dia seguinte, como de costume, lá estava Clara correndo no parque, e o sujeito não estava por lá. Mas ela notou uma flor em um dos bancos que fazia parte do seu trajeto habitual. A encarou e seguiu adiante. Estava achando-o uma grande piada.
Os dias seguiram assim, por todos os lugares que ela passava não via o homem, mas via as flores deixadas por ele.
Certa vez ela resolveu sair mais cedo de casa, queria evitar as flores, queria encontrar o homem. Ao longe ela o viu, em um moletom diferente dessa vez, parecia mais atlético e não suava tanto.
- Qual é o seu problema? – disse ao se aproximar.
- Eu não esperava te ver aqui tão cedo. – fez uma flor rolar nas mãos.
- Isso não responde a minha pergunta. – sua voz soou agressiva.
- Você não gosta de flores?
- Acontece que eu não gosto dessa situação. O que você quer afinal?
Ele passou a mão no cabelo bagunçado e estreitou um sorriso.
- Se isso lhe incomoda, paro de fazer. Mas com uma condição: Vai ter de sair comigo essa noite.
- Não existe condição alguma, você tem de parar e ponto final. Ou chamarei a polícia.
- Ah sim, legal. E vai dizer o que para eles? Que um homem estranho deixa flores para você?!
Clara enfureceu-se. Não lhe agradava dar o braço a torcer, mas sabia que ele não cansaria. Era típico desses novatos que acham que estão com tudo.
- Está bem. Sairei com você, mas não será nada mais do que isso. E você irá parar definitivamente com essa perseguição. – disse com uma expressão não muito agradável.
- Claro, a não ser que você implore por ela.
- Ah, faça-me o favor.
Clara lhe deu as costas e voltou a correr. Ao longe ainda ouviu a voz do outro.
- Baterei em sua porta às sete. – gritou. E Clara parou a corrida bruscamente, fazendo as solas dos tênis serem degustadas pelo asfalto.
- Como sabe onde é a minha casa? – virou-se para ele com olhar ameaçador.
- Cidade pequena... Você sabe. – esse sorriu e deu-lhe as costas. Clara tomou a direção oposta, espumando de raiva.
Às sete horas, pontualmente, três batidas ecoaram pela sala.
Clara foi atender usando um vestido simples, estampado, e com um decote discreto. Tinha as ondulações do cabelo derramadas pelo ombro.
Ao abrir a porta não pôde deixar de segurar o olhar na figura que a observava. O cabelo ainda estava bagunçado, como se houvesse passado as mãos nele e pronto. A camisa azul anil tinha uma pequena abertura de dois botões. Usava uma calça um tanto formal. Mas ela admitiu mentalmente que gostou do que viu.
- Vamos logo acabar com isso. – disse batendo a porta.
- Você está adorável. – ele tirou uma flor vermelha de dentro do bolso.
- Você tem algum tipo de jardim dentro dos seus bolsos ou o que? – entrou no carro enquanto falava. E ele riu.
- Por que se mantém tão fechada?
- Porque você é um estranho. E para onde vai me levar? Pelo que sei é novo aqui, não conhece nada.
- Pode me chamar de James. E acredite, eu posso lhe surpreender. – manteve os olhos na estrada. A outra por hábito, revirou os dela.
Por todo o percurso de quinze minutos ela deteve as palavras, e ele também não disse muita coisa. Parou o carro numa calçada próxima à praia. E a levou ao píer.
- Ah sim, muito original. – resmungou com os braços cruzados.
- Está com frio? – foi estendendo uma toalha sobre a madeira. Em seguida pôs uma cesta de piquenique, umas velas e uma garrafa de vinho sobre a mesma.
- Não.
- Tome aqui. – pegou uma jaqueta de couro no banco de trás do carro.
- Eu disse não.
- Está bem, senhora do não. – pôs a jaqueta de volta.
Clara não disse nada, sentou-se na toalha ainda de braços cruzados.
- Eu não bebo. – foi o que falou apontando para a garrafa de vinho.
- Eu também não, mas não sabia sobre você, então...
- Você é algum tipo de monge?
- Um homem precisa ser monge para não gostar de beber?
- Não. Mas é que homem tem uma forte inclinação para a bebida.
- Acho que você andou saindo com os caras errados. – disse abrindo uma lata de refrigerante. A encarou em seguida, esperando alguma frase áspera, mas ela permaneceu em silêncio enquanto direcionava o olhar para o mar. Ele observou os olhos dela se entristecerem. E se arrependeu da frase pronunciada.
- Me desculpe. – suavizou a voz. Clara o olhou, pela primeira vez sem raiva queimando-lhe a face.
- Não é nada. – disse baixinho
- Até agora eu não sei o seu nome. – desvirtuou-se do assunto.
- Clara.
- Bonito. – levantou-se, pegou a jaqueta e a colocou sobre os ombros dela.
- Obrigada.
- O que você disse? – olhou-a com incredulidade.
- Não vou repetir. – disse criando um leve sorriso nos lábios.
Passaram a noite assim, conversando sobre interesses, personalidade, e histórias engraçadas que os levaram até ali. Clara falou sobre o tal cara errado que fora capaz de entristecer seu olhar naquela noite. E disse que James lhe parecia muito certinho, logo mudou de ideia quando ele começou a contar-lhes sobre suas antigas namoradas. E quando deram por si, perceberam a noite esvaída.
James levou Clara para casa, ainda falando sobre muitas coisas no caminho.
- Então, boa noite. Está livre das minhas flores. – acolheu as mãos dela com suavidade. Essa não disse nada, apenas se aproximou e deu-lhe um beijo demorado. Quando se afastou sorriu dando-lhes as costas. Ainda olhou para trás, era toda sorriso, olhos e rebolado. E ele permanecia parado em seu gramado, com um olhar atordoado. Levantou um braço, sorrindo abertamente e entrou em seu carro com uma cara boba.
Apesar dos primeiros raios solares invadirem o seu quarto, Clara não se demorou a dormir, e quando o sol já estava intenso ela acordou, foi à porta segurando um copo de leite. Caminhou pela grama orvalhada até o seu pequeno portão de entrada. Queria resgatar as correspondências. Mas no lugar delas havia uma rosa rubra. Sorriu, empreitando-a no cabelo. Transformando-se em menina da flor.


- Pauta para o Bloínquês – 48ª Edição conto/história.

2 comentários:

. pamela moreno santiago disse...

Boa sorte *-*
Também tô participando, só que da edição de Cartas. Se puder ler ;)
Beeeijos

Maiara :) disse...

Obrigada ^^
Ah, vou ler sim :D

Beijos