quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Mudança

Há dez anos atrás, uma menininha magricela foi levada para uma cidade bem longe da sua. A desventura se deu pela morte dos seus pais em um trágico acidente de carro, e ela teve de ir morar com uma tia distante.
Foi lá que passou de água à vinho tinto. Foi lá onde lhe impuseram uma metamorfose rápida e dolorida. Onde ela teve de deixar toda a sua vida de lagarta para trás e se tornar de uma vez uma satisfatória borboleta. Não lhe perguntaram se ela queria ser. Apenas impuseram-lhe assim.
Ela adorava toda a sua vida antiga, gostava da pequena cidade que vivia, dos hábitos interioranos, dos vizinhos pacatos, gostava principalmente do Fred; o grande amigo que tinha. Dividia todos os seus dias com ele, todos os seus risos, aventuras, travessuras. Ele era uma parte dela. Quando partiu sentiu como se um vazio do tamanho exato dele tomasse conta do seu peito.
Hoje a mulher formada caminha pela grama fresca do campo antes tão explorado por ela. Não existe mais aquele brilho nos olhos, não existe mais aquela sede por aventuras. Não sabe nem se ainda existe aquela menina. Se existe nunca ninguém encontrou, e nunca a encontrariam, pois estava enterrada bem fundo. Era o que pensava enquanto caminhava com os seus sapatos altos sendo sugados pela terra. Logo se irritou e os tirou. Caminhou descalça com suas roupas de grife, e sua postura ereta.
A sua tia a transformou em uma executiva altamente eficiente, altamente competente no que se prestava a fazer. Era genial, cobiçada por homens poderosos. Aos quais ela desprezava com demasiado prazer.
Continuou a caminhar pelo campo, em direção a uma antiga árvore, a sua antiga árvore. Onde ela se escondia em dias que afirmava a sua fuga de casa para não mais voltar, a qual durava uma tarde. Era lá onde fazia piqueniques com o seu amigo, era lá que ia quando os seus pais brigavam. Lá era o seu refúgio, o seu deleite.
Ao se aproximar do seu antigo abrigo, deixa que os seus finos dedos percorram a madeira rústica. Caminha em volta do tronco, observando cada detalhe. Na parte de trás ela consegue ver uma escritura quase imperceptível. Um pequeno coração com sua inicial um pouco apagada, passou as mãos pela madeira e deixou um riso oculto nos lábios. Olhou para ambos os lados, como se alguém fosse censurá-la por está rindo discretamente. Não achou platéia. E continuou o passeio com as mãos pelo entalho na madeira, ao lado da sua letra viu um sinal de mais com a letra F logo em seguida. “Fred” – pensou.
Não pôde evitar, contraiu o rosto como se sentisse dor. Todos aqueles anos sem ao menos escrever para ele, sem telefonemas, sem nenhum sinal de que ela ainda se importava com ele. Se a sua tia ao menos lhe desse espaço... Mas não, a culpa não era de sua tia. Era dela, era do medo que sentia. Ela não queria mais ser aquela menininha frágil e chorona, e Fred estava ligado àquela menina. Fred teria de ficar guardado lá no fundo, num lugar onde ela esconde coisas que possam machucá-la, coisas que possam fazê-la feliz igualmente. Não sabia mais por qual motivo voltou, estava tudo bem lá longe de seu passado infantil. “Estava tudo bem.” – repetiu em pensamento.
- Não, não estava! – deixou sua voz escapar e explorar o campo extenso e ensolarado.
Lá ela tinha um bom trabalho, uma vida financeira aceitável, se divertia todas as noites com o que quisesse, e com quem quisesse. Mas sentia que faltava alguma coisa, e por isso estava ali agora, buscando na poeira dos primeiros passos o que quer que fosse. O que quer que lhe faça entender o que mais ela poderia querer.
Sentou-se na grama sem se importar com a roupa de tecido caro, encostou a cabeça em sua árvore e descansou os sapatos ao seu lado. Fechou os olhos deixando o vento balançar os seus longos fios dourados.
- Maggie?! – disse uma voz grossa. Ela abriu os olhos rapidamente para encarar o responsável por quebrar o seu silêncio. Era um rapaz com os cabelos negros, que desciam em pequenas ondas até a altura das orelhas. Tinha um físico atlético e usava uma roupa leve. Carregava um rosto sereno enfeitado com olhos claros que combinavam com aquele cenário calmo que ali estava.
- Maggie, é você mesma? – disse ele se agitando enquanto abria um largo sorriso.
- Quem é você? – disse toda cheia de sobrancelhas erguidas.
- Não acredito que se esqueceu do meu rosto.
- Minha nossa, Fred?! – arregalou os olhos ao dizer.
- Estou tão diferente assim? – olhou para si mesmo.
- Muito diferente. Nada parecido com aquele menino com braços e pernas de vareta. – levantou-se sacudindo o fundo do vestido.
- Você também não é mais aquela magricela. – fitou os olhos negros da outra enquanto era todo sorrisos.
- Nossa, quanto tempo... – disse sem esperar outra frase dela.
- Faz muito tempo mesmo. E você continua morando aqui... – fitou-o.
- É, eu não consigo sair daqui. Esse lugar... Já tentei sair, passei cinco anos longe enquanto me formava, e acabei voltando pra cá. Tenho vinte e quatro anos, mas sinto-me como um velhinho que precisasse dessa serenidade toda. – encarou o céu incrivelmente azul.
- Hum... – ela disse sem saber o que deveria dizer.
- E você, conte-me como vão as coisas. O que tem feito? Por onde andou? – sua voz não parecia guardar ressentimentos. E parecia que ele queria abraçá-la a todo custo, mas não sabia ainda como o fazer.
“Andei evitando tudo isso. Andei sem saber para onde estava indo.” – pensou.
- Meggie? – adotou uma expressão confusa.
- Ah, desculpe-me. – fitou as mãos sentindo-se suja.
- Estava longe?
- Na verdade não, estava pensando no que diria. – ergueu os olhos até os dele.
- E é complicado assim? Não precisa responder se não quiser. – falou abaixando a voz a medida que as palavras iam rolando por língua afora.
- Não, é que... Bem, eu agora sou uma executiva, e passei por muitas aulas monótonas de etiqueta, e todas aquelas coisas que nós achávamos uma bobagem. Aprendi outras línguas, conheci gente de todo o lugar, viajei, explorei culturas. Transformei-me em outra pessoa completamente diferente daquela que eu era. E agora falando com você, sinto-me mal. Pois você parece o mesmo, digo, tirando essa sua aparência. E eu me sinto tão...
- Mudada. – ele concluiu a frase por ela.
- É. E tem mais, você nem parece ter raiva de mim. Eu não o escrevi, sequer telefonei, mantive-me distante. Eu fui uma cretina com você. – fitava a grama enquanto dizia. E um silêncio obsoleto pairou entre eles durante alguns intermináveis segundos.
- Maggie. – disse ele aliviando-a sem ao menos saber. Deu mais uns passos em sua direção, mantendo-se próximo. Ergueu o rosto dela com delicadeza, fazendo-a encará-lo.
- Você pensou em mim? – sua voz soou suave, acariciando cada letra dita.
- Demais. Confesso que por ter você sempre em meu pensamento, me fiz acreditar que queria esquecê-lo. Não sei Fred, não sei o que aconteceu comigo. Acho que queria esconder-me, proteger-me de sei lá o que. – sentiu os olhos embaçarem e uma raiva lhe culminou. Não se perdoaria se chorasse ali na frente dele.
- Do amor. – ele continuava fitando os olhos marejados dela.
- Como?
- Meggie. Eu sempre soube disso. Quando vi seus olhos perderem o brilho naquele dia triste do acidente. Eu sabia que você tentaria se proteger de tudo e de todos que voltasse ligá-la a parte que você queria esquecer. Com a parte que lhe torna frágil. – ele lhe abraçou, sussurrando as palavras em seu ouvido. Ela manteve-se rígida por alguns segundos, mas deixou-se cair. Não queria mais ser a perfeita em todo o tempo. Queria ser imperfeita, queria permitir-se ser.
- Me perdoa. – disse enquanto molhava a camisa clara dele.
- Pelo o quê? – ele ainda a mantinha firme contra o seu peito.
- Por ter sido cruel com você. Por ter me distanciado. Por querer lhe esquecer. Por ter ignorado a parte que eu mais amava em mim. – ela tirou o rosto do ombro dele e o observou. Ele passou o polegar por seu rosto, enxugando algumas lágrimas quentes como o fogo. Inclinou-se e percorreu todo o rosto delicado dela com beijos, ao que ela os recebia com os olhos fechados. Ela passou as mãos pelo cabelo farto dele, contornou os novos traços que envolviam o seu rosto. Ele lhe beijou as mãos.
- Eu senti tanto a tua falta. – disse enfim. O que fez com que ela derramasse ainda mais lágrimas.
- Eu me sinto tão culpada por isso. Eu senti a sua falta, mas eu não queria sentir. Eu... – foi silenciada por um dedo delicado entre os seus lábios.
- Não se sinta culpada, eu entendo você. Se quiser que eu diga que lhe perdôo, eu digo. Mas eu nunca senti raiva, eu lembrava de você em nossos melhores momentos juntos na infância, era essa parte que eu guardava. Eu não lhe procurei, pois sabia que você precisava de um tempo para você mesma. Eu sei como essas coisas podem ser difíceis. – disse acariciando o cabelo da outra. Aproximou-se observando um brilho intenso nos olhos vivos que lhe fitavam, pareciam os antigos olhos que brilhavam de felicidade quando saiam para explorar os seus mundos imaginários. Os olhos dela estavam vivos novamente.
Com cuidado fez seus lábios encontrarem os dela, como se buscasse aquilo a vida toda, mas com a calma de que ainda teriam mais uma outra vida pela frente.
Ela entregou-se, sentindo o gosto de cada momento bom que tiveram juntos na infância. Sentiu-se como se fosse aquela menininha alegre, sentiu-se viva como nunca sentira antes. Sentiu o peito abrir, e os sentimentos mais ocultos serem derramados por aquele enorme campo ensolarado. Sentiu a parte que lhe faltava ser preenchida. Sentiu-se inteira.
- Eu amo você. – disse um pouco tonta.
- Eu sempre a amei. Você me ganhou com aquele bom dia em nosso primeiro dia de aula. Lembra?
- Como eu poderia esquecer aquela carinha de bobo?
- Ah, mentira. Eu não fiz cara de bobo.
- É claro que fez. Está fazendo agora.
Gargalharam juntos. Como sempre fizeram. Como sempre farão.


Pauta para o Bloínquês - 50ª Edição conto/história


Peço desculpas pelo tamanho do texto, mais uma vez... É que às vezes eu sou
levada por ele ao invés do oposto. De qualquer maneira, obrigada pela paciência.
E parabéns se chegou até aqui, haha.

5 comentários:

Pamela Dal'Alva? disse...

opa a primeira!!
que lindoo, gostei muito. seria bom s acontecesse isso. Mas nao me imaginaria ficando com meu melhor amigo.. kisu

Caroline Araújo disse...

Assim como a escrita foi quem a conduziu, a leitura fez o mesmo comigo. Saiba que a extensão do texto fez-se insignificante comparada a qualidade da descrição de cada movimento, sentimento, pensamento...
A construção da personalidade de cada personagem ocorreu tão bela e naturalmente. E são raras as pessoas que conseguem dar tamanha vida ao cena, ao ambiente, tanto quanto as personagens. Gostei muitíssimo.
Grande beijo.

Arianne Carla disse...

Maiara, falta-me palavras! Me encantei com a trama dos personagens e o desenrolar da leitura. E nem precisa se desculpar pelo tamanho, cabe ao leitor senti a essência e desenvolver o paralelo mágico do texto. Muito bom!

Ah, flor. Vi que é para a edição do projeto Bloínquês! Boa sorte *-*
Olha, " E nunca a encontrariam, pois estava enterrada bem fundo." Este é o tema que eu vi lá, mas não vi no texto. Até reli, mas não encontrei. É pauta para conto/história mesmo? Um beijo, querida.

Maiara disse...

Agradeço de coração pelos comentários. Fico muito contente ao lê-los.

E obrigada Arianne pelo aviso :)
É sim para essa pauta, é que a frase ficou escondida mesmo, por estar no meio de um parágrafo. Mas foi bom você ter me avisado, vou destacá-lo para evitar que ele passe despercebido.

Beijo gente ;*

Danii disse...

Acho tão lindo esses amores que surgem na infância e acho mais lindo ainda quando esse sentimento permanece mesmo com o tempo que passe e com a distância.
Como a Caroline disse, você deu vida aos personagens *-*
Bgs:*