quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Parte-se na partida

Chegou ao aeroporto com a mochila pendendo ao ombro, no rosto carregava a tristeza que sentia. Era só olhar e pronto, estava tudo lá. Ao longe viu a figura de face marcada por todas as lágrimas de noites consecutivas. Ela o caçava em meio às outras pessoas, os olhos como radares aflitos. Ele se aproximou sem aviso, tocou no braço agitado da outra, e essa estremeceu. Virou-se para encará-lo, ambos estavam destroçados.
Ele deixou a mochila escorregar enquanto prendia-se nos braços dela sem dizer nada. Ela molhou a camiseta amassada dele. E ele afundou o rosto no cabelo negro dela. Sentindo o cheiro que começava cítrico e terminava doce. Guardando aqueles pequenos pedaços na memória. Foram interrompidos pela voz mecânica que anunciava a separação. O seu vôo logo partiria. Ele se afastou passando o polegar pelo rosto molhado que ela sustentava. Ela o apertou pela camisa, e o olhou com olhos suplicantes.
Adeus. A palavra que não diriam, mas sabiam que ela os cercavam, bem ali. Traiçoeira e fria.
Ele se inclinou, e ela ainda o apertava com força. Beijaram-se com urgência. E entre lábios, o adeus mudo se espalhou.
- Onde você vai quando está triste? – disse ela entre uma lágrima e outra.
Ele estudou o seu rosto, sabia que a resposta não iria ajudá-la, mas a diria mesmo assim.
- Ao seu encontro. – disse com sinceridade.
A mulher desolada afundou o rosto novamente em sua camisa, agora completamente amassada.
- Eu estou triste, e quero ir ao seu encontro quando a tristeza aumentar. Mas isso é completamente impossível, pois você vai para o outro lado do mundo e não posso segui-lo. – sua voz soou desesperadora.
- Eu não ficarei lá para sempre. Você sabe que não. – ele secou inutilmente lágrimas ligeiras que desciam pela face da outra. Ela o fitou, sem saber mais o que dizer. Não havia mais nada a ser dito.
- Estou indo metade, e voltarei para ser mais uma vez inteiro. – quebrou o silêncio sussurrando no ouvido dela. Essa engoliu um soluço, e com os dedos delineou o rosto cansado dele.
- Fico metade, e lhe espero para voltar a ser inteira. – disse em tom suave.
Forçaram meio sorriso, mas sabiam que por dentro sangravam. Ele soltou-a e andou alguns passos olhando para trás. Ela segurou algumas lágrimas, e suspendeu a mão acenando.
Foi assim que ele partiu, com a tristeza exposta na face em seu melhor vestido lúgubre.
Já no avião, os olhos se perderam na pequena janela, imaginando-a lá embaixo, chorando em silêncio. Com o coração partido em pedaços incontáveis. Se fechasse os olhos ouviria o barulho dos cacos sendo chocados uns nos outros, pois era o mesmo barulho que ecoava em seu peito agora.


- Pauta para o Bloínquês - 51ª Edição musical

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