sábado, 8 de janeiro de 2011

Pedaços

Mais uma vez admira com olhos ébrios a foto cansada de sentir aqueles dedos que agora a amassa. De cabeça já não sabe quantas vezes se perdeu na figura presa em papel fotografia.
Aperta a foto que é a sobra deixada pra trás, aperta os olhos em tentativas falhas de ludibriar a si mesmo, aperta as vísceras exprimindo toda a dor do abandono.
Quando está lúcido pensa na culpa, quando está bêbado pensa na volta. Engana-se. E não sabe mais dizer em que estado se está normal, pois na verdade nunca provou do cálice da normalidade. Nem a cor conhece, muito menos o gosto.
Entorna mais uma garrafa imunda, e agora é a vez de pensar nas palavras que deveriam ser ditas para que a criatura enraivecida não o olhasse com nojo nos olhos, e não batesse a porta com tamanha brutalidade. Procura, mas não acha as palavras certas, pois essas seriam falsas palavras, e de mentiras estava saturado, até o reflexo no espelho mentia para ele.
Mais um gole, mais uma olhada na fotografia. Imagina como poderia manter aquela ave presa pra si. Não, não poderia prendê-la. Era linda demais, era rara, era fugaz. Teria de deixá-la voar, ou jamais seria a mesma.
Egoísta, sempre foi. Mas mudou quando teve de mudar, quando não precisava chorar sobre fotografias surradas. Mas agora, encara a porta aberta, até os olhos doerem, até as pálpebras pesarem e cederem. Cria uma esperança inventada em horas que quer afagar o próprio cabelo.
Tempo. Alimenta uma vontade que anseia pela volta do ser que partiu, e essa vontade também se inclina para o tempo. Mas se pudesse voltar o que faria para que ela não partisse? Ele teria de voltar muita coisa, talvez anos-luz. E isso ainda não lhe é possível.
Outra garrafa, e essa ele atira na parede, onde já existem marcas de tantas outras.
As garrafas sempre voltam quando ele as manda embora, mesmo que as atire com força, e isso faz com que os vidros voltem mais números. Mas eles sempre voltam, de uma forma ou de outra. Não batem porta, não os encaram com vertigens, não o odeia. Ah, por que ela não é uma garrafa em pedaços?
Enfurece-se e rasga a fotografia em muitas partes, não tão numerosas como acredita estar as do seu coração.
Os cacos de vidros o cortam, e ele não se importa. O sangue brota vivo, quente, alcoolizado, e tinge o papel em pedaços que guarda um rosto sereno agora em frangalhos.
Leva as mãos ao próprio rosto com a barba sem fazer, e deixa que o sangue quente das mãos misture-se com as lágrimas gélidas dos olhos. Desmaia embriagado, pela dor e pelo álcool.
Quando o sol encontra uma falha na persiana fechada, invade a sala e toca os contornos murchos da face do homem. Esse abre os olhos com dificuldade, encara os pedaços de vidro, os pedaços de papel, os pedaços de si que lhes rodeiam. Equilibra-se nas pernas ainda trôpegas, e numa gaveta resgata uma fita isolante, é com ela que une as sobras de um rosto sereno sujo de sangue, sujo álcool, sujo de lágrimas.

2 comentários:

O Leão da Montanha disse...

Esse foi bem profundo, hein!!!!!!!! Adorei a forma como é direta e precisa.


Beijos e fique com Deus

Maiara :) disse...

Bom saber que gostou ;*

Amém.