sábado, 22 de janeiro de 2011

Raimunda

De pés descalços e molejo no corpo, Raimunda segue como equilibrista. Levando uma trouxa de roupas sujas na cabeça e um largo sorriso no rosto. De vez em quando cantarola uma cançãozinha piegas pra deixar o coração mole feito manteiga.
É um dia quente de sábado, mas ela não liga. Trabalha de sol a sol sempre com aquela alegria.
- O que fez o mundo pra você rir assim? – lhes perguntam inconformados.
- O mundo me alegra todos os dias, o que me tira essa alegria são as pessoas. – responde sem pestanejos.
- E por que ainda continua sorrindo Raimunda? – ascendem a descrença.
- Porque é melhor do que andar feito cachorro na chuva. Eu fico triste sim moço, mas logo vai embora. Eu deixo que vá, porque é assim que tem de ser. – atina um sorriso pra não se deixar esquecer.
E lá vai ela mais uma vez, arrancando suspiros, atravessa a ruazinha de barro morno. Seu destino é a cachoeira que fica logo ao fundo da estradinha vermelha.
Ao sentir as pedrinhas nos pés, sabe logo que já está chegando. O ouvido também ajuda; quando captura o barulho da água quebrantando. Não se demora a ver a água cintilar com o beijo quente do sol.
Arria a trouxa em cima de uma pedra, e ajeita a saia para começar o trabalho. Desamarra o nó folgado, procura um sabão já gasto, e põe-se a lavar o tecido encardido. Não lava nem meia dúzia de peças e já sente o corpo molhado de suor, hoje o sol está castigando. Bate mais uns dois lençóis na pedra e decide se dá um descanso.
Coloca os pés para dentro da água e suspira. Olha de um lado a outro, não há ninguém por perto. É o que deduz por fim. Sem pestanejar arranca as roupas do corpo e se joga na água, nua como veio ao mundo. Nada pra lá e pra cá, mergulha despreocupada.
Não sabe Raimunda, que embrenhado em meio a um arbusto, um moleque matuto tem os olhos atinos. Observa com determinação o corpo nu da desprevenida Raimunda.
No frenesi ligado ao toque da pele ele dá um passo à frente. Foi o suficiente para estralar um galho seco que cochilava no chão.
É arrancado do delírio para o medo. "Maldito seja o galho traiçoeiro." – é o que pensa.
O barulho diminuto não passa despercebido pelos ouvidos de Raimunda. Que logo vai cobrir o corpo e procurar pelo ousado curioso.
- Quem está aí? – pergunta com as mãos nas cadeiras. Mas outra voz não se ouve.
- Já vi que está atrás desse mato. – aponta para o menino assustado entre as folhas.
- Vai sair daí ou preciso tirá-lo pela orelha? – deu alguns passos à frente. O moleque arteiro sai de trás dos arbustos como se nem quisesse ter entrado lá. Tem as duas mãos dentro dos bolsos, e encara os próprios pés.
- Ora essa! Não sabe que é feio espiar? Tenho idade para ser a sua mãe, moleque atrevido. – ela lhe aponta um dedo agitado.
- Mas não é. – diz ele ainda encarando os pés.
- Ainda bem que não sou. Mas já que falamos dela, irei logo conhecê-la. O que ela vai achar de um filho atrevido como você?
- Você não vai conhecê-la coisa nenhuma. Ela nem existe mais. E essa conversa já ta grande por demais, já vou embora moça do corpo bonito. – sorri enquanto corre pelas pedras.
- Se lhe pego me espiando mais uma vez, lhe arranco os olhos seu descarado. – grita ainda cheia de dedos acusadores.
- Não vai me pegar mais não moça, da próxima eu tomo conta donde estou pisando. – diz por cima do ombro.
E Raimunda fica lá parada com as mãos nas cadeiras. Quando ele some de vista acha até graça, ri pra si mesma. E volta a lavar a roupa que resta, com um sorriso bonito no rosto, cantarolando a cançãozinha melosa de lá do início, e que faz do seu coração manteiga.

9 comentários:

Giovanna Lundgren disse...

O texto é ótimo e sua escrita é perfeita, não é atia que você foi destaque né?
Tou seguindo aqui.
Beijos.

Caroline Araújo disse...

Como todos os seus textos esse está impecável, li também o anterior "Luzes acesas" e gostei muito do modo como você materializou sensações tão abstratas e íntimas. E como retratou o modo que a solidão age na vida da personagem. Quanto a esse, está uma delícia! Não vejo como nomeá-lo de outro modo. Leve, suave e de uma escrita incrível (o que não é exceção, os seus textos são sempre ótimos). Nada como começar o dia com uma história e uma personagem tão radiante.
Grande beijo!

Danii disse...

Que exemplo de moça. Apesar de tanto trabalho sempre mantém um sorriso no rosto. A história deixou um clima de simplicidade e um pequeeeno humor no ar. Muito boa, mas isso você já sabe riri *-*

Caroline Araújo disse...

P.s.: Acabo de sugerir uma nova edição para o bloínques, e confesso que a ideia só me veio após ler os seus textos. E sei que palavras são coisas íntimas demais, porém, inovar as vezes é muito bom e por isso pensei: Seria incrível, um dia, ter o privilégio de escrever um texto com a Maiara. ^^
Grande beijo.

Nicole f disse...

"O que é que o mundo fez pra você rir assim?"

Amo a música, e essa frase me diz tanta coisa, adorei o contexto que você a encaixou.

te sigo :*

• cynthia bs disse...

Ah, muito obrigada, Maiara (:
Gostei muito daqui.
Muito cheia de vida a Raimunda... apesar de tudo leva a vida numa boa. É assim que tem de ser.

Beijos.

Affonso Schmitt Paiz disse...

Anjo, vim retribuir as palavras e a visita, tbm gostei daqui, belos textos. Sucesso!

(seguindo)

Bjs

Luan disse...

curti teu blog estrelinhas. muito bom. keep writing.

Luan disse...

E essa Raimunda, hein... não é fácil.