terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sensitivo

Puxou o outro para a janela sem muita delicadeza. Estava exausto. Nos olhos as marcas do tempo perduravam.
- Observe.
O outro o encara com expressão confusa.
- Você está olhando para o lugar errado. – diz fitando a cidade a sua frente.
Sem pestanejar ele olha para a cidade. Nada fora do comum, as pessoas seguem suas rotinas. O caos do trânsito. A fumaça. O movimento contínuo e regular. Ele coça a cabeça sem saber o que dizer. Não sabe o que a figura enigmática espera que ele diga, mas ele quer dizer a coisa certa. Pelo menos algo satisfatório.
Volta a encarar aquele que observa a cidade como se olhasse pra lugar nenhum. Como se nem ali estivesse.
- O que você vê? – diz ainda com olhar distante.
O outro suspira, passa as mãos no cabelo farto.
- O que você quer que eu veja?
O homem misterioso crava os olhos nele como se o esfaqueasse.
- Resposta errada. – diz em tom áspero e volta a olhar pela janela.
- É tudo comum, normal... A cidade, as rotinas. – em sua voz o desespero aparece paulatinamente.
O outro silencia, não move os olhos e nem o corpo. De canto de olho a figura confusa o estuda.
- São peças de um jogo, mas deveriam ser os jogadores. A maioria nem se quer existe. – disse quebrando o silêncio constrangedor.
A silhueta atônita olha para a cidade e reflete por algum tempo. O homem enigmático se afasta da janela, pega uma xícara de café e senta-se à mesa. O outro permanece na janela com as mãos no para-peito.
- Por que está me dizendo isso? – pergunta sem virar-se para o homem estranho. Esse toma um gole de café e coloca a xícara na mesa outra vez.
- Quer existir? – passa o dedo na borda da xícara.
A figura confusa o encara sem respostas. Em sua cabeça um turbilhão de coisas o faz sentir-se tonto. Tem a impressão de que tem um buraco negro às avessas em sua mente. Ele caminha até a mesa, olha para os olhos brilhantes do outro.
- Isso é algum tipo de piada? – diz meio trôpego.
- Eu estou rindo? – fita-o. E ele não desvia o olhar.
- Escute. Você existe, mas ainda não sabe. Você entende?
- Não. Eu não entendo. – cerra os punhos em cima da mesa.
- Você. Não. Sabe. – esse volta a beber o café.
- Você é louco!
- Quero que saiba. Você quer saber?
Seu olhar agora é desesperador, está cheios de interrogações lhe cercando, joga o corpo numa cadeira de frente para o outro.
- Por que você quer isso? – diz com a cabeça entre as mãos. O homem o encara friamente.
- Porque ainda acredito.
- Acredita em que?
- Na mudança.