sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

(Amar)gamente

Olhava fixamente para a TV desligada. Em uma das mãos uma garrafa de vodka se encontrava pela metade, e na outra o celular.
Fez a bebida arder à garganta, e com seus dedos ágeis apagou um número da agenda do aparelho móvel.
- Quantas vezes mais você vai fazer isso em? – disse encarando o próprio rosto distorcido no vidro da garrafa.
Jogou o celular na parede e fez a vodka descer pela garganta outra vez.
Ardia, e ela não sabia dizer se era o álcool ou as lágrimas que lhe queimavam por dentro, mas que não transpareciam. Talvez elas nem estivessem mais lá; talvez elas tenham deixado apenas os seus fantasmas para lembrar a mulher de traços frios, que elas conseguem penetrar na grossa camada de gelo que agora a envolve.

A mulher. Essa tem uma filosofia para isso, ela diz que para cada decepção vivida uma camada fina de gelo formava-se à sua volta, e agora ela sentia-se como um verdadeiro iceberg. E que no fim espera mesmo que um Titanic choque-se com ela e lhe cause um uma revolução indescritível.
Mas não, ela continua lá com os seus rituais. A vodka, um número apagado, um celular quebrado, uma ressaca moral, e um coração destroçado – se é que ainda se pode chamar aquilo de coração.

Vai até o banheiro e encara a sua imagem monótona, vê com aqueles olhos borrados a criatura lamentável que se tornou. Em sua testa aparecem legendas traduzindo as suas dores para quem quiser enxergar, mas o problema é esse, ninguém o quer. As pessoas mal a olham. As pessoas esqueceram que possuem olhos.

A campainha toca, e ela aperta as pálpebras como se aquele som penetrasse em seu tecido epitelial e a causasse dor. Decide que é melhor ir atender, ela já sabe quem é. Ela já sabe o que vai ouvir. Isso já se tornou tão metódico que para ela é só mais uma camada de gelo, e nada mais que isso. Ela já se acostumou com a dor. Sente-se dormente por inteira.

Abre a porta sem perguntar quem aguarda do outro lado.
- O que você quer? – coloca para fora a frase que já faz parte do seu repertório.
- Conversar. – diz em tom arrastado.
Ele parece igualmente destroçado, as legendas piscam em néon em sua testa. Ela consegue ler tudo, é como se assistisse a um filme repetido.
- Nós já conversamos tudo o que tínhamos para conversar. – tentou fechar a porta no nariz do outro. Mas esse foi mais rápido e a impediu pondo um pé para dentro e segurando a porta com um dos braços.
- Em vinte e cinco anos de vida, nunca vi uma mulher tão frígida quanto você. – falou adentrando o ambiente com pouca luminosidade.
- Pronto. Já disse o que queria? Pode sair agora. – apontou para a porta.
- Não, eu ainda não disse nada. Por que você agiu daquela maneira ontem? – a encostou na parede. E ela cuspiu na camisa branca dele.
- Porque eu sou frígida. É isso! E afinal, o que você queria que eu fizesse? Queria que eu me desesperasse, chorasse e implorasse para você não ir embora? Queria que eu dissesse que sinto muito e que ficaríamos bem se aprendêssemos a superar tudo? Não, eu não sou assim. – tirou as mãos dele de seus ombros e o fitou com raiva transbordando pelos canais lacrimais. E não, não eram lágrimas, pois nada molhou o seu rosto.
- Não. Eu queria que você mostrasse alguma emoção. – sua voz saiu como um sussurro tímido e que pede permissão para ser pronunciado.
- Meu coração já está calejado, destroçado e conformado. E você não pode partir um coração partido. – sentou-se no chão com as costas na parede. Ele a observou e fez o mesmo, ao seu lado.
- Eu só queria que você me deixasse falar. Você não me deu a chance de explicar nada.
- Eu não preciso dessa ladainha outra vez. Essas conversas são sempre as mesmas. E no final tudo termina da pior forma possível. – ela encara a lâmpada do teto. Ele fita o seu rosto impassível.
- Eu posso falar o que queria dizer ontem à noite? Eu posso falar tudo o que eu queria dizer? Você vai me dar essa chance ao menos? Você pode ser humana uma vez sequer nessa sua vida medíocre? – permaneceu com os olhos fixos nela.
- Eu estou sendo humana. – sua voz soou tranquila.
- Não, você esta sendo um monstro. – disse aumentando a voz pela primeira vez depois que entrou ali.
- Qual é a diferença? – o encarou. E ele virou o rosto para o teto e o cobriu com ambas as mãos. Sentia-se esgotado.
- Estou ouvindo. – ela rompeu o longo silêncio.
- Eu vou embora. – disse sem se mover.
- Ah, ótimo. Foi para isso que você veio então, só para me dizer mais uma vez o que você disse ontem? Que vai embora?! É isso mesmo o que eu estou ouvindo ou estou muito bêbada? – o sacudiu pela gola da camisa.
- Escute aqui, o seu problema é que você não me dá a chance de falar. Você quer monologar tudo, tudo! Até um relacionamento. E eu não sei o que foi que me fez sentir alguma merda por você. Você não deveria despertar nada disso em ninguém. Você é... é... Ah esquece! – ele a apertou pelos ombros.
- Continue, o que eu sou? – mantinha os olhos nos dele.
- Mórbida. – disse em um tom de voz que arranhava a ternura.
- E porque ainda estamos tendo essa conversa? – permanecia olhando-o.
- Porque eu amo você mesmo com toda essa sua morbidez. E ontem à noite eu queria dizer que estava indo embora para cuidar do meu pai que está muito doente, mas que eu voltaria assim que pudesse. E que eu gostaria muito de chamar você de minha quando eu voltasse. Porque sei, que assim como eu, você já sofreu muito, e está saturada disso, e só procura alguém - mesmo que não admita isso - para descansar a sua cabeça, e o seu coração destroçado. – ainda a segurava pelos ombros.
- Eu... Eu realmente... – sua voz soou defeituosa. Sentiu a garganta arder, mas a vodka não estava lá. O que era então? Talvez os fantasmas de suas lágrimas. Mas que tipo de fantasma se faz tão visível?

Ela sentiu, pela primeira vez em anos, aquele velho e nostálgico filete de água fria escorrer por sua face. O gelo estava desfazendo-se. E ele - o homem que a encarava -, era o culpado. Ele a chocou, e chocou-se a ela. E estava causando essa revolução quase inexplicável naquele ser mórbido.
- Eu sinto muito. Me desculpa por ser tão estúpida, por tudo. Eu... – ele a interrompeu fazendo os seus lábios encobrirem as palavras dela.
- Por que você é assim diferente? Não vê que ser feliz dói? – ela sussurrou no ouvido dele.
- Ser triste dói ainda mais. – passou as mãos pelo rosto em prantos da outra.
- Eu tenho medo de dizer que amo você. Tenho medo dessa entrega. – seu tom soou diminuto.
- Eu também, mas estamos aqui agora não é? Estamos os dois sentindo as mesmas coisas. Então faremos isso daqui para frente, está bem? Juntos. – beijou a testa dela, e as legendas que estavam lá pareciam cair, assim como as lágrimas.
- Juntos. – disse ela por fim, saboreando o gosto que aquela palavra tinha. O beijou com lábios trêmulos. Sentindo-se estranha, ou talvez sentindo apenas ela mesma. A que fora roubada anos atrás por todas as causas de suas decepções, e devolvida agora, por ele, que também era ela.

Pauta para o Bloínquês - 55ª Edição musical


Mais uma vez um texto extenso, eu não tenho mesmo jeito, não adianta. Então só me resta agradecer pela paciência que vocês têm para com a minha pessoa. Haha.
Obrigada mesmo gente, esse retorno que eu venho recebendo é mesmo muito gratificante. Beijos.

9 comentários:

Arianne Carla disse...

Ah, Mai... Que belíssimo texto. Seus personagens ganharam vida e sensações maravilhosas ao lê-los e tentar entendê-los. Simplesmente compreendo, ou acho, essa mulher. Suas desilusões infligiram o homem apaixonado que estava a frente da moça. Simplesmente um texto intenso e que nos envolve a cada linha. Literalmente digno de ser lido!

Caroline Araújo disse...

Confesso que eu não sei quanto tempo estou aqui encarando esse texto, permitindo que ele se faça tão real quanto os sentimentos que saltam das (entre)linhas e me invadem, sacodem, despertam... Talvez, uns vinte ou trinta minutos se passaram enquanto eu não consigo me desprender das suas palavras, e nem quero! Vejo as pessoas chegarem, elogiarem e partirem; chegaram e partirem, nesse ciclo - tão normal, eu diria - e isso não é uma metáfora. Eu realmente vi tudo isso através do ícone ao lado que diz: usuários online.
Porém, eu ainda estou presa aqui, boquiaberta e admirada como quem lê um texto seu pela primeira vez. Como quem se apaixona e se reapaixona. Como quem presencia algo inimaginável - de uma perfeição que quase cega. Cada texto seu é uma nova descoberta, eu já conhecia o gosto doce e a beleza deslumbrante dos seus escritos, mas hoje, eu pude tocar cada palavra e sentir o delicioso cheiro que elas exalam. Eu descobri que igualmente perfumado fica quem lê, ama e sente o que você escreve.
Grande beijo Mai.

• cynthia bs disse...

Poxa, Maih, que texto bonito. Não sei porque mas deixei cair uma lágrima. Nossa, tu usas cada palavra com tanta perfeição, dás vida aos personagens de forma que fico imaginando como se ao invés de ler nas (entre)linhas, estar a assistir um filme. Cada passo, cada momento, cada pedacinho do texto vai fluindo "mensagens" em minha cabeça e fico tentando imaginar um relacionamento assim como do casal da história, ela, sendo tão mórbida, e ele com tantos problemas, assim como ela, tentando aliviar toda a confusão e poder expressar-se diante da moça que ama sem feri-la.

Achei muito bonito.

Ah, e eu adoooooro textos imensos, bate-me uma vontade louca de lê-los :)

Beijos, amor, e mil parabéns por tua belíssima escrita, que a cada vez que venho aqui, me impressiono, e continuarei me impressionando até me cansar **

. pamela moreno santiago disse...

Não sei porque, mas eu amo textos longos. E amo ler os seus. Sempre me convidam a terminar, e eu "devoro" com rapidez as palavras, ficando até triste quando acaba.
Parabéns e continue sempre assim. E eu continuarei sempre vindo aqui ^^
Beeijos

Dani Ferreira disse...

Mai, perdi um texto seu e parece que estou longe do seu blog há anos rs. Desculpa pela ausência aqui, a vida anda corrida.
Ai, não sei, em alguns momentos seu texto tocou tão fundo, em alguns instantes me vi um pouco na personagem " ela já se acostumou com a dor".
Seus personagens sempre tão fortes né rs. Confesso que fiquei admirada com cada palavra, com cada demonstração de amor deles :B
Mais uma vez, parabéns Mai.
Bgs :*

Minne disse...

Nossa senhora, à cada linha pela qual meus olhos passavam eu sentia a dor dos personagens, os detalhes fizeram toda a diferença. Nunca sofri por amor, não posso julgar a personagem mas, quando a gente sofre de uma coisa, acaba criando " anticorpos " para com ela, nos fechamos, e pensar nele dói. Mas saber escutar as pessoas é uma virtude que faz falta hoje em dia, e causa problemas autodestrutivos. Me apaixonei pelo texto Maiara, perfeito à seu modo. Beijo :*

Ana disse...

Que texto perfeito, lindo, nunca li um tão bom assim! Sério, gostei muito. Demonstrou que nem todas as mulheres são tão frágeis. Acho que não podemos deixar que os homens quebrem os nossos corações o tempo todo e que não façamos nada quanto à isso. Mas, também não podemos ser mórbidas.

vell disse...

Mai, como faço pra por essa tagzinha rosa na postagem? Como essa que tá no fim dessa?

beijos, amo teu blog, assim como você SUA LINDA.

Taty N.S. disse...

Extenso e intenso. Parabéns pelo belíssimo texto, cada linha que lia era como se vivesse o momento da personagem.

Beijos!
Taty!