segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

The Call

Como primeira vista de um dia veraneio, além da luz alegre que brinca com a minha cortina floral, o que vejo é a sua silhueta varonil, com as mãos no parapeito da sacada e os olhos presos no horizonte azulado. Vez ou outra passa o peso do corpo de um lado para outro, trocando os pés, coçando o queixo com uma barba por fazer.
Não sei quanto tempo passo observando você, que nem ali está de verdade. É um deleite para mim lhe fitar sendo acompanhada pelo silêncio, mas contraio-me de dor ao mesmo tempo por saber que a sua procura é lá fora, e que os seus olhos se interessam tanto pelo , e não pelo aqui. Isso é doloroso, apesar de sempre ter tido essa razão - que você nunca me pertenceu de verdade. Então, você passa a procurar as suas asas tiradas por mim com tanto esmero e dedicação. Mas a quem eu quero enganar? São asas, oras, e essas coisas mesmo tiradas com carinho, não diminuem a dor da falta.
E ver você aqui, é inebriante. Mas um lado consciente avisa-me sempre que eu sou cruel e egoísta. Mas meu bem, todos nós não somos assim também?
E agora, você vira o rosto para o lado de cá, surpreende-se com a minha observação silenciosa, e mostra-me um sorriso sonolento. Como eu poderia abrir mão disto? Então, o que quero dizer, é que a culpa também é sua. Porque se você fosse menos você, assim eu lhe devolveria as suas asas.

Ah, é reconfortante vê-lo andando assim em minha direção, an-dan-do. Eu nem deveria me culpar tanto por isso, mas culpo-me, sempre; todos os dias.
E você vem caminhando manso, cola os lábios nos meus, e vai até a vitrola. Coloca um disco com demasiado cuidado, e ouço a voz romântica do Elvis preencher cada canto do meu quarto, me pergunto se ele me entenderia já que sempre fora um romântico incorrigível. Acredito que sim.

E então você fecha os olhos, deixando a música entrar em sua alma. Para mim, admirar essa cena se tornou o vício mais prazeroso que eu poderia ter.
Deixo que a melodia me invada também, mas ainda com os olhos abertos, porque eu preciso assisti-lo.
O nome da música que nós absorvemos juntos, naquele pequeno quarto, é “Love me Tender”, sim, eu gosto disso, me ame com ternura. E então você se aproxima mais uma vez, e a letra da canção é sussurrada em meu ouvido por sua voz serena. E isso me faz sentir-me menos mal por ter tirado as suas asas, pois a letra da canção pede um amor terno, doce, um amor onde eu posso ser sua e você meu, até os fins dos tempos.
E quando a música acaba eu fito-o com tudo o que posso, e os seus olhos se mostram entristecidos. Eu acordo dos meus devaneios; eu sei do que você precisa.

“Estou dividido” – ele diz tirando o disco da vitrola. Observo-o sentando no lençol amassado ao meu lado, minha expressão está perdida em algum lugar entre o medo e a culpa. Decido então dizer palavras arrastadas que arranham as minhas cordas vocais ao serem entoadas. “Deixo que vá.” – digo libertando um choro eminente. Ele me observa com olhos tristes, eu passo meus dedos frios sobre o seu rosto de barba rala.
“Eu preciso”. – é o que diz secando rapidamente um feixe salgado que desce sorrateiro por seus traços viris. E aí eu assinto, balanço a minha cabeça lentamente em sinal positivo. E ele, para destruir-me por inteira, beija-me com desespero. “Voltarei, e serás minha até os fins dos tempos”. – foi o que disse enquanto batia as asas e me deixava entornada em soluços descontrolados. Eu praguejei baixinho, uma raiva germinava dentro de mim, mas todos nós sabemos que o que eu senti mesmo foi um amor insurgente, e que a raiva era uma desculpa esfarrapada para beijar meu orgulho ferino.

E hoje, eu abri meus olhos e espiei em volta. Onde eu estava? Não poderia ser no mesmo quarto de sempre, faltava alguém que dava sentido a tudo isso, e então os meus olhos procuraram aflitos pela silhueta dele na janela, e ela não estava lá, nunca esteve. Mas o que eu procurava naquele momento era a figura materializada dele, mas essa havia partido também. E então percebi, tudo havia acabado, as asas foram repostas, e esse quarto não era mais o meu quarto, deixou de ser o mesmo no momento em que o vi partindo; voando para um lugar que não se chama aqui.

“You'll come back when it's over, no need to say goodbye”

- The Call – Regina Spektor -

55ª Edição conto/história - BLQ

Bem, vale ressaltar que o título do texto é o nome de uma música que eu gosto muito. É da Regina Spektor, e eu recomendo para ser ouvida e absorvida, pois ela é dotada de uma belíssima letra, e igualmente assim é a sua melodia. Se quiser ouvir a música é só clicar aqui. (:
Ah sim, obrigada a todos os que vêm aqui e me agraciam com suas palavras, e às vezes só lêem em silêncio, bem, isso tem me deixado muito contente. Um beijo.

16 comentários:

Lucas Stefano disse...

Sombrio e Caliente. Um ótimo texto.

Marcelo" disse...

sucesso! ;)

vell disse...

eu adoro Regina Spektor, acho que uma das musicas dela (isso se não for essa) está na trilha sonora de As Cronicas de Narnia.

o texto é como sempre magnífico Mai.
um cheiro ;*

Julliany kotona disse...

Amei seu blog divino,amei tanto que resolvi ficar ja estou seguindo conte sempre comigo para estar por aqui a te visitar e comentar bjks.boa semana.

Pedro Menuchelli disse...

Bem, como já te disse é uma coisa muito boa vir aqui e ver sempre bons textos como esse. A forma com a qual você se expressa é uma forma fácil de entender, pela qual, seus textos ficam ainda mais bonitos de acordo com a leitura que é feito deles. Em cada linha vejo um aprendizado e isso é de extrema importância para mim. Obrigado por me seguir de volta, tá? Um grande beijo e uma ótima semana,

Pedro.

Jaynne Santos disse...

Mai, mas uma vez o efeito da meia hora me atingiu. Mas dessa vez eu senti uma coisa diferente, nem sei se tem nome pra isso. Uma sensação de ser a personagem, como se eu estivesse sendo manipulada por suas brilhantes palavras, como se aquele momento de despedida fosse meu. Não sei se você entendeu o que eu quis dizer, nem espero, mas espero que você saiba que gosto muito do que você escreve.
Seus textos são indiscutivelmente vivos.

Abraços;

Pedro Menuchelli disse...

Ler seus comentários sempre me deixa apreensivo e ao mesmo tempo feliz. Você consegue deixar uma mensagem muito bonita, ao mesmo tempo que relata em suas palavras um pouco mais do seu caratér e da sua personalidade inteligente. Fico super alegre por saber que existem pessoas que conseguem transparecer uma imagem maravilhosa e sincera sobre o que elas realmente são. Na nossa vida, poucas vezes temos aqueles momentos em que sabemos que tudo é verdadeiro. São esses momentos que ficam na nossa cabeça e viram as lembranças mais belas que já tivemos. Ler o seu blog é uma terapia pra mim e sempre me lembro do que você fala por aqui ou deixa lá em meu espaço. Muito obrigado pelo carinho e pela forma maravilhosa de se expressar. Creio eu que isso é um dom que poucos tem e você consegue cuidar dele da melhor maneira imaginável. Fica com Deus e mais uma vez, obrigado. Com carinho,

Pedro.

• cynthia bs disse...

Meus olhos bailaram nas "entrelinhas" de teu texto. Imaginei-me a escutar "Love me tender", o que me animou ainda mais a continuar lendo o texto. Sabes, adorei teres falado da canção aqui. É que, na verdade, não sei se já te disse, mas classifico teus textos como "música". Aquela bem profunda e ao mesmo tempo bem suave. Aquela que nos toca mas ao mesmo tempo dá-nos prazer em cantá-la. Aquela que dá ritmo ao coração. Que a gente não se cansa de ouvir.

Ah, e os detalhes são sempre marcas em teus textos, o que sempre me deixa a sonhar a cada passo.

O fim está tão sentimental, até bate uma tristeza.

Gostei mito, Maih.

Ah, querida, vim te agradecer pelos selinhos que me indicaste. és um anjo. E tua foto está linda. Beijos. Boa noite.

Com amor,
Cynthia **

Laryssa disse...

Lindo texto, muito bem escrito, você é realmente uma excelente escritora.

Identifiquei-me muito com esse sue texto, também tive um 'pássaro que não era meu'. Mas graças à Deus não o espero mais na janela. Acho que assim é melhor.

"Porque se você fosse menos você." *---*

Arianne Carla disse...

Minha querida, você é uma das poucas a qual estou comunicando respectivamente da minha ausência no blog e na vida virtual. Estou numa espécie de êxtase e tudo isso precisa de tempo e serenidade. Encontrarei isso no meu quarto, em volta dos estudos e livros solenes. Sentirei saudade, uma saudade enorme dos seus contos, textos e palavras suaves, musicais e sensíveis a minha leitura, Mai. No entanto, espero com toda certeza, que ao meu retorno reencontre com elas e com você. Até mais, querida.

Arianne Carla disse...

Desculpe pela simplicidade do comentário acima, mas voltarei.

Caroline Araújo disse...

Senti-me embriagada por texto tão belo. Peço-te desculpas pelos os meus elogios que com o tempo tanto tem se tornado repetitivos. Mas, vejo-me completamente extasiada diante de tanto esplendor. O modo como você descrever, escreve, narra, entoa e eterniza as suas palavras é encantador. O modo como eu passaria opcionalmente dias e dias admirando-as, somente, também é impressionante.
Eu lhe agradeço Mai, por dividir conosco tanta beleza. Não só a explícita, mas a que grita eufórica em cada entrelinha, e canta contente e me faz cantar junto.
Grande beijo, com carinho;
Carol.

Jota disse...

Em alguns momentos me senti lendo a história da Bella, de crepúsculo HAHA

Olha, esse paixão melancólica as vezes é doentia. Cara, é muita dependência emocional todos os traços que você descreveu essa garota... espero, de coração, que isso seja somente um conto.

No mais, se me permite, queria criticar só uma coisa: você usa demasiadamente de adjetivos e isso não é bom. A leitura fica um pouco chata. Descrição é bom, mas de um modo que não seja enfeitado de mais. É só uma dica ok?

Beijos Maiarinha, se cuida ;***

Monique Premazzi disse...

Simplesmente PERFEITO esse texto, menina! Como você consegue? Eu aposto que você vai ganhar, você TEM que ganhar, sinceramente.

Essa paixão louca que faz a gente sofrer com a ausencia de alguém que na verdade nunca tivemos. Parece que isso não é tão incomum assim, o amor faz da gente um boneco de pano, controla nossas emoções e pensamentos. Isso deveria ser extinto!

Amei demais!
Beijinhos <3

Vinicius Ferrari disse...

"Voando para um lugar que não se chama aqui."

sabe, as vezes as pessoas precisam sair, ver gente, respirar ares novos, viver situações novas e isso não significa que as pessoas de antes, o lugar de antes e as situações de antes sejam piores ou melhores que as novas. é que as pessoas precisam de novos desafios, para dar valor aos velhos valores.

Muito lindo seu texto. Parabens!

Aproveitando o comentario, queria te dizer que eu amei o que você comentou la no Ervilhando. Nossa, é tão bom quando as pessoas gostam do que escrevemos né?

Parece que ganhamos na loteria *-*, pelo menos é assim comigo. POASKS

Enfim, vou seguir aqui pra acompanhar melhor seu trabalho *oo*

Beeijos menina e boa semana!

Caroline Araújo disse...

Mai, somente para ressaltar uma coisa; Uma vez a Naty do bloínques me disse: "Poucas são as pessoas que conseguem utilizar os adjetivos corretamente, e você explora muito bem o uso. Acontece que você os maneja de um modo acima da média."
Repito-lhe isso contente, por ver o modo como os adjetivos deixam-se pintar de tamanha beleza em suas mãos. Adoro detalhes, eles me enlaçam em cordas perpétuas.
Grande beijo querida, essa é a minha modesta opinião.