quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Do pesadelo ao sonho

Liz está correndo num campo de capim alto. Ela corre desesperadamente como se isso fosse salvar a sua vida. As lágrimas que rolam por seu rosto acompanham o ritmo dos seus passos ligeiros. O vento balança a relva calma, mas Liz não percebe, tudo passa muito rápido por seus olhos embaçados.

Ao longe ela vê uma menininha de cabelo amarelo feito um dia ensolarado. Sente um nó na garganta, um nó que insiste em sua permanência. Aproxima-se e envolve seus braços trêmulos pelo corpo frágil da pequena menina. Passa as mãos em seus cabelos, e sente o cheiro doce que emana deles. E permanece chorando, soluçando enquanto mantém aquele corpinho firme nos braços. Não quer soltar nunca mais, mas ela sabe o que vem a seguir. Ela vive essa cena todos os dias, e isso está acabando com ela. Ela deseja reviver esses momentos, mas ao mesmo tempo quer que eles fiquem longe, porque sabe que mais uma vez perderá a pequena menina.
As pálpebras de Liz estão apertadas, e ela pede em pensamento para que aquele instante não termine, mas de nada adianta. Ela é arrastada para longe, tenta fincar os pés no chão, mas isso é inútil. Ela está sendo tirada de lá. Grita, mas voz nenhuma se ouve. Chora, e suas lágrimas orvalham o capim seco. Ela partiu.

Acorda. Sua cama está encharcada, suas roupas estão coladas em seu corpo pelo suor. Ela ainda chora; chora muito. Olha para o lado com seus olhos inchados e vê o porta-retratos que guarda o rosto feliz da menina que estava no campo em seu sonho/pesadelo. Envolve a fotografia com suas mãos trêmulas, e a aperta contra o peito. Ela sente dor. Passa horas afundada na penumbra que está o seu quarto. É assim que volta a dormir, ainda com o porta-retratos nas mãos.
Quando as suas pálpebras caem e ela já sabe para onde vai. Corre mais uma vez, tentando ir mais rápido e mais rápido. Ela pensa que assim irá economizar tempo, para que ele seja gasto com a sua pequena nos braços. Liz torna a ver a menina dos cabelos dourados, a abraça passando a mão em sua cabeça. Chorando. Tenta falar, mas sua voz não sai. Novamente.
A menina se afasta com delicadeza, e Liz soluça compulsivamente. Seus olhos estão assustados, é a primeira vez que acontece isso.
A garotinha sorri, e passa seus pequenos dedos gentilmente pelo rosto da outra; secando suas lágrimas. Liz beija as pequenas mãozinhas que afagam a sua face molhada, e tenta falar outra vez, mas a tentativa é falha.
A menininha põe o pequeno dedo entre os lábios molhados da mulher em prantos.
- Não mamãe. Aqui eu não posso ouvi-la assim. – tira um fio de cabelo da frente dos olhos.
Liz a encara atônita. Mais lágrimas rolam por seu rosto, mas dessa vez elas estão divididas entre a tristeza e a alegria.
- Venha mamãe, tenho que te mostrar uma coisa. – puxa a mulher pelo braço enquanto aponta para uma cadeira de madeira. Em cima da cadeira descansa um álbum de fotos, dentro dele um envelope.
- Sente aqui. – diz para a mulher que se sente desnorteada. A menina coloca o álbum em seu colo quando ela senta.
- Veja. – passa os dedinhos pelas letras que estavam na capa do álbum.
Liz ainda mantém os olhos no rostinho da menina. Essa segura o queixo da mãe e o vira em direção ao álbum. A mulher encara a capa florida.
Fotografias futuras. – foi o que leu no título do álbum.
Olha para a menina sentindo-se confusa. E a menina lhe sorri de maneira doce.
- Vá em frente. – encorajou-a.
Liz vira a capa, e encontra um envelope.
- Deixe a carta para depois. Olhe as fotos primeiro. – disse a menina tirando gentilmente o envelope das mãos da mãe.
A mulher não pestanejou. Começou a virar as páginas. A cada fotografia a menina apontava.
- Veja, essa estamos fazendo um piquenique na sombra de uma macieira. – dizia com agitação.
- Olhe mamãe. Aqui estamos comendo amoras, ah como eu amo amoras. – suspirou. Liz ia virando as páginas e sorrindo meio abobalhada. Não sabia o que pensar. Era tão real...
- Veja, veja! Estamos apostando corrida até o lago. – apoiou-se no colo da mãe.
- Ah mamãe, são muitas. Aliás, não terminam. E você ainda precisa ler a carta. – falou enquanto fechava o álbum. A mulher sustentou um olhar perdido, queria ver mais. Queria ver todos os momentos que elas nunca tiveram juntas.
- Não fique triste mamãe. Ainda viveremos tudo isso. – sorriu entregando-lhe a carta.
- Aqui. – foi abrindo o envelope no colo da mãe.
- Leia mamãe. Eu aprendi a escrever com os meus novos amigos, mas a carta eu mesma que escrevi sozinha. – sentiu-se satisfeita.
Liz encarou as letras infantis no papel límpido. E postou-se a ler, ainda sentindo lágrimas teimosas lhes molharem a face.

Doce mamãe,

Primeiro, gostaria de dizer que você não deve ficar se sentido culpada por tudo o que aconteceu, porque a culpa não foi sua. Segundo, estou em um lugar lindo, onde tenho muitos amigos e todos cuidam muito bem de mim. Sim mamãe, sinto saudades de você, por isso ainda continuo aparecendo em seus sonhos, e me desculpe se você é arrancada deles tão cruelmente, mas é que você ainda está muito ferida.
Eu treinei bastante para escrever essa carta, e espero mesmo que você esteja lendo isso agora.
Não quero que você fique sofrendo mamãe, a cada dia que você chora eu choro aqui também. E quando dói em você, dói em mim também. Porque eu te amo mamãe, e quando amamos é assim.
Eu queria muito pedir a você para que parasse de ser tão cruel consigo mesma. Não foi sua culpa mamãe, às vezes as coisas são assim. Eu sei que é difícil, mas ainda nos veremos. Você viu as fotografias, ainda viveremos tudo isso juntas. Por favor, não fique fazendo com o seu coração o que eu fazia com os meus joelhos. Você lembra? Eu sempre chegava em casa com eles esfolados. Então mamãe, viva sem esfolar o seu coraçãozinho. E carregue sempre um sorriso, faça isso por mim. Estarei sentindo cada sorriso seu como um abraço apertado. Estarei feliz se você também estiver.
Amo você mamãe, e isso não muda nunca.

Beijinhos,

Mel.

Liz manchou a caligrafia pueril com algumas lágrimas. Fungou enquanto sorria para a filha e a abraçava, com cautela; com amor. Beijou o rosto da menina e a segurou pelas mãos, sentiu que estava indo embora naquele momento. Queria levar a carta consigo, queria, antes de tudo, levar a sua filha consigo, mas sabia que era impossível. Ainda assim sorriu com os olhos marejados, agora de felicidade. Liz sabia que aquelas palavras sempre seriam suas - sua filha sempre seria sua -, sempre estariam guardadas em sua memória. Mel estendeu a mãozinha em despedida. Mas ambas sabiam que elas sempre estariam juntas.


Ah gente, eu sei que exagerei outra vez. Desculpem por isso, eu realmente me senti presa a essa foto. E quando a olhei, confesso que tinha uma história mais trágica em mente, porém, esse quadro mudou quando comecei a escrever. E já viu né?! Comecei e não senti mais vontade de parar. Mas obrigada pela paciência e atenção. Beijos.

7 comentários:

Cabeça Feminina disse...

Dsculpa a demora, mas mt obrigada pela participação no meu blog.
Volte qnts vzs quisr, pois sua opnião eh mt important para nós.



Um beijo

Danny

http://cabecafeminina.blogspot.com

• cynthia bs disse...

Ai, que lindo, Maiara *-*

Amor de mãe e filha é tão bonito né? Amei a fotografia, e o texto ficou ótimo. Totalmente seu estilo (:

Amei a parte que elas duas conversavam (embora a mãe não falasse nada, o olhar diz tudo, e ainda assim é uma conversa ué)!

Beijinhos **

. pamela moreno santiago disse...

Ah eu amei essa foto *-*
E não se preocupe, bons leitores apreciarão seu texto, não importa quantas linhas ou páginas ele tenha :D

Beeijos

Danii disse...

Emocionante May. E triste. Estou sem palavras, sério rs. O que dá uma sensação mais confortável é saber que existem boas lembranças da garotinha e que mais cedo ou mais tarde elas estarão juntas. O texto se encaixou perfeitamente com a foto :D
Bgs :*

Caroline Araújo disse...

Esses dias eu estava pensando sobre a morte, e penso que (pra quem vive) é uma das coisas mais difíceis de se superar.
Mai, se você exagerou foi somente na beleza de cada palavra escrita. Um exagero esplêndido e admirável. Confesso que os meus olhos ficaram marejados. E havia como isso não acontecer diante de uma história tão intensa e emocionante?
Você conseguiu transbordar em cada linha um amor incondicional de mãe e filha, e uma inocência perfeita de criança. Tão doce quanto as personagens, é quem as criou. E mais radiante do que os fios loiros da menininha é o seu talento.
Agradeço de todo o coração por você se depositar nas palavras, e por sempre sentir os meus textos de uma maneira diferente da maioria. As palavras te amam, e presenciar isso é encantador.
Grande beijo.

Laryssa disse...

Olá Maiara,
Sou nova por aqui, quem me indicou seu blog foi a Carol, e adorei. Não achei esse seu texto um exagero, foram os detalhes que fizeram com que minha imaginação fluir mais, e poder contemplar, cada, lágrima, cada sorriso e cada expressão.

Grande beijo.

Meus Blogs:
http://guriamagricela.blogspot.com/
http://guriamagricela.blogspot.com/

P.S.: Gostei tanto do seu blog que já te indiquei um selo se puder dá uma olhada, vá lá ao meu blog. Beijos Lary

Jaynne Santos disse...

[...]

Minhas palavras?

Fugiram todas, só as lágrimas restaram!
BjÔ.