domingo, 27 de fevereiro de 2011

Resquícios de um velho poeta velho


Rugas cravadas em mãos fragilizadas pelo senhor voraz que é o tempo. Tinha os olhos escondidos por lentes de grossas espessuras - era o alento da visão -, e ela insistia em despedir-se. A cabeça exibia tufos brancos dependurados na careca de sardas. Dentro dela a memória o traía, até o nome já lhe escapava. Triste essa minha insanidade que me furta o digno e elementar raciocínio. – pensava em seus estouros de nostalgias balbuciadas para o vento.

Na cadeira ele mantinha a postura ereta do jeito que podia, mas os ossos já relavam, exigindo uma trégua. Entregar-se a gravidade era o que queriam; entregar-se de uma vez por todas ao descanso do corpo moribundo.

Os dedos trêmulos encontraram a armação dos óculos antigos, que foram suspensos até o ajuste perfeito do conforto imperfeito que sentia. A mão esquerda abraçou a antiga caneta. A folha pálida foi arrastada para mais perto, onde a tinta negra pudesse percorrê-la sem pudores. E assim foi.

A caligrafia tremulava a cada linha torta deixada para trás. Pendia no rosto enrugado uma expressão perdida, doída e penosa.
Doía ver em que ponto o tempo o havia feito chegar, doía perceber que o grande amor da vida que tivera estava sendo sucumbido por suas limitações físicas.
Os óculos foram erguidos mais uma vez, e essa seria a apreciação enojada de sua carta falha.

Começo enfim a redigir de maneira vergonhosa essas linhas que antes me foram tão fiéis. Acho plausível um pedido de desculpas, já que demorei tanto a reconciliar-me com vocês - minhas amadas e gentis palavras. Peço que me entendam, já que fiquei longe por tanto tempo, e por culpa do tempo. Estou velho, estou findo, estou morto e ainda não me avisaram sobre isso - eu não me avisei sobre isso.
Então minhas queridas, agradeço por serem o meu refúgio mais secreto, e alarde mais violento. Agradeço por terem me acolhido mesmo quando eu inteiro fedia a álcool ardente de qualquer bar vagabundo. Agradeço até por terem me afagado mesmo quando eu lhes traía por aí. E depois desses agradecimentos, lhes digo, vocês foram as que me fizeram mais feliz em toda essa minha vida medíocre e estupidamente incrível. E até mesmo quando eu as usava para conquistar almas femininas sedentas por atenção, afirmo-lhes com sinceridade, era a vocês que eu amava com tudo o que eu podia. E as amo, mesmo nesse meu momento quase-morte. Mesmo as fazendo falhas e deficientes por culpa dessas mãos que fraquejam, e dessa mente que deságua de dentro para dentro, e afunda-me, aos poucos e lentamente.
E agora sinto que não devo mais ficar, sinto que a palavra que pouco usei acaba de chegar até mim e pedir um espaço entre vocês. Bem, não irei mais fazer com que essa deficiência que agride a minha visão desventurada seja prolongada, por isso lhes reapresento a minha última e quase doce palavra: Adeus.

A caneta escorregou das mãos magras e tilintou no chão. As pálpebras foram fechadas calmamente. Os ossos entregues a gravidade que tanto lhe oferecia os braços. O chão lhe pareceu cálido como o leito da morte que ele já aguardava. Os pulmões evacuaram o último suspiro, que fora enlaçado e carregado por sua última e quase doce palavra aturdida. Adeus.

18 comentários:

César Dias. disse...

Adorei esse texto, muito bonito parabéns.

Roberta Galdino disse...

ótimo texto
meus parabéns
e amei o blog
te sigo!

Jaynne Santos disse...

Um texto cálido, mesmo com uma tristeza incumbida no seu cerne. Mesmo com o angústia ácida do Adeus, o personagem se fez intrépido, mesmo ao demonstrar a fragilidade indócil. Despediu-se da única coisa que realmente se fez presente e digna de um adeus: As palavras!

Beijos;

Caroline Araújo disse...

Ah, Mai.
Eu jamais poderia privar-me de vir aqui diariamente! Peço-lhe desculpas por não ter comentado nos seus dois lindos e incríveis poemas. Eu os li, reli e entre o sono que fechava as minhas pálpebras balbuciei palavras doces de admiração, embora não as tenha registrado aqui em forma de comentário. Saiba que um júbilo me agita ao ver o quão excelente poeta você é.
Acho maravilhoso o modo como as suas palavras mudam de face tão abruptamente; Por vezes elas sorriem, em outras choram, brincam, dançam, BRILHAM... Amam e me conduzem amá-las. Assim como esse velho senhor que tanto as ama. E digo (amar) no presente pois escritor não morre, a sua escrita cintila na eternidade - eternizando-o igualmente.
Grande beijo querida.
Todos os seus textos são maravilhosos, mas esse... furtou demasiadamente a minha admiração!

Elania disse...

Tão doce, sincero, um toque febril de paz...Me passou tantas coisas esse texto. Muito, muito lindo.
Até.

Caroline Araújo disse...

Ah, parabéns pelo merecidíssimo 1º lugar no blq!!
Beijão.

Gabriele Santos disse...

sempre que venho aqui me surpreendo com a sua escrita. Você realmente sabe usar as palavras certas para nos transportar a loucas viagens durante a leitura dos seus escritos.
-
Mais um texto belissimo este seu, e me identifiquei com seu personagem por este amor as palavras, realmente são nossas melhores amigas.
grande beijo menina.

• cynthia bs disse...

Olá, meu amor.
Bom, estou aqui de passagem (e muito rápida, por sinal). Apenas para avisar que estou te seguindo no twitter \o/ E que há um lindo selinho para você em meu blog. Sabes onde encontrá-lo! Então, não esqueça de passar lá e buscar seu selinho. Espero que goste!

Beijinhos **

Sinho Livre disse...

tão jovem e escrve como gente grande.adorei teu texto.sinceramente,não sou muito de apreciar contos ,crônicas...mini- contos talvez...mas o seu ficou ótimo.quer participar de um sarau? à princípio é apenas de poesia...mas estou estudando a idéia de fazer um paralelo com contos tbm.leia abaixo;
I Sarau de poesias wiki

Ganhe "Os miseravéis" de Victor Hugo


Venha participar você também.do primeiro sarau de poesias 'wiki'(lembrando que os participantes não poderão "wikar"seus artigos,apenas postar num comentário o link do seu poema).
É muito simples,basta postar O LINK DO SEU POEMA NO BLOG e torcer para que ele seja o mais comentado do mês.O poema mais comentado ganhará como prêmio simbólico;
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Participe você também.Ao deixar o link no blog,eu (sinho livre) visitarei seu blog...deixarei um comentário,adcionarei meu perfil como seu seguidor e postarei seu poema no SINAIS SUTIS (http://desenhospoeisiascomportamento.blogspot.com/).
Vale lembrar ,que os créditos autorais do post(poema)à serem exibidos no SINAIS SUTIS serão do autor de origem, ou seja...VOCÊ.(o link do post original e o nome do autor serão exibidos logo abaixo do poema).
O INTUITO DESTE SARAU é meramente cultural ,intereativo e literário.Visa a valorização dos blogs como importantes ferramentas de propagação de novos talentos.Quero deixar bem claro NÃO HÁ INTERESSE COMERCIAL NEM FINANCEIRO.
O sarau terá início na próxima semana dia 04(segunda-feira) de outubro(2010).Para concorrerem ao prémio citado acima,também se fará necessário que sigam o blog SINAIS SUTIS para acompanharem o decorrer do processo geral do sarau.
Mais informações sobre como deverão ser os processos de seleção do poema vencedor aqui no blog no próximo post.
PARTICIPE ,VENHA MOSTRAR DO QUE VOCÊ É CAPAZ.
organizador do evento:
Sinho livre

Obs.:
Deixem o link do poema com qual gostariam de participar no blog em forma de comentário.obrigado.

Dani Ferreira disse...

Nossa Mai que texto incrível.
Deu uma dorzinha assim sabe, ver alguém tão apaixonado pela escrita, partir deixando-a. Imaginei cada momento que você descreveu, o senhor se despedindo pouco a pouco. Muito emocionante mesmo. Estou até agora imaginando e revendo o momento rs.
E mais uma vez parabéns, você sempre surpreende :D
Bgs bgs ;*

Sinho Livre disse...

obrigado por estar presente no sinais sutis

Pedro Menuchelli disse...

Maiara,
Queria que você pudesse ver a minha felicidade e a minha admiração por você quando leio seus textos. Eu venho aqui, mas quando saio, fico agraciado pelos conhecimentos e pelas palavras que você deixa por aqui. Quando escreve, o coração e a emoção falam muito mais alto do que a razão e isso faz com que haja um toque especial nas entrelinhas dos seus textos.

Confesso que, as vezes, gostaria de ter um contato maior com você, pois sei que ser seu amigo é um conhecimento ainda maior e é uma honra. Muito obrigado pelo crescimento emocional que acabo tendo por aqui. Queria, por fim, desejar uma ótima semana. Com carinho,

Pedro.

• cynthia bs disse...

Que é isso, Maiara? Eu amo o que escreves, mulher. É tudo muito descritivo e detalhado. Não esqueça viu? rsrs

Bom, eu estava louca (desde que você o postou) para ler este texto, mas estive muito ocupada ultimamente. Então vamos lá. Gostei muito! Trata-se de uma morte acalenta, calma, suave, importante. Que bonito alguém, embora de idade demasiadamente avançada, ser amante e profissional das palavras. Tratá-las como doces esmeraldas que foram tantas vezes bem ou mal pronunciadas. Pedir perdão como se elas entendessem seus sentimentos. Regressar a antiga morada como se elas ainda permanecessem lá a sua espera. Agradecê-las pelo refúgio e pela acolhida como se as admirasse e as contempla-se. E elas, porém, sentissem orgulho de serem expressas de tal forma a preencher o vazio no coração e na vida de muitos.

Belo texto!

Oh, meu anjo, criei um selo oficial para o blog, encontra-se na página "selo oficial". Espero que gostes de levá-lo contigo. Sinta-se em casa! Beijinhos e tenhas ótima semana, florzinha! E muito obrigada por suas palavras.

Com amor,
Cynthia **

• cynthia bs disse...

Ah, e quero me desculpar por não ter lido (:x) nem comentado os seus dois últimos poemas. É que, como disse, estive muito ocupada ultimamente. Mas bom, hoje estou com bastante tempo em compensação, e vou imediatamente lê-los.

Beijinhos, Maih *

Arianne Carla disse...

Mai, esse texto me deixou com aquele arrepio, aquele arrepio depois de sentir o que o personagem quis transparecer. Ele morreu com suas palavras e viveu nas linhas da sua escrita. Como sempre: muito bom. Intenso, sincero e espetacular. Gosto muito, muito daqui.

. pamela moreno santiago disse...

Tem selos para ti. Pegue os que não tem :D

http://cerezaambulante.blogspot.com/2011/02/selos-do-mes-de-fevereiro.html

Beijos

C. disse...

Justamente o autor, que representa ele mesmo em diversos papeis, que altera a realidade das coisas, nao pode mudar o destino, que é a morte. Mas a mente é um palco eterno! E nesse caso, até nessa hora o poeta quis significar a sua, transformando sua dor em palavra.

É prescindível dizer em cada texto que escreve muito bem.

Desculpe demorar esses dias para aparecer, com certeza perdi muiiito ;)

Underdog disse...

O título me chamou a atenção e o texto não deixou a desejar. Muito bonito, muito real. Atinge bem lá dentro...

Parabéns. Estou seguindo ;)