terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sangue

Mãos que tremem e acariciam o ventre de inclinação ínfima. Olhos que se enchem e esvaziam-se deixando o medo beijar as bochechas cheias.
Vida é o que sente. E os golpes das lembranças a culminam.
Na memória a visão do lençol branco. Na memória a visão do lençol manchado de dor; dor vermelha; dor sangue. Porque o fato inepto da vermelhidão que não se escondeu resolveu mostrar-se e dizer a ela: desista de uma vez!
E ela desistiu, após tentativas dolorosas de fazer vingar e de vingar-se do próprio organismo traidor.
Mas um sussurro de desespero lhe invadiu os ouvidos, era a voz que pedia cansada: tentar? – era o resto do resto de palavras já ditas. Já gastas. E que no fundo guardou esse pequeno fio de esperança, tão frágil quanto ambos os seres que buscavam obstinadamente, e desesperadamente pela geração de mais um.
Ela tentou, eles tentaram, outra vez. Vez de outras súplicas infindáveis, de outros pensamentos calados que clamavam pelo choro agudo emanado de um pequeno corpo vestido de sangue. E nesse momento sim, o sangue poderia mostrar-se.

A cada dia passado era menos um dia de aflição. Ambos marcavam em calendários escondidos, porque ambos zelavam pela felicidade um do outro.
Palavras eram poucas. E olhares incontáveis. Os dele imploravam para que os dela estivessem bem.
Quando a noite vinha, ela forçava-se a dormir, porque ela não era sozinha. E ele zelava o seu sono, e passou sete meses sem dormir pesadamente; e passou-se sete meses até o lençol sujar-se.

O desespero invadiu a ambos. Ela tentava ver os dedos sujos no escuro, ele quebrou o criado mudo ao esbarrar-se para acender a luz. Na memória a visão do lençol branco.
Os olhos foram marejados, e evacuavam pesadamente cada lágrima. Em frente a eles os dedos dela estavam, sem vermelho. A bolsa! – sua voz soou urgente.

O homem dirigia e olhava o rosto da mulher rapidamente. Suas lágrimas apareceram, e foram secadas pela manga da camisa.
Entrou no hospital com ela nos braços, seus olhos não saiam dos dela. Seu grito de súplica assustou a todos que ali estavam.

A mulher encarava as luzes que passavam rapidamente por ela. Suas mãos estavam sendo apertadas. Ele. E na memória a visão do lençol manchado de dor.
O homem foi detido, precisaria trocar as vestes, e assim fez. A mulher gemia, gritava, comprimia o rosto, e estraçalhava os dedos dele já dormentes.

O lençol de azul pálido fora manchado de vermelho sangue. Sangue.
Um choro agudo reverberou pela sala de parto. O homem abraçou os médicos e enfermeiros, gritando e rindo descontroladamente. A mulher de cabelo bagunçado, rosto suado, e expressão exausta, aninhou o micro ser em seu colo. O homem a achava linda, ainda que estivesse assim, e ainda mais assim. Ambos choraram o choro guardado por anos de tentativas drásticas. Mãos foram apertadas, e delicadamente encostadas em mais uma. Pequena e frágil, e tão esperada.

E na memória o lençol manchado de vida.

8 comentários:

Caroline Araújo disse...

Que lindo!
Admiro as suas palavras como se eu presenciasse, literalmente, a expectativa de pais verem uma vida nascer, tão pequena e frágil envolta no lençol branco; Lençol-vida.
Confesso que a minha intenção era ler somente o título, pois o cansaço domina o meu corpo, embora a mente ainda lute vivaz; Mas essa vivacidade foi aguçada ao ler o primeiro parágrafo de seu texto, o qual envolveu-me no mesmo lençol manchado de beleza e talento que cobre as sua escrita.
Sinto um júbilo por apreciar alguns nascimentos ao ler esse escrito: O da esperança das personagens, o da criança esperada e o nascimento e crescimento contínuo de tão excelente escritora.
Grande beijo querida.

Dani Ferreira disse...

Nossa, que coisa linda Mai *-*
Confesso que imaginei uma história completamente diferente ao ler o título. Gostei muito mesmo, a forma como você contou cada detalhe. Essa coisa linda do nascimento. O final ficou lindo, bem tocante :D
Bgs Mai ;*

Jaynne Santos disse...

Novamente suas palavras tornam um momento natural numa cena envolvente e emocionante. Cada simples detalhe da vida ao qual antes parecia inanimado, se transforma em ser vivente. Sinto as palavras dançando em meus sentidos e me transportando para um outro mundo, mais cheio de magia, com o dom de nos fazer vivê-las.

Grande beijo Mai!

Millena Blogueira disse...

Passa lá no blog tem selo pra ti lá.
Te Cuida!ótima semana!

C. disse...

Muito bacana a maneira que vc narrou toda a forca de um casal em busca de gerar um filho, e que um nao faz sozinho, e que um sofre pelo outro, e que é assim que deve ser.

• cynthia bs disse...

Maiara, tu me fazes sempre tão feliz ao me elogiar com tuas palavras que sempre cintilam um brilho radiante.

Obrigada. E que bom que me entendes.

Beijinhos, volto logo menos para ler este texto **

C. disse...

Tao gostoso quando nos deparamos com pessoas que realmente leem o que escrevemos...

bj na alma,
Cris

• cynthia bs disse...

Ah, encantada com este texto, Maih. Super lindo **

Não esqueça de passar em meu blog para buscar os selinhos que te indiquei. Encontra-se no finalzinho da página "Selinhos". Espero que gostes, amor.

Beijos ;*