terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Vela

A mulher com traços frios cravados na face, leva os olhos do papel rabiscado para a chama iníqua. O sopro delicado do vento gélido faz o fogo dançar criando inebriantes movimentos sincronizados. A mulher se sente uma invasora, e invasora permanece. Invade a dança da chama e as letras que não sustenta a sua caligrafia, e nem os seus olhos como espectros de seu propósito.
O prazer da vela é também o seu deletério. O vento que a acaricia faz com que a cera pálida deteriore-se em lágrimas quentes, tão quentes quanto a própria chama amarelada. E aquela que a observa começa a compartilhar dessas mesmas sensações.
Ela pensa que ler aqueles traços no papel é uma autodestruição silenciosa. Ainda assim continua. Porque saber, e provar da dor, é melhor do que permanecer no canto escuro da sala forjando mentiras doces que são entoadas como cantigas de ninar.
E é lá, naquele canto, que permanece encolhida, com as pernas guardadas entre os braços e os olhos cobertos por uma película fina de água. Decide que as palavras não serão como a chama da vela. Decide que as palavras não irão fazê-la derramar lágrima alguma; não ainda.
É arrancada de seus pensamentos pelos passos que ecoam pelo corredor escuro. Rapidamente sopra a chama da vela chorosa - interrompe o seu fim, e o seu prazer.
Em seguida rasteja em silêncio para baixo do piano de cauda. Tendo nas mãos o papel amassado, com todas aquelas palavras ferinas.
Observa o sapato bem engraxado se ajeitando perante o banquinho do piano. O silêncio que bailava pelos vitrais coloridos da sala é espantado pelas notas melancólicas que vão preenchendo o lugar. Aquilo golpeia a sua alma, traz uma ânsia de vômito em um fluxo devastador. Ela contém o vômito, mas sente que já não está mais cabendo embaixo do piano. Ela quer gritar.
Em um impulso primitivo, empurra o homem que dava vida a música fúnebre. Ele cai no chão, com seus olhos apagados. A mulher se posta a sua frente, de pé, amassando o papel em um punho cerrado.
Ele permanece no chão, a encarando com a culpa escorrendo por todos os seus poros.
- Por quê? – força-se a conter as lágrimas. Sente um nó na garganta; uma dor ao mesmo tempo. Ela precisa desesperadamente gritar.
- Por quê? – grita jogando o papel na face sem vida dele.
- Você não deveria saber. – as palavras saem como prisioneiras presas em correntes.
- O que eu não deveria saber? Que você a matou? Que você é um assassino? Por que eu não deveria saber? Porque você pretende me matar também? – sentiu que as lágrimas queimavam as suas bochechas como a cera derretida pelo fogo.
- Ela. Me. Traiu. – cerrou os punhos ao dizer em pausas cortantes. A mulher pôde ver o sangue escorrer das mãos do outro. Ele cravava as unhas nas palmas.
- Não interessa. Ela era a sua mulher, e você a amava. Dane-se se ela o traiu. Você não deveria ter traído a si mesmo. Um erro não justifica o outro. Você se transformou em um monstro. Eu amava você, eu... amava. Mas você não passou de uma farsa, e eu estou cansada de mentiras. Eu não posso mais ser alguém em sua vida, porque agora eu sei que se acontecer alguma coisa que você não consiga superar, você vai agir de maneira idiota. – cuspiu todas as palavras encarando o ser jogado ao chão com as mãos ensanguentadas.
- Não. Por favor. Você é diferente. Por favor. – a encarou com olhos suplicantes.
- E se eu te trair em? O que você vai fazer? – se aproximou. E o homem encolheu-se no chão, caiu em prantos e tentou encobrir as lágrimas com suas mãos, mas elas saíram vermelhas. Ele sangrava.
- Isso dói não é? Dói sim... Você vai conviver com isso a sua vida inteira, vai ser um assassino para sempre. – suas palavras deixaram a sua língua fria, e as orelhas do homem congeladas.
- Pare, por favor. Pare! – gritou. A mulher ficou observando-o. Sentia raiva dele; sentia raiva de si mesma. Ela o amava; ela o odiava. Ela jamais o perdoaria.
Suas lágrimas voltaram a queimar-lhes a face. Ela sentiu que a vela queimava.
- Eu vou embora. – disse enquanto se distanciava.
- Não. Não vá! Fique aqui. Eu te amo. Eu não vou matar você, eu amo você. – suplicou ao agarrar-se na perna da mulher. Sujou-a de sangue.
- Você também a amava, e você a matou. – disse tentando parecer firme. Mas ela queria desmoronar, queria correr dali e desmoronar. O homem ainda a agarrava pela perna, ela desvinculou-se bruscamente e saiu correndo pelo corredor enegrecido. Na saída bateu a porta da sala.
Da rua ainda pôde ouvir os gritos suplicantes dele. E nunca na vida sentira tamanha dor quanto a que estava sentindo naquele momento.

Já em casa a sua cabeça girava. Ele poderia ir atrás dela; ele poderia matá-la. Ela agora sabia; ela agora fazia parte disso, e se o encobrisse seria uma cúmplice. Não, ela não podia fazer isso. Não podia amar um assassino. Não podia amar alguém que pudesse causar a sua destruição. Ela não seria a vela e ele não seria a chama acesa.
A mulher jogou-se ao chão de sua sala, e chorou. Chorou até sentir que não desciam mais lágrimas por seu rosto - não havia mais lágrimas a serem derramadas -, ela estava seca.

Ainda soluçou descontroladamente enquanto tentava manter o telefone firme nas mãos. Conteve-se e discou um número.
- Alô. Eu quero fazer uma denúncia anônima. Eu sei quem matou Elizabeth Stanford.
No dia seguinte, a notícia já estava em todos os jornais. “Depois de cinco anos o assassino da jovem Elizabeth Stanford foi encontrado. Seu ex-marido de trinca e cinco anos, estava foragido em um interior no sul do país. Os policiais tiveram a ajuda de uma denúncia anônima para solucionar o caso.”

E então a vela foi apagada antes de seu término. A mulher soprou a chama; soprou as mentiras que a encobria à noite.

Pauta para o Bloínquês – 52ª Edição conto/história.


6 comentários:

• cynthia bs disse...

Adorei, Maiara. Um texto sensacional! Muito bom livrar-se de um peso nas costas que carregávamos há muito tempo!

Beijos *

Caroline Araújo disse...

Lindo, lindo. Merece pódio.
Eu admiro muitíssimo o modo como você escreve, e a maneira como as suas palavras conseguem ser tão intensas, retratando dor e um crime de uma maneira bela e profunda. E analogia em relação a vela foi incrível, gostei muito mesmo. Ontem disseram-me que são poucas as pessoas que conseguem usar adequadamente os adjetivos, e você o faz majestosamente.
Grande beijo.

Monique Premazzi disse...

Simplesmente incrível a pauta! Ficou demais mesmo. Boa sorte, viu? Estou torcendo *-*

Obrigada pela visita. Volte sempre que puder.

Beijinhos :*

Jaynne Santos disse...

Chocantee! Coitada da mulher, como não deve estar se sentindo!

Tenho essa mania de tratar personagens como pessoas mesmo; porque de certa forma, são outras pessoas a quem damos vida!
beijocas.

. pamela moreno santiago disse...

eu até estava pensando em participar dessa edição. Mas depois de ler seu texto, já sei que não vou ter chances
:(
SHUAHSHAUHSHHUS

Tá maravilhoso *o*

Danii disse...

AAH May, mais uma vez um texto surpreendente. A maneira como você coloca as palavras e como a Carol disse, a analogia com e vela foi incrível mesmo *-* Parabééns pela milésima vez rs. Seus contos me prendem do início ao fim :DD
Bgs:*