terça-feira, 1 de março de 2011

Avassala(dor)


No restaurantezinho da esquina, ela está sentada soprando a superfície do seu café quente. Costuma ir sempre àquele lugar, costuma pedir sempre o mesmo café, e costuma manter a cadeira à sua frente sempre vazia.

Deixa a xícara tocar a madeira lustrada da mesinha redonda, observa à sua volta a cidade mexer-se. A noite já se fez presente, e as ruas permanecem acesas. Gente sorrindo, conversando, andando sozinha; rugas de preocupações enfeitam a maioria dos rostos; olhos e ouvidos atinos aos relógios barulhentos.

Na calçada um casal em especial lhe chama a atenção. A moça sorri enquanto enlaça o rapaz pela cintura. O rapaz sorri beijando a testa da moça. Ambos adentram o restaurante, sentam-se um de frente para o outro.
Nesse momento ela encara a cadeira vazia a sua frente. Procura descrever o que sente, e tem a certeza de que não é solidão, ela prefere chamar de proteção.

Toma mais um gole do seu café e volta os olhos para o casal aparentemente feliz.
Eles conversam, riem a todo o tempo. O celular dele toca, e a moça o rouba de suas mãos atendendo em um tom brincalhão. Os olhos dele escurecem-se; a moça apaga a felicidade de seu rosto; o rapaz oferece explicações; a moça corre de lá derrubando a cadeira; o rapaz cobre a cabeça com ambas as mãos, e em seguida tira uma aliança do bolso, coloca-a no dedo e a encara sustentando olhos aflitos.

Ela observa tudo com naturalidade, já viveu um filme parecido, já aprendeu lições valorosas sobre a dor. E toda essa coisa sobre o amor, ela acredita ser apenas um jogo, onde não existem vencedores.
Bebe mais um gole de seu café, enquanto observa um outro casal. Sentam-se em uma mesa próxima a ela. E ela resolve que é melhor não prestar atenção neles, presume que as pessoas são muito iguais. Todas elas procuram o amor, e todas elas sabem que no fundo sempre acabarão dependurando decepções em seus pescoços. Sabem que a dor é inevitável, sabem de tudo isso. Mas é só olhar para elas e ver, todas procuram ser amadas. Todas pedem por serem feridas. Mas por momentos de felicidade vale tudo. - é o que pensa enquanto afunda-se em nostalgia.
Lembra que também já foi uma delas, mas apaziguou seu coração, trancafiou sentimentos que gritam diariamente, mas suas vozes não são ouvidas, ela ergueu enormes muros a sua volta, e toda a sua companhia se resume a solidão. Ela não é uma pessoa triste, na verdade, é sim. Mas todas as outras também são, os motivos que as entristecem é que são outros.
Ela também é feliz, de um jeito estranho e precavido. Então, ela é mesmo feliz? E felicidade, o que é? Não é fazer o que se gosta e se sentir bem assim?! Ela afirma que faz o que gosta, mas porque não sente nada avassalador? Provavelmente porque ela esteja obcecada em avassalar a dor. Muito provavelmente.

Um rapaz tomba-se com a sua mesa, um pouco de café cai sobre a madeira escura. Ele pede desculpas, ela aceita ainda presa a seus devaneios.
- Não a conheço de algum lugar? – ele pergunta. Ela não responde.
- Ana?! Minha nossa, quanto tempo faz? Estudamos juntos, lembra?
Claro que lembra, ela sempre foi boa com a palavra lembrar. Ela faz isso o tempo todo, e é por esse motivo que não quer falar. Ela apenas quer continuar observando as dores dos outros, e continuar escondendo as suas.
- Olá Henry. – diz a contragosto. Ainda prezando pela velha educação que lhe foi concedida. Ou talvez queira inconscientemente avassalar a dor. Talvez ela também queira sentir aquela dor mais uma vez. Talvez ela queira ser feliz de uma maneira estranha. “Talvez eu deva levantar-me e ir embora.” – pensa.
- Minha nossa, não acredito. Você realmente sumiu, nunca a vi em nossos bailes de reencontro, e todos os outros também não sabem nada sobre você. O que tem feito? – sua voz parece eufórica. Ele se senta a observando com olhos extasiados. Ela está surpresa e assustada ao mesmo tempo.
- Bem, eu trabalho num jornal. – sua voz soa temerosa.
- Que legal, mas nunca vi seu nome em nenhum deles.
- Uso um pseudônimo.
- Fascinante. Eu trabalho com o meu pai, já deveria caminhar sozinho, afinal são vinte e dois anos, e isso já é muito tempo. Mas sabe como é... Às vezes fazemos certas coisas pensando mais em outras pessoas do que em nós mesmos. E se eu falar ao meu pai que estudo História às escuras, ele arranca o meu fígado e vende no mercado negro. – disse com ar preocupado. A outra tentou esconder um riso, o que acabou sendo uma tentativa falha. Ela o entendia, e estava desesperada para fugir dali. Ou pensava estar.
- Você continua calada, e eu tagarelando feito um papagaio. Certas coisas não mudam nunca. – assumiu uma expressão nostálgica. E ela assentiu.
- Preciso ir, estou atrasada. – disse fitando o relógio sem o ver.
- Ah, desculpe o incômodo. Gostei muito dessa conversa protagonizada por mim. Pode deixar o seu número comigo para a gente marcar alguma coisa? Eu sei, muita audácia da minha parte, mas é para relembrar os velhos e bons tempos. – apanhou um pedaço de papel e escreveu rapidamente o nome e o telefone, entregando-a em seguida. E então a abraçou sem formalidades. Ela sentiu que aquilo estava ficando cada vez pior.
- Hum, tudo bem. – retribuiu com um abraço chocho. E lhe deu o seu número.

Lá fora ela o olhou discretamente, ele permanecia ao pé da mesa, acenando e sorrindo.
- Maldita seja a hora em que ele apareceu. – disse para si mesma amassando o papel. E jogando-o dentro da bolsa.
A quem ela quer enganar se não a si mesma? Ela está pedindo por um pouco de amor. Está mais uma vez a procura da dor. E da felicidade que insiste em lhe atormentar. Atormentar?

Já em casa ela tenta digerir tudo aquilo, e sente uma ânsia de vômito.
- Droga! – diz buscando o celular que vibra em algum lugar de sua bolsa.

Esqueci de dizer, mas você continua extremamente linda. Hoje ainda mais do que antes, mas há certas coisas que não mudam.
Sábado, às sete da noite o seu celular vai tocar, e, por favor, não me ignore.
Com carinho,
Henry.

- Que droga, eu só quero paz. – jogou o celular no sofá.
Lembrou da época da escola e de como ela parecia uma pata, e como ele era capaz de achá-la bonita ainda assim? E agora, ainda estava parecendo uma pata?
Olhou-se no espelho, foi até o celular e leu mais uma vez a mensagem, riu para si mesma. Odiando-o por isso. Adorando-o igualmente.
As cartas estavam mais uma vez sobre a mesa, mas ela sentia vontade de virar a mesa, queimar as cartas, e tomar o adversário para si. Ela sentia em silêncio. Ela estava sentindo uma vez mais.

* 56ª Edição conto/história - BLQ

Bem, esse texto foi escrito no dia 19/02/2011, e hoje percebi que a frase tema da semana do BLQ se ajustaria a ele de maneira aceitável. Eu peço desculpas apenas pelo tamanho do texto, eu realmente exagero às vezes, sei que muitas pessoas não gostam de ler essas enormidades, mas não posso evitar, não sei administrar certos limites.
Enfim, agradeço pela paciência e pelo carinho que venho recebendo, essas coisas me deixam muito contente, de verdade.
Um beijo.

12 comentários:

Iandê Albuquerque disse...

Maravilhoso, texto bom de ler. blog bom de passear. parabéns. Estou lhe seguindo, e lhe convido a visitar o meu, www.iandeee.blogspot.com ^^

Erika Santos ♥ disse...

querida gostei imensamente de seu blog, estou seguindo..
passa no meu tbm -tenho as fórmulas do coração-

um bjãOOOOO

C. disse...

É uma pena que tantos dos nossos sonhos tenham que ser anulados por causa de alguns sentimentos mesquinhos que vamos acumulando, como o medo.

Respirar fundo, às vezes, faz a alma se espreguiçar, e sair do cantinho escuro que a protege dos medos e sustos.

Gostei também!

Dani Ferreira disse...

Cada pedaço do seu texto nos mostra uma realidade dessa coisa toda do amor. Eu adorei essa personagem, ela é toda observadora, assim como eu haha. Essa recusa em se apaixonar ... uma hora ou outra diminui, é difícil resistir ao amor pra sempre né?
E em relação ao tamanho do texto, não se preocupa, quem realmente sabe admirar um bom texto não vai se importar com isso :)
Bgs Mai ;*

Simone Oliveira' disse...

Adoro encontrar xarás pelo mundo dos blogs afora... Lindo seu blog, flor!
Seguindoooo!!!!!!

Beijos e abraços ... Ótima semana!

Monique Premazzi disse...

Esse amargo da decepção pode levar muito tempo para sumir, mesmo assim não vai sumir completamente, pois ele sempre volta e não avisa quando. Assim como o amor, que quanto mais rezamos para ele ficar fora do nosso caminho, ele insisti em nos fascinar com outros gostos apresentados. Se bem que nem tudo precisa terminar mal, depende de quem é e do que aconteceu.
Acho, na verdade tenho CERTEZA que esse post precisa de uma continuação, porque deixou uma curiosidade enorme sobre eles sairem juntos. Será que pode considerar essa idéia?
Não se desculpe pelo tamanho. Quem gosta do seu blog, como eu, não vai se importar nem um pouco de ler textos grandes, vão é querer mais ainda. Eu quero mais! Ficou incrível e estou torcendo por você sua linda.

Beijinhos,
se cuida <3

Jaynne Santos disse...

Bem, primeiramente deixe-me agradecer pelos selos que você me indicou, como sempre seu carinho me deixa muito feliz. Irei posta-los em breve.
Mai, preciso que saiba que foi amor a primeira vista, lá naquela vez que eu entrei em seu blog, eu ainda nem tinha criado o meu. Li um texto que o título era CAFÉ. E pensei após terminar a agradável leitura: Caramba essa menina tem talento.
Hoje depois de ler seus outros textos a reação ainda é a mesma. E talvez não seja só talento que você tem, seja paixão pelo que faz também, porque só talento não deixariam seus textos tão sinceros e apaixonantes.
Sabe, nunca me importo com o tamanho de seus textos, pois sempre sei que quanto maior, mais poderei me deliciar nas Entrelinhas. Ta aí, você não poderia ter escolhido melhor título para seu blog, combina perfeitamente com a essência de seus textos.
Esse em especial, mexeu bastante comigo, destravou lembranças e ao mesmo tempo desencadeou talvez uma previsão do que possa acontecer comigo agora. Eu realmente me vi em sua personagem e me enchi de emoções que perduram até agora não só na mente, mas também na alma.


Forte abraço Mai;

ANA RITA disse...

gostei muito, mesmo muito

• cynthia bs disse...

Bom, não creio que ressentimento seja algo muito legal, mas vez ou outra até que se faz necessário!
Sei que muitas vezes este tormento passa pela cabeça de muitos. Guardar o que sente, principalmente quando é "dor", só para si mesmo só faz piorar a situação de mal-estar em que vivemos, isto dificulta as coisas. É preciso e necessário a comunicação humana, afinal nós não vivemos sozinhos.
Mais uma vez tuas palavras bailaram sem perder o embalo e cada detalhe foi, por mim, fortemente percebido. A maré do conto me trouxe a mente fatos reais que passei em minha vida, os quais prefiro não comentar. Mas, bem, analisar a dor das pessoas deve ser algo tão puro. Mas ao mesmo tempo constrangedor, porque sabemos que não podemos interferir naquele momento e ficamos de mãos atadas.

Belo conto, Maih! Boa sorte, fofa :)

Ah, e muito obrigada pelos selos e por seu comentário (não esqueça que suas palavras são sempre muitíssimo importantes).

Com amor,
Cynthia **

Bia Oliveira disse...

Me impressionou!
Li textos e textos do pessoal que escreveu pra essa edição do Bloínques, mas o seu foi o primeiro no qual eu vi muita qualidade - criatividade, bom português, coerência.
Adorei!
Vou voltar e ler os próximos :)

Beijos

• cynthia bs disse...

Ahhhh, primeiríssimo lugar na 56º edição conto/história! Parabéns, Mai. Muito bem merecida a colocação! Realmente o texto está ótimo :)

Beijos ;*

Roberta Galdino disse...

meus parabéns pela colocação
blog esplêndido!

http://rgqueen.blogspot.com/