terça-feira, 22 de março de 2011

Dolores

Mulher de riso apertado, olhos molhados, sentimentos ilhados.
Se você quiser, pode observá-la por aí. No meio da multidão ela é aquela que se abaixa e resgata do chão todos os papéis que avista. E esse ato tem apenas uma condição: Os papéis precisam conter palavras, qualquer uma que seja.
A curiosa Dolores contenta-se com tão pouco. E onde já se viu se contentar com resto? - você deve está se perguntando. Mas não é o resto que ela quer, ela só precisa de pedaços de palavras esquecidas, abandonadas, ignoradas, e jogadas fora por repulsa, ódio, medo, ou seja lá o que for, porque as palavras só precisam ter espectros sentimentais, e então os seus olhos as decifram satisfeitos. É assim que pensa.

Dolores gosta de papéis com as pontas queimadas, gosta das cinzas que são levadas pelo vento, ela gosta mesmo das meias palavras que ela sempre decifra, ou pensa decifrar.
Dolores diz gostar até de guardanapos com números de telefones junto com um nome, e ela entristece-se, porque ali está o nome de alguém que fora rejeitado.
Ah, Dolores, será que teu nome já não foi jogado fora junto a um número mixuruca?
Suspira. Abaixa. Outras palavras.
Uma carta de amor, manchada, amassada, e cheia de raiva. Porque o amor quando já suspende as malas avisa: Ei, a minha amiga raiva está vindo aí, não se preocupe, ela anda sempre comigo e será uma companheira fiel. – pensa Dolores embaçando os olhos após a leitura.
Pergunta-me de uma vez, porque Dolores não escreve as suas próprias palavras? Porque não possui destinatário? A verdade é que Dolores perdeu-se em um papel qualquer, e procura por ele todos os dias, foi tudo culpa de sua mania. Foi quando se abaixou para ler o seu primeiro papel. Na época era uma menina curiosa de olhos brilhantes que passeavam ágeis pela caligrafia borrada. E desde então sente que o papel a leu - e não ao contrário -, e que ele roubou para si todas as suas palavras que lhe serviam para encher o seu pote de alma.
Então, faça um favor a Dolores, se você encontrar algum papel por aí que a sua palavra inicial rime com Dor, lembre-se, queime-o e o deixe em um lugar estratégico, Dolores irá deliciar-se reencontrando as suas cinzas.
Ah, mais uma coisa sobre a Dolores: Ela cria uma fênix em seu âmago. E qualquer dia desses eu te mostro.


Escrevi esse texto em um estágio de quase sonho, por estar extremamente cansada e lutando contra o sono que pesa em minhas pálpebras. Quando estou assim costumo dizer que não sou eu quem fala, com isso, nesse exato momento você está lendo as palavras de uma outra pessoa. Minto, são as minhas palavras, porém o lado consciente-meio-bambo é quem vos fala. Então é isso, me confidenciem publicamente o que acham ou têm certeza sobre o quase-meu texto. Beijo na testa.

9 comentários:

Bia Oliveira disse...

Ficou bem interessante.
Diferente também, quando li seu comentário no Insônia achei que ia encontrar só contos de fadas aqui.. hehe

Obrigada pelo carinho no meu cantinho, viu?
Gostei daqui, com certeza eu volto! :)

Beijos

Caroline Araújo disse...

Querida, Mai, se este texto é um vestígio belo do seu consciente-meio-bambo, dê a este pilhas e pilhas de papeis - todos em branco - para que novas linhas tão doces possam ser escritas pelo seu quase-eu, por você sonolenta. Ver a troca de olhares entre escritor e escrita, e o modo como essas a conduzem em ritmo tão único é esplêndido.
Ah, Dolores, uma das personagens mais belas que já me foram apresentadas - senti-me a própria, eu confesso. Mas, não por possuir tal sensibilidade de ler com a alma até mesmo um número telefônico, mas sim por ter permitido que as suas palavras me lessem e não o contrário.
E enquanto essas me lêem e assistem a minha admiração diante de escrita tão bela, eu tento-as convencer de que elas estão vestidas de perfeição e fulguram esta majestosamente.
Grande beijo.

Jaynne Santos disse...

Bem, primeiro quero te confessar um acontecimento: Fui Dolores por um dia, faz uns dois anos, eu estava voltando da escola e tropeçei em um papel, parecia estar em branco, depois de murmurar alguns insultos ao mesmo, o peguei. Fui vencida pela curiosidade. Estava escrito nele essas únicas palavras, quase indecifráveis, letra de garoto, eu acho: Talvez um dia me perdoe.
Bem, imaginei centenas de histórias por uns três dias, depois elas caíram na lembrança. Hoje você as despertou em mim e eu volto a mim perguntar de quem seria aquela letra, a quem ele ou ela se referia, seria início de uma carta ou o fim dela, ou apenas uma frase qualquer jogada pelos cantos? Pois bem, serão apenas insinuações minhas.
Dolores, acho que só o nome da sua personagem já pode nos dizer o motivo pelo qual ela se refúgia em papéis "velhos" e abandonados, não aguentou as suas dores e resolveu encontrar as de outra pessoa por aí ou um motivo qualquer para esquecer da sua. Ou quem sabe ainda, esteja a procura de seu próprio papel, um que se refira a ela.
Bem, não sei se esse conto meigo terá continuação, mas confesso que me deixou curiosa sobre a fênix que a Dolores carrega no âmago.
Mai, eu não me canso de dizer que você já é noiva das palavras. Quando pretende se casar de vez com elas? Quero ser convidada para o casamento. Haha;

Beijos.

Yohana SanFer disse...

Menina, quanta criatividade e sensibilidade traduzida em palavras...lindo texto! de verdade, um dos mais lindos que já li neste mundo de blogs que estou há alguns meses, parabéns pelo talento moça. "Dolores" fascina, desperta imaginação e beleza!
bjs e estou te seguindo!

Giovanna Cóppola disse...

Interessante o texto, Maiara. Às vezes, as pessoas vivem, sutilmente, a vida de outras pessoas. Resta saber se elas descobrirão o brilho de suas próprias vidas em tempo suficiente para vivê-las.

Joyce C. disse...

Com toda certeza, fora o estágio de quase sonho mais criativo que eu já vi. Sério!
Consegui imaginar, inventar cenas. Pintar o desenho de uma Dolores de traços delicados e cabelos presos num coque.

Linda demais a tua escrita. Amei!

Obrigada pelo comentário.

Beijos, Maiara!

C. disse...

Como ousas Dolores passear sem a minha companhia? hehe
Que na volta ela nao esqueça de trazer palavras carregadas de ternura, para que coração como o meu se acalme, e minha voz fale aquilo que ela trouxer.

Prescindível dizer, mais uma vez, da excelência do texto, e que cansada, eu também conseguisse exorcizar dores da Dolores :-)

rafaela ivo, disse...

Se Dolores entrasse aqui em casa, fascinar-se-ia de tantos bilhetes, cartas, manuscritos - aquelas coisas que um lápis ou caneta escreveram e o tempo foi apagando aos poucos. Eu mesma dou uma de Dolores, e seja pegando um livro na estante, seja arrumando algum canto da casa, encontro resquícios do que um dia era um recado de amor, uma lembrança de diário, ou até mesmo uma receita velha. Mas receitas não importam sua velhice, a comida que ensinam a fazer é sempre gostosa, assim como as lembranças. Me sinto ainda mais próxima de alguém aqui em casa quando descubro algum desses papéis rabiscados por aí - as pessoas me parecem mais humanas. Diga a Dolores que queimarei as pontas dos meus cadernos velhos, e lá ela encontrará muitos cálculos matemáticos, fórmulas químicas, letras de músicas, e restos de sentimentos que a raiva ou a angústia deixaram. Muito bom esse seu texto, me fez entrar totalmente na história, imaginar Dolores a catar papéis na rua, levar para uma pequena casa, e esconder-se em um sótão escuro, onde há papéis colados nas paredes, e espalhados pela mesa iluminada por uma luminária. Teu quase-eu sonolento nos escreve coisas muito boas, assim como seu eu acordado. E sempre que venho aqui, penso: como é bom ler os encantos dessa garota. Obrigada pelo carinho lá no blog. É com ter que os textos que lá estão, agradam. Beijos!

Dani Ferreira disse...

As suas idéias sempre me surpreendem Mai. E que personagem é essa? Já agi como a Dolores algumas mínimas vezes rs Sempre me sinto atraído por papéis deixados por aí, papéis antigos... Muitas vezes já tive vontade de resgatar algum quando alguém o jogava no lixo. Curiosa, não? rs
Linda personagem Mai, me encantou de verdade, e me deixou na maior vontade de descobrir papéis por aí que contenham palavras que me façam imaginar uma história. É tão bom riri :B
Bgs :*