quarta-feira, 9 de março de 2011

Menina bordada


De passos leves ela segue pelo parque de todos os dias. No rosto carrega os traços da dor que sente, e como sente. O peito aperta avisando-a que sofrer de amor não é fácil, na verdade isso é bem difícil. Difícil por demais.
Há tempos o sorriso que tinha a abandonou. Alguém o roubou, e roubou também o seu sossego. Agora ela anda por aí envolvida em saudade, e todas as coisas do universo a faz lembrar do rosto que lhe faz falta.
As pessoas lhe dizem que muito nova ela é para andar desse jeito desassossegado; perdida em suspiros pesados. Ela torce o nariz, deixa que essas palavras apenas passem por ela sem causar maior conflito, porque ela sabe que para o amor o tempo é um joguinho engraçado.

Senta-se num banco meio enferrujado e põem-se a observar as pulsações do parque. O vento chega de mansinho, sorrateiro como só ele sabe ser, balança as árvores carinhosamente, e algumas flores são levadas por ele. Elas flutuam com graça, uma delas desvia seu trajeto e repousa no colo da moça de peito inquieto. Seus olhos entristecidos encaram a pequena mancha rosa em sua saia clara. Ah, se ela fosse mais como a flor que se deixa levar pelo vento manso - e por vezes voraz -, talvez agora ela não estivesse com esse desassossego cravado em si. Mas ela nunca foi como a flor, ela é mais como a árvore, que mesmo que o vento a tire para uma dança majestosa, ela permanece com as suas raízes fincadas no solo.

É pensando nisso que a culpa chega para si, porque a presença do alguém lhe perturba por não estar mais ali. Ele gostava mesmo era do mundo, e queria mostrá-lo para ela, e como queria. Mas ela, pobre menina, ainda não estava preparada para esse lugar tão aberto, ela gostava do aconchego, isso sim. Ela é toda borboleta, de vôo raso e asas em cores. Ele é mais como o vento, que corre por aí causando seus reboliços.

Os olhos ainda encaram a florzinha, e um desejo lhe toma - ela quer ser mais flor do que borboleta. Ela deseja mesmo que o vento volte, com sua face encantadora e seu sorriso enorme. E que volte trazendo consigo a sua felicidade, porque já faz um bocado de tempo que ela não a sente.

E para a sua surpresa uma brisa suave toca o seu rosto. Ela ergue o olhar para ver se mais alguém sentiu aquele aconchego, e é lá que ela vê. E aquela visão lhe causa um frio caloroso na espinha. A menina sorri, pois o seu sorriso acaba de vir de longe para lhe fazer uma visita que ela espera ser permanente. Ela se levanta, bordando-se de flor a cada passo ligeiro que dá. E lá onde os braços possuem seus formatos exatos ela se encaixa tão perfeitamente que parece ter nascido apenas para fazer aquilo na vida. Não se importaria de fazer isso todos os dias, afinal.

O menino vento lhe beija a face, os olhos, os lábios rosados, e sussurra com ternura em seu ouvido: Moça, por favor, cuida bem de mim. E a menina que se fez flor anuncia que com ele vai aonde for. Mas ele se entristece, dizendo que o erro o pertence, e que ele não soube o que fazer com tanto amor. Por isso não conseguiu ver que seu mundo na verdade não era lá fora, era ali dentro, ao lado dela, que fazia tudo em volta ter sentido. Ao lado de sua menina borboleta.

E ela, bordada de flor, enlaça-se ao menino vento, que agora tão manso lhe carrega com delicadeza. Vão juntos com os rostos iluminados e a felicidade exposta para quem quiser ver. Porque agora já não importa se ela é árvore, borboleta, ou flor, já não importa se ele é vento voraz ou manso. O que importa é que estão sendo, um para o outro.


Menina Bordada - Marcelo Camelo



Bem, esse texto foi inspirado na música do Camelo, essa que eu postei aí. Espero que ouçam, porque ela é linda e vale muito a pena. E muito obrigada pelos comentários deixados aqui mesmo estando nesse período festivo.
Beijo nas pálpebras.

14 comentários:

• cynthia bs disse...

Que texto delicado, Maiara. Os detalhes, desta vez como nunca, foram manifestados cuidadosamente "entrelinhas" e entre flores. As palavras foram muito suaves, e aliás, valeu a pena a inspiração na música, que tem um embalo muito natural e fofo, a letra é linda.
Parabéns pela escrita. Mais uma vez deixaste-me surpresa com seu encanto "bordado de flor".

Ah, tem um lindo selinho para você em meu blog!

Beijos;*

Com amor,
|Cynthia|

Káah disse...

Muito lindo aqui flor, primeira vez que venho
Gostei de mais *-*
Você escreve tão bem

Thaís disse...

Que texto meigo! Como eu gostaria de ser desassossegada como o vento, acho que é isso que falta nos meus dias, mesmo com toda essas festividades eles estão muito pacatos.

Elania disse...

[AA] Que texto lindo, Maiara , e vc tem um gosto musical culto...
Muito bom mesmo, me pegou com a delicadeza e firmeza das palavras doces... *-*

E amei o bj nas palpebras, hihi
até.

Jaynne Santos disse...

Mai, demorei um pouco a postar meu comentário aqui. É que fiz o dawnload dessa música tão encantadora, gosto mesmo desses ritmos musicais. Lembra um pouco de Zeca Baleiro, Nando Reis.
Bem, mas deixe-me falar desse texto tímido que conquista qualquer olhar intruso que por aqui passa. O meu estar perdidamente apaixonado por essas palavras, por seus personagens. Não é um par perfeito? A flor doce e delicada que encanta e o vento forte e arteiro que seduz.
Realmente, me indentifico cada vez mais com sua escrita. Sinceramente ela me fascina, de certa forma até me completa.

Grande beijo;

Jéssica F. disse...

Cara, que texto mais lindo, cheio de detalhes, cheio de contrariedades, delicado do começo ao fim. Concerteza, o melhor que já li seu, mesmo que eu tenha lido poucos, é verdade, mas me apaixonei particularmente por esse. Lindo mesmo *-* beijos :*

Sabrina Torres disse...

- Oi Maiara. Primeiramente muito prazer. Estava passeando pelos blogs e achei o seu. Li apenas dois textos seu por enquanto, mas me encantei com a sua forma de escrever, é tão sincera, consegue passar tudo o pensa (ou imagina) com clareza que cada linha lida convida outra e outra. Enfim, parabéns pelo seu cantinho no mundo. Estou seguindo para fazer parte dele.

Bjos ;*

Babih Xavier disse...

Texto lindo, delicado, gostoso de ler *-*

Dani Ferreira disse...

Como muita gente já disse, um texto super doce e delicado. Sempre doce né rs. Eu já disse isso, mas falo de novo, a gente vive a cena, os personagens com o seu texto. Isso porque você não deixa escapar nenhum detalhe. Isso é incrível :B
Ah, ouvi o começo da música ontem, vou terminar de ouvir riri.
Bgs Mai :*

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

" o menino vento beija-lhe os lábios"
que imagem linda menina? adorei otexto, mas essa imagem é delicada

Minne disse...

Doçura e delicadeza em um só texto. Sabe que esse me relembrou uns tempos antigos ? Pode ser que isso se deva ao fato de eu o ter lido ao som da música, que me parece bem regional, e até me lembrou um pouco O sítio do pica pau amarelo. Grandes saudades. Você me fez ver as coisas do ponto de vista de uma criança, senti sensações puras que nem posso explicar. Tens o dom da escrita Maiara, e o aproveita muito bem.

Ps: Te indiquei um meme literário, se o quiseres é só pegar lá no blog. Ahh, muito obrigada pelo selo que me deu, salvei-o no computador e ainda não o postei, sou uma péssima repassadora de selos, mas muito obrigada mesmo viu ? Grande abraço []

αmαndα ツ disse...

Como seu blog é fofinho, fiz um meme especial para você!

http://www.primeiro-livro.com/2011/03/seu-blog-e-muito-fofinho-meme.html

Espero que goste!
Beijinhos,

Gabriel G. disse...

Bom, reretribuindo a visita veremos quantos re's teremos nesse ciclo vicioso. Não foi fácil saber por onde começar, confesso que se o "duas caras" de batman estivesse aqui ele seria o primeiro a atirar uma moeda,é...sortudo eu.Dessa vez deu cara. Minha cara, não repare o afeto pois venho agradecer-te pela sua visita que me deixou sem palavras, em segundos de puro vácuo.
Como sempre falo um bom texto escreve as pessoas e, não o contrário. Agora, por favor, pare senão um dia verão-te como carrasca por roubar tantos pedacinhos de cada leitor que passa aqui.

Beijos.
Ps.:Se quiser me adicione para mantermos contato.

C. disse...

Amiga (olha a intimidade, mas já te sinto uma),
Se entendi bem, para eu ter achado esse texto mais poético ainda do que pareceu, esse voo precisa ser mais ritmado (nao lembro se é assim que escreve ritmado, sorry).
Ou seja, como você tao bem descreveu, ela gosta do aconchego, e ele, de voos mais distantes, e em alguma hora o plano de voo mudará, porque quem nasceu para voar, nunca poderá cortar suas asas.

* Com direito à réplica se quiser ;) Fico feliz que ri com minhas insanidades, e eu gosto que me faz refletir com as suas.