quinta-feira, 3 de março de 2011

Palhaço encenado


No espelho rachado um rosto divide-se irregularmente. Carrega rugas como um presente do passado, e em suas fendas epiteliais histórias escondem-se.
A tinta branca é levada ao rosto da mesma maneira que fora levada durante anos sem contagens no calendário. Mas agora o rosto está mudado, porque já não é mais aquele jovem palhaço.
Ao redor dos olhos embolsados ele rabisca com o lápis carvão. E nos lábios empalidecidos e ressecados um sorriso vermelho é desenhado da melhor forma que consegue. Agora ele depende muito mais do tato do que da visão que já anuncia a sua lenta retirada.
Um nariz vermelho é posto acima do seu, a gravata borboleta amarela é ajeitada no pescoço flácido. Calça os sapatos azuis e segue para o picadeiro.

Seus passos são lentos, metódicos, como faz todos os dias de espetáculo. A cortina é aberta, o palhaço se desempenha de maneira sistemática. Gargalhadas enche o lugar, aplausos, gritos eufóricos de crianças. Risos em todos os rostos, menos no rosto daquele que os provoca.

Ao fim do show ele volta para o seu pequeno quarto com a sua máscara borrada por lágrimas que não pediram permissão para chegar. Numa bacia com água limpa ele termina de tirar o resto da cobertura que o esconde. Olha-se mais uma vez no espelho, e chora, pois já não sabe o que espera ver. Não sabe se prefere a encenação do palhaço, ou a dele mesmo.

As mãos vão de encontro a uma velha gaveta. Lá ele guarda a gravata borboleta, o nariz vermelho, e as suas lamentações. De lá ele tira uma velha fotografia, onde um riso seu jovial está exposto ao lado a uma jovem menina, aquela que hoje tem o nome gravado numa lápide fria de um cemitério que não permite as pegadas dos seus grandes sapatos. Não permite a pintura de um sorriso vermelho. Não se pode esconder os olhos atrás de máscaras escuras. Pois lá a realidade o espera enquanto ele carrega flores para a sua antiga menina. Aquela que não chegou a ver as suas desventuras enquanto ele envelhecia.
E no peito carrega o vazio que é preenchido todos os dias com a ausência daquela que um dia despertou o riso do palhaço encenado. Daquela que um dia o fez um alegre palhaço.

4 comentários:

Jaynne Santos disse...

Perdoe-me se houver aqui algum erro ortográfico, acontece que as lágrimas embaçam minha visão e assim fica difícil escrever. Sei que por mais que eu fale aqui, nenhuma palavra vai conseguir definir exatamente o que eu senti ao ler cada sentimento redigido com tanta simplicidade, mas carregado de uma profunda intensidade emocional.
Sei que na maioria das vezes são as palavras que nos escolhem e pulam para fora. Mas dessa vez querida Mai, mesmo pulando, você as manipulou de forma que eu sua cara leitora, não conseguir conter as lagrimas e nem queria. O palhaço triste cativou-me, não que eu contemple sua tristeza, mas porque essa foi dividida comigo, de forma tal que as minhas lágrimas acompanharam tão solenes a do seu personagem tão bem criado.

Beijos Mai;


(Dei uma conferida nas palavras, acho que as escrevi corretamente, caso alguma tenha passado despercebida, perdoe-me!)

C. disse...

Como sempre texto brilhante!
A ilustração também é sugestiva aos elementos do texto, que se confundem com a alegria sempre do palhaço, mas também com a tristeza que os fatos em sua vida trouxeram.
Adoro essa dualidade que a imagem de um palhaço traz, quando somos capazes de usar nossas máscaras e nos apresentar as outras pessoas como pessoas felizes.
Revelou também o poder e a força da velhice, pois nem sempre é possível mentir dor que se sente com sorrisos de falsa alegria.

Long Haired Lady disse...

hoje senti-me como o velho palhaço, senti-me só, infeliz, com uma dor para não dividir com ninguem, apenas para guardar...

Dani Ferreira disse...

Faço das palavras da Long as minhas.
Seu texto me trouxe grandes sensações. Um aperto, uma vontade louca de fugir de tudo, de tirar as máscaras, de tentar ser feliz, fazer as coisas como eu gostaria...
Ai Mai, eu já falei isso, pode até ficar repetitivo, mas seus contos sempre tem uma coisa que nos atrai, as suas idéias sempre são ótimas *-*
Parabéns, pela milésima vez rs.
Bgs e bom final de semana :*