sábado, 12 de março de 2011

Para falar de cores

Pintura de Leonid Afremov

Enquanto o céu partia-se lá fora, e o azul era tomado pelo cinza tempestuoso, dentro daquele pequeno apartamento onde a chuva agredia com fervor os vitrais amarelados, o homem de expressão séria abria a porta de seu mundo. Os olhos silenciosos encaram com idolatria uma parede que abriga uma imensidão pálida.

Ao seu redor há cores espalhadas por todo o lugar, não há sincronismo padrão, o que há é sincronismo com a subjetividade.
Uma das paredes está pintada com um céu imenso, e em um pequeno desfecho um pássaro negro se espalha pelas nuvens, em seu peito enegrecido um risco vermelho escorre como o mais puro sangue. A partir do vermelho vivo, o preto é sobreposto, espalha-se pela outra parede onde pequenos pontos brancos reluzem. E em meio à escuridão uma mancha alaranjada retrata um poente que se encontra com uma outra parede, onde o mar ganha movimento logo abaixo com um verde malva, e o branco cintilando nas ondulações. E por último, a parede pálida, a única sem cores marcantes.
Secretamente ele chama aquela parede de espera. E hoje ele deseja findá-la, e nomeá-la mais uma vez.

Ontem ele obteve a certeza de que já era chegada a hora de colorir àquele espaço.
Ontem a sua porta foi aberta pela silhueta que abrigava longos cabelos ondulados, eles balançavam como um mar revolto a cada passo rápido dado em direção às mãos sujas de tinta dele.
A mulher jogou-se em seus braços, dizendo que a saudade quase havia a matado, e ele a olhou como se ela fosse a sua mais bela pintura. E ela - a metade de sua alma -, anunciou com voz tênue que se juntaria de uma vez à dele, e que seriam apenas um outra vez. Ele afirmou que nunca haviam deixado o inteiro, mas que a espera ainda estava pálida.

Enquanto a sua alma repousava ao lado da dela - entre os mesmos lençóis -, ele via a tinta escorrendo por ela e tingindo toda a cama, todo o chão, todas as paredes.
Em meio à escuridão da noite, as cores dançaram para ele, e o seu sorriso torto apareceu, apenas para ela; apenas para as cores.
Nesse momento lembrou de alguém que o perguntou certa vez se a sua alma tinha cor, e ele disse que a sua alma não tinha cor definida, ela vivia tingindo-se e retingindo-se incansavelmente. E quando o outro franziu o cenho perguntando como ele podia ver tais acontecimentos, ele riu, e disse que a vê mesmo quando ela não está deitada ao seu lado derramando cores em seu lençol.

Quando o dia firmou-se e o céu fora tomado pela tempestade, a mulher já não estava ao seu lado. Em seu lugar um bilhete com letras pintadas de vermelho adormecia.

Me espera, amor, eu sempre volto.

Encarou o papel amassado, com caligrafia tão bem desenhada, e o deixou repousar em sua estante.
Levantou-se sacudindo o lençol que já havia voltado à sua cor sintética. Olhou em volta, e decidiu que aquela sua última parede pálida deveria ser tomada pelas cores de sua alma. Da alma dela.

Assumiu uma expressão séria enquanto abria as portas de seu mundo. As latas de tinta estavam aos seus pés. Ele levantou uma por uma jogando a tinta pelas extremidades da parede, uma confusão harmoniosa de cores fora sendo formada.
Quando apenas o centro ainda estava claro, ele mergulhou as mãos dentro da lata de tinta vermelha. E com delicadeza ele desenhava os traços e curvas de um corpo nu. Os cabelos tinham um movimento incrível, o vermelho ali tinha sido misturado com um rubro mais intenso. A silhueta feminina havia sido pintada em posição fetal, encolhida como das vezes em que ela sente frio e se aconchega ao seu lado.
Uma mancha colorida fora colocada entre o peito aberto da mulher, e dela escorre as cores de sua alma até as extremidades tingidas da parede.
Por fim, o homem observou a sua arte com o rosto iluminado, e no topo da pintura ele desenhou o nome de sua obra. Afeto. Foi o que escreveu.


Escrever esse texto para mim foi mais como pintar um quadro. Espero que vocês sintam todas essas cores que espalhei por essas palavras. E bem, agradeço de verdade a todos os que me presenteiam com palavras sinceras, esse é um dos melhores presentes que se pode ganhar.
Um beijo.
P.s. Como eu não achei outro meio de avisar a uma das minhas leitoras o que vem limitando a minha presença visível em seu espaço, avisarei por aqui, porque isso está me frustrando.
Jéssica, eu realmente venho tentado comentar em seu blog (Believe), é frustrante ler algo que me agrada e não poder expressar alguns dos meus pensamentos sobre o mesmo. Então, peço que entenda que não é desmazelo de minha parte nem nada. Eu tentei inúmeras vezes, e como percebi que outras pessoas estão conseguindo comentar, conclui que é o meu blog que está brincando de me contrariar. Enfim, espero que ele faça logo as pazes comigo e me deixe comentar em seu espaço, ao qual eu tenho um grande apreço.

16 comentários:

Andreia Rainha disse...

Acho que senti as cores das suas palavras. A forma como você escreveu fez um quadro se pintar na minha mente, exatamente como você falou.

Gostei muito daqui, e obrigado pelo comentário e por me seguir.

Suzi Lima disse...

Que lambança eles fizeram...xD
Mas, assim, ela invadiu , e coloriu tudo. Gostei.
[Te sigo. Gostei do seu layout, é leve].

Jaynne Santos disse...

Mai, me senti dentro de um quadro de emoções, pintado de todas as cores. As cores primárias chegaram me pintando de saudade, uma cor meio amarelada. Depois fui pintada de azul, a cor da calma. E só depois de vermelho, cor sedenta de paixão, de voracidade.
Depois fui misturando-me as cores, elas passaram a ser secundárias. E foram me pintando de verde, me moldando de esperança. Cortonaram-me de laranja, cor do apego, da necessidade. Leves pinceladas de roxo foram atribuídas aos meus passos por esse quadro, deixando rastros da procura.
Misturei-me mais ainda O que resultou desse quadro pintado por suas mãos, foram as cores terciárias. Cores de mistura. Quadro de emoções instáveis. Cada uma, pintando-me com um sentimento diferente, mas todos intensos.
Terminei-me com as cores neutras, sim querida Mai, terminei no branco, não que esse quadro tenha um fim morno, ao contrário, é que para a tinta continuar escorrendo sobre a pintura aqui transbordada, é preciso ter um fim, que simbolize um começo.
Tudo começa do neutro e se transforma. Assim pretendo fazer, começando outro quadro, que teve início nesse em que você me pintou juntamente com suas palavras.

Grande beijo;

Káah disse...

Que lindo flor,
Já parei para pensar qual seria a cor da minha alma, mas cada dia parece ser uma, porque me sinto diferente.
Amei o texto, não sei se já disse, mas você tem um grande dom de escrita.

Pedro Menuchelli disse...

Maiara,
Eu tenho certeza que se os nossos textos fossem quadros, você teria uma exposição muito grande e de grande importância as pessoas. Tudo o que você escreve sempre se encaixa em algum ângulo na vida das pessoas e isso é muito válido. As vezes, escrevemos mas não é tão importante. Desde quando venho aqui, percebo que o seu interesse pela vida é a sua maior paixão e é por ela que saem seus melhores quadros, sempre com muita inteligência. Um ótimo domingo!

Beijão,
Pedro.

ThayShafer disse...

Teem um selinho para você no meeu blog !
passa lá para pega-lo. Espero que goste *--* ♥
http://thayshafer.blogspot.com/search/label/selos

ThayShafer

@samylesousa disse...

Tem um selo pra vooc no meu blog *-*

http://agarotaperfeitatemdefeitos.blogspot.com/p/selos.html

Bjo

Caroline Araújo disse...

Ah, Mai; Eu devo confessar que tenho um apreço enorme pela arte em si, e a arte de pintar (e/ou desenhar) surgiu vivaz em mim antes mesmo que eu admitisse todo o meu amor pela escrita.
Dessa vez eu não admirei somente a tremenda beleza das suas palavras, mas também pude repousar os olhos atentos em cada curva de quadro tão belo que você reproduziu. A beleza da sua poesia, pintada em prosa, as misturas de todas essas cores - que gritaram sentimentos tão vivos quanto as mesmas - conduziu-me a entrar na tinta, a bailar junto aos contornos feito de alma e com alma.
É impossível não aplaudir tamanha obra de arte que é esse texto(como tantos outros seus).
Grande beijo querida,
Carol.

Juú disse...

Primeira vez que eu venho aqui e já adorei, você escreve magicamente bem! Parabéns!É realmente impressionante...
tenho certeza que vou voltar várias vezes, adorei seu blog! bjs

• Cynthia Brito • disse...

Mai, tem um selinho para ti em meu blog (:
Beijão :*

César Dias. disse...

Ah Maiara, simplesmente lindo. adorei. Parabéns. seu Blog é maravilhoso, se quiser me fazer uma visita pode ficar a vontade:
http://freesante.blogspot.com/
Beijo.

Dani Ferreira disse...

Mai que texto lindo, que suavidade, que criatividade. Perfeito :B Adorei, me fez sorrir, ficar feliz pelo personagem ter descoberto as cores de sua alma, ter voltado a ver cores na vida. Muito muito lindo mesmo *-*
Estou até agora admirando esse quadro que você me fez imaginar e criar (:
Bgs :*

rafaela ivo, disse...

Deu sim pra sentir as cores vibrantes, em cada palavra sutil, ora mais ousada, ora mais calma. Conseguiu algo fantástico, desenhou com letras, teu quadro virou livro, virou texto. Li no celular, portanto não tinha a foto... E acredite, a imagem que tuas palavras propiciaram saiu bem mais bonita e rica do que essa imagem. Adorei, simplesmente. Beijão!

Monique Premazzi disse...

Sinceramente eu estou de boca aberta com esse texto, eu me arrepiei quando acabei de ler. Pra mim, é meu texto favorito de todos que eu já li aqui, parabéns de verdade Mai.
Todas essas cores, esses sentimentos colorindo as páginas em branco da nossa vida. Tão suave, tão lindo.

Amei. Só isso que tenho a dizer.
Beijinhos, se cuida <3

C. disse...

A arte compensa, e assim como uma tela de Afremov (liiiinda), me sinto compensada de vir aqui e ler as cores suaves mas profundas da sua alma. Porque o que pintamos por aqui (nosso blog) é talvez o nao vivido, o nao falado, mas principalmente o que vem de dentro, às vezes carente de afeto.

Isabella disse...

Olá Maiara! Eu adoro as telas do Afremov! Tem vida intensa e palpável, quase saindo da tela! E adorei o seu texto tbm! Parabéns!