quinta-feira, 24 de março de 2011

Perfume Campestre - Parte II de IV

Leia a parte I

Contudo, para a minha profunda decepção, não vi aquela de rosto frágil e voz firme. Até encostei-me em um poste qualquer, só para não parecer que estava esperando alguém em especial, o que pareceu totalmente o oposto. De qualquer forma, naquele instante a minha vontade era burlar o acaso, só para dizer a ela que realmente havia sido destino nós dois de novo, ali, no mesmo lugar.

Depois de uma longa espera voltei chutando lata, e até amaldiçoei um gato sarnento que despejava o lixo na calçada. E nesse momento – em que eu ofendia o pobre gato -, ouvi mais do que a minha própria voz naquela rua suja; ouvi lamúrias abafadas.
Segui o rastro do choro, e a cada soluço mais alto eu aguçava ainda mais a minha audição e visão. Os meus olhos que imitavam radares enfim a encontrou, numa escadaria de um velho e falido bar, a mulher que tinha o cabelo castanho com cheiro de campo, cobria agora toda a sua face molhada.

Me aproximei com cautela - não queria assustá-la. E quando apenas dois passos nos dividiam, ela ergueu os olhos que estavam ainda mais vermelhos. Fungou algumas vezes passando a manga do suéter no rosto.
- Algum problema? – ela perguntou engolindo o choro.
- Nenhum. – sentei-me ao seu lado. E ela se afastou.
- O que quer aqui então? Vai me assaltar? – sua voz parecia conformada. Como se isso nem diferença fizesse. A olhei assustado, e virei os olhos para um paralelepípedo protuberante na calçada.
- Não quero nada, ouvi o seu choro e vim aqui, só isso. – olhei para o nariz vermelho dela. Combinava com as maçãs de seu rosto.
- Que te importa? Você me conhece, por acaso?
- Sim, por acaso.
- Em?
- Ontem, derrubei a sua mala. – fitei as mãos me sentindo envergonhado.
- Ah, o idiota da mala. – bufou.
- É. O idiota. Da mala. – suspendi uma sobrancelha enquanto encarava-a. – Bem já vou indo, vejo que o seu choro já foi contido pela grosseria. – disse assim mesmo, todo pompa. Acho que a minha solidão havia me ensinado alguma coisa afinal, mesmo que se trate de uma bobagem desse calão.
- Espera. Desculpa. Dias ruins. – segurou-me pela manga do meu moletom. E eu fitei os olhos claros que ela tinha. Bem, eles estavam muito maltratados, devo dizer. Aquelas olheiras denunciavam o sono que não havia se deitado ao lado dela durante várias noites passadas, deduzi.
Ela olhou-me como se pedisse alguma coisa que eu não podia dá-la, mas que se eu fosse embora dali, ela ficaria ainda mais triste. Então me sentei outra vez num degrau sujo.

Continua...


Olá pessoas, está aí então a segunda parte do conto, confesso que hoje iria postar um poema, mas fiquei com saudade do conto. Enfim, o poema será na próxima postagem. E agradeço por todos os comentários atenciosos deixados aqui, continuem opinando, acrescentando, criticando, elogiando. O importante é que sejam palavras, e que sejam substancias, no mais, beijos e goiabadas.

10 comentários:

Lucy, disse...

Muito bonito mesmo.
Digno de algo muito maior.

Aguardo pela continuaçao!

Dani Ferreira disse...

Fiquei pensando o tempo todo qual seria o motivo por ela estar chorando D: Acredito que vamos descobrir né haha *-* Ainda bem que ela deixou de lado a grosseria e se desculpou, não é? Tá ficando ótimo Mai :DD
Bgs bgs :*

vell disse...

Maiara SEMPRE supreendendo hein? O tempo faz bem as pessoas Mai, e fez muito bem a você, a sua criatividade, a quem você é hoje.

Sabe que te adoro né pequena baxarêa? rs, beeeijos doces!

Jaynne Santos disse...

Estou muito curiosa pelo real motivo dos choros dela Mai. Acredito que isso nos será revelado na próxima parte. Este conto não está somente doce de se ler como também recheado de alguns mistérios que com certeza irão nos surpreender. É sempre bom passar por aqui, embora dessa vez eu não tenha deixado um comentário da forma que queria, por meu horário de almoço ser curto, é só para te dizer que eu li, gostei muito e que espero a próxima parte.

Grande beijo;

Joyce C. disse...

E como seria bom se tais palavras tão doces fosse um livro. Que eu leria com muito gosto, com aquela pressa que o leitor tem no começo do livro, e quando já estivesse chegando ao meio. Leria com toda calma, pois é assim quando se tem algo tão bom em mãos.

Amei!

Beijos, Maiara!

Ana disse...

Adorei o blog, super caprichado, com textos bons e lindo!

Ana disse...

Adorei o blog, super caprichado, com textos bons e lindo!

C. disse...

Quanta coincidência encontrá-la novamente. Pelo jeito as coincidências andam lado a lado. Será terá alguma outra até as cenas do último capítulo?? Tô curiooooosa :-)

Rodolpho Padovani disse...

Demorei, mas apareci, haha.
Adorei essa segunda parte e modo como você vem conduzindo a história, tô indo ver a continuação ^^

• Cynthia Brito • disse...

Você sempre com esse aperfeiçoamento magnífico na escrita, não é, Maiara? Nossa! Como eu amo vir aqui, já estava louca de saudades! Mas, enfim, como o Rodolpho disse "demorei, mas apareci"! E vou correndo ler a terceira parte :D