terça-feira, 29 de março de 2011

Perfume Campestre - Parte III de IV

Leia a parte I e II


Ficamos ali. Eu, ela, e o silêncio. Vez ou outra eu encarava o rosto molhado de bochechas coradas que mirava o que parecia não ver.
- Ontem eu estava indo devolver a mala do meu ex-namorado. Aquelas eram todas as tralhas que estavam lá em casa. Ontem o ponto final não se multiplicou em reticências. – sua voz soou rouca, e dividiu o silêncio como se ele fosse uma fatia de queijo.
- Lamento. – foi a única coisa que consegui dizer.
- Tudo isso passa, tento me fazer acreditar nessa verdade todos os dias. Mas eu sei que no fundo, mesmo que a cicatriz esteja aqui. – encostou uma das mãos ao lado esquerdo do peito. – Ela existe e permanece sempre visível aos olhos de minha memória. – olhou-me enquanto uma lágrima solitária descia por sua bochecha vermelha.
Aquilo me comoveu, eu queria abraçá-la e aninhá-la em meu peito, mas não o fiz, tive medo dela sair correndo dali, e me deixar sozinho com a minha solidão.

Mordi o lábio pensando nas melhores palavras que eu poderia dizer.
- O tempo vai ajudar você, se você desejar ser ajudada. E as lembranças se tornam menos dolorosas, e certas vezes até indolores. Isso depende dos acontecimentos que se fazem presentes em suas mudanças diárias. – disse em tom calmo, apesar de não ter certeza se isso ajudaria.
- Obrigada. – sua voz soou diminuta. E naquele momento o cheiro campestre me envolveu por inteiro, porque ali, naqueles degraus imundos, a mulher de cabelos castanhos se aproximou, e em meu ombro descansou a sua cabeça. Eu absorvi aquele cheiro e aquele momento para dentro da minha memória, e isso, mesmo que doesse, eu desejava que jamais fosse esquecido, mesmo que o tempo corresse por eternidades.

- Desculpa. Onde eu estava com a cabeça? – levantou-se de súbito sustentando uma expressão assustada. “Estava com ela em meu ombro, e deveria tê-la deixado aqui.” – pensei.
- Ah, não é nada. Quer dizer... – foi o que eu disse levantando-me e batendo a mão no fundo da calça.
Fiquei estranhamente incomodado com essa distância de dois passos entre eu e ela, outra vez.
E para ser sincero eu estava gostando muito de ter aquela cabeça com cheiro bom em meu ombro. E eu estava prestes a oferecê-lo a ela para sempre se ela quisesse. Talvez ela devesse arrumar as malas e vir morar aqui, agora mesmo.

- Eu preciso ir. Obrigada por ter me ouvido. – cruzou os braços e saiu em passos ligeiros. Como ontem o vento brincou em seus cabelos e em seguida tocou o meu rosto, ele só podia estar mesmo brincando comigo. Mas dessa vez eu lembrei que tinha pernas, e que elas serviam para correr também. Aproximei-me da silhueta apressada dela.

Continua...

Olá pessoas, está aí mais uma parte do conto. Contem-me o que acharam. Ah, posso estar demorando em responder todos os comentários, mas a minha semana anda meio corrida mesmo, porém os responderei com grande satisfação, conto com a paciência de vocês. Outra coisa que acho que eu deveria ressaltar: Os meus leitores mais assíduos devem ter notado que os assuntos dos meus textos oscilam consideravelmente, e isso não é influência do meu humor nem nada do gênero, eu apenas gosto mesmo de abordar um leque de sensações em meus textos. Espero que não estranhem e que se acostumem, porque gosto de usar açúcar como tempero, mas também gosto de usar o fel, na realidade o padrão me incomoda, apesar de vivê-lo diariamente. Enfim, é isso. Beijos e goiabadas.

6 comentários:

Rodolpho Padovani disse...

E essa terceira parte acaba assim com um gosto de quero mais mesmo? Hehe.
Agora ficarei imaginando milhares de coisas e me peguei pensando em vários encontros pelo acaso que já tive, que duraram um dia ou dois e simplesmente ficaram lá no passado, guardados ou esquecidos na memória, é interessante esse tipo de coisa.
Ah, e varie mesmo de temas, abuse de tudo que você for capaz, adoro isso.

Beijos e queijos para acompanhar as goiabadas, haha.

Bard disse...

Novamente me encontro vagando por aqui...
Suas palavras são de rara beleza e perfeição, quer seja um conto, um poema, ou até mesmo em um singelo comentário, que escrito por ti, torna-se um um texto coroado de imensa riqueza...

Seja sempre bem vinda em meu blog, pois estarei te visitando diariamente, certo de que encontrarei em suas palavras, diamantes cuidadosamente lapidados.

Jaynne Santos disse...

Mai, correndo contra o tempo, passei para dizer que ainda continuo acompanhando com prazer esse seu conto. Me cativou, conquistou e encantou. Um lado de moça doce misturado ao amargo da decepção, da dor.
Enquanto as suas mudanças, um poeta/escritor vive em constantes mundos adversos e busca sempre por algo que o inspire, nem sempre esse 'algo' virá da mesma forma ou da mesma coisa/pessoa e então nos metamorfoseamos e misturamos as palavras e elas seguem um rumo diferente.

Grande beijo;

Monique Premazzi disse...

Tudo bem, tudo bem, ela não precisa se lamentar agora com esse moço educado e super fofo que ela conheceu e chama delicadamente por "idiota da mala". KKKKKK Estou louca para saber o que vai acontecer mais para frente *-* Awn, adoro esse gostinho de quero mais que você dá no final dos capitulos!

Beijinhos, se cuida s2

C. disse...

Se for como algumas histórias da vida real, esses encontros renderão muitos capítulos ainda, vai preparando os dedinhos hehe
Será que eles vao morar juntos? Hummm Fiquei curiosa!!

Você oscila nos assuntos dos textos? Nossa, quem dirá eu! Além de tudo mudo minha narrativa completamente. A gente é assim, se reinventa a cada dia, e eu entendo quando fala em influência de humor, apesar de no meu caso eu já nao estar tao certa disso.

Smack denovo!

• Cynthia Brito • disse...

O conto não é tão extenso, mas também nem parece... É tão bom, que fico entretida até perder a noção do tempo e querer mais um pouquinho das tuas palavras. Está ótimo, Maih. Vou partindo para a continuação que, se não estou enganada, é a última mesmo? :s