quarta-feira, 16 de março de 2011

Vertendo princípios


As velas deterioravam-se sob os castiçais. O homem mantinha os olhos cegos nos ponteiros barulhentos do antigo relógio da sala. Mais uma vez ele estava andando de um lado a outro, os seus sapatos faziam um pequeno barulho abafado no piso de madeira. Encarou o relógio de bolso, olhou para as taças na mesa, despejou vinho tinto em uma delas e entornou-a. Mais uma vez olhou para o relógio, passou as mãos no cabelo negro. – A maldita não vem. – pensou. Toda aquela tensão estava o matando.
Caminhou até a escrivaninha, e de dentro da gaveta tirou um embrulho já aberto. Suspirou ao olhar os objetos que ali estavam. No verso do embrulho ele leu em sua própria caligrafia: Provas.

Ele ainda não sabia o que fazer com aqueles objetos, bem, ele sabia sim, mas se perguntava se realmente queria fazer isso.
Olhou um par de luvas de couro, que cobriam tão bem aquelas mãos que ele sentiu em seu corpo na noite passada.
Suspira ao ver o guardanapo com um batom vermelho na borda, no copo de vidro o desenho dos lábios dela ficou em tamanho perfeito coberto por aquele rubro que havia tingido também os seus lábios. Um canivete suíço reluz à luz fosca das velas que agora já estão menores.

A sua cabeça roda, e ele acha que seria uma atrocidade abrir mão da sua carreira de detetive para entregar-se aos braços de uma criminosa. Seria uma atrocidade abrir mão de seus princípios. Mas alguém já havia dito a ele que o amor não precisa ser racional, e que na realidade, não há racionalidade alguma em amar.
- Loucura. Aquela vagabunda vai ser presa, nem que seja a última coisa que eu faça. – disse para si mesmo, tentando convencer-se de que aquelas palavras eram verdades. A campainha soou, ele escondeu rapidamente o pacote, e foi atender a porta.

- Olá, senhor detetive. – disse ela em um tom provocativo. Ele a observava com deveras admiração. Seus olhos caminharam pelo azul dos dela descendo até os lábios que carregavam um vermelho morto. O cabelo escuro caía pelos ombros como ondas calmas. Os olhos do homem pararam por um tempo no decote em V do vestido que ela usava com astúcia. As pernas estavam à mostra, e a resistência dele teria de passar bem longe dali, foi o que ela pensou enquanto riscava um riso nos lábios traiçoeiros.
- Ah, olá. Bem, entre. – ele disse folgando a gravata clara. E ela entrou, ainda sustentando um riso torto.
- Bem, acho que você está com alguns dos meus pertences. – se aproximou sussurrando as palavras no ouvido dele. E ele suava, folgou mais uma vez a gravata que parecia querer enforcá-lo.
- Eu vim tomar o que é meu por direito, detetive. – beijou o rosto dele. Ele sentia o suor escorrer por sua testa.
- Você está presa. – disse retomando os sentidos e a imobilizando pelos pulsos. Ela estava de costas, mas ele percebeu que ela sorria.
- Estou mesmo? – disse em tom divertido. Ela não tentou desvincular-se, sabia que quem estava preso mesmo era ele. E sem escapatória.
- Acho que quem está preso é você. – de súbito ela soltou-se dele, e o derrubou no chão. Seus olhos miravam o fundo dos dele, suas pernas prendiam os braços dele na madeira escura. Ele a encarou como se quisesse matá-la. Como uma coisa dessas foi acontecer com ele? Há tantas mulheres no mundo, talvez nenhuma como aquela, era verdade. Mas ainda assim, há tantas.
Ele a tirou de cima de si, afinal, ela era experiente no que se prestava a fazer, mas ele também. Colocou as costas dela no chão, e fez com que os seus lábios mais uma vez se misturasse com os dela, deixou o vermelho escuro contagiá-lo.
- Você é uma cretina. – disse entorpecido pelo beijo, e pelo toque que lhe arrancava os sentidos.
- E que você ama. Ah detetive, você está perdido. – beijou-o mais uma vez. - Onde então as minhas coisas? – disse em seguida.
- Guardadas.
- Você não vai me prender? – sorriu maliciosamente.
- Maldita. Você acabou com a minha vida. – fitava o rosto bem desenhado dela.
- E estou te oferecendo uma nova. Os vilões de hoje são os heróis de amanhã. – disse enquanto desfaziam-se das roupas.
A naquela noite juntos, eles não eram assassina e detetive, eles eram amantes, e nada mais.

58ª Edição conto/história – BLQ

7 comentários:

iagomarcell disse...

Divina sua forma de escrever'
Esse texto me prendeu de uma forma que me fez fantasiar o que aconteceria depois que a noite acabasse e ela tivesse com as provas em mãos.
Me fez também nas besteiras que nos fazem desistir de um amor; já que existem pessoas que tem motivos mais escabrosos pra deixar de amar e mesmo assim lutam mesmo que seja quase impossível.

Percebi, não só nesse texto, por que seu blog faz tanto sucesso ;)
Deveras, adorei ! Pode ficar convicta de que vou estar sempre observando suas atualizações pra ler seus textos. Virei seu fã ;)

abraços,
Iago Marcell

Monique Premazzi disse...

Perfeito! Bela participação no Bloinques e espero que você seja uma das vencedoras. Porque essa história ficou demais, adoro coisas assim, cheia de raiva e sensualidade. Fica tão mais interessante de ler. Amei.

Amiga, tem um meme pra você aqui: http://secretsofalittlegirl.blogspot.com/2011/03/meme.html :D Espero que goste. Beijinhos,
Se cuida <3

Dani Ferreira disse...

Haha, tamanha sedução assim quem resiste, não é?
Assim como a Monique disse eu gosto muito de contos assim com raiva e sensualidade. São ótimos para ler :B
E escritos por você, melhor ainda né *-* Admiro quem consegue escrever uma história assim ... tão bem escrita e que nos prende.
Bgs :*

Simone Oliveira' disse...

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Estou esperando a sua visita, ok??
Beijos e ótimo finzinho de semana!

C. disse...

Tu tem veia de Sherlock Holmes, só pode, me senti lendo algo dele ;)

Senti o ar carregado, poluído por partículas de uma relação que incomoda, sei lá, e nao tanto prazerosa.

Cena que a gente sabe ser comum onde a vida mostra suas inúmeras facetas muitas vezes assim, no reflexo de relacionamentos que se sustentam justamente na base do descaramento.

Tenho até vergonha que você leia minhas lambanças, tamanha escritora é. Me conta os canais da sua ionspiração :))))

Beijinhosss

Jéssica F. disse...

Adorei a abordagem do tema e, como sempre, combinada com uma escrita espetacular, o conto ficou perfeito! Sem dúvidas, eu lhe daria o primeiro lugar! Mas como eu não sou do bloínquês, deixo apenas meu sincero "boa sorte" :)

Jaynne Santos disse...

Mai, ultimamente está muito corrido para mim passar sempre por aqui. Confesso que li esse seu texto sedutor assim que você o postou, mas infelizmente não tive tempo de comentá-lo. Ando muito cansada esses dias, agora mesmo acabei de chegar de Feira de Santana depois de um dia inteiro de compras com o patrão para a loja. Mas, não podia me permitir de não deixar aqui meu singelo comentário.
O que posso dizer desse texto? Acho que ele mesmo já fala por si. Qualquer palavra minha não aumentaria em mais nada o brilho dele, e nem diminuiria também. O texto está bem sincronizado, gostoso de se ler, que demonstra sedução e que nos seduz também, cheio de criatividade como sempre.

Grande beijo;
[Desculpa a ausência]!