domingo, 3 de abril de 2011

Acervo de um velho poeta sem idade

A escuridão vestiu seus olhos opacos, a mente falha capturou o descanso como último momento em vida. As suas rugas recusavam-se a temer o depois, e a sua memória insistia em lembrá-lo do desconhecido.

Os sentidos foram tomados, as mãos não tremiam, os pés não rastejavam, nem o vento sentiu na careca falha. Perguntava-se se algo não havia acontecido de errado, pois o raciocínio permanecia aceso como uma vela desafiando a escuridão. “Então morrer é assim?” – questionou à sua consciência impoluta. “Onde está o meu tato? E o papel? Por favor, dei-me um papel, preciso relatar a Senhora Gelada.” – sua voz ecoou pelas cavidades do seu imo. Sentiu as palavras grudarem-se em sua pele, e o puxarem para fora de seu escuro lago corporal.

Os olhos foram abertos e direcionados para o corpo inerte no chão. Era ele, afinal.
Encarou o cerne intangível que abrigava a sua sanidade, não viu nada, mas sentia-se inteiro. Moveu-se encarando os pés que não enxergava, mas que estava lá como um campo de energia – ele o sentia.
Com a coluna ereta caminhou até o seu corpo, tentou tocar a sua face enrugada, mas algo que ele desconhecia o repeliu, como os pólos idênticos de um ímã. “Porque esse sou eu, e esse também sou eu.” – assentiu, mas logo franziu o cenho. “Mas por que quando eu estava dentro de mim isso não acontecia? Ou será que acontecia e eu não percebia pelos espasmos terem se tornados naturais?” “Tudo bem que a minha sanidade nunca foi lá grande coisa, mas isso já e demais até para um velho experiente.” – conflitava-se tendo a mente inquieta.

Em meio aos seus devaneios os olhos se entristeceram ao encontrar a sua última carta de adeus, tentou segurar a caneta, acrescentar algo sobre a morte, dizer que estava sentindo-se tão bem quanto um menino de dezoito anos quando ganha o seu primeiro carro. Não, ele queria dizer que estava amando pela primeira vez. Ou melhor, estava finalizando o seu livro. Mas a caneta o repeliu como havia acontecido com o seu corpo.

Fechou as pálpebras, lamentando-se por agora estar tão bem para escrever e limitado da mesma forma que antes estivera. Abaixou-se mais uma vez próximo ao seu corpo deplorável, e ao seu redor mentalmente escreveu palavras. Queria um velório digno de um poeta, queria as palavras como túmulo e alento.

Sinto no imo o verso incontido,
Grita o grito do amor sustenido
Maldade atroz da dor feroz
Palavras, queridas, não se esqueçam de nós.

Suspirou em melancolia, inspirando a saudade da caligrafia gravada na palidez do papel. Fechou as pálpebras que leves estavam, e ao redor do seu corpo sem vida, ele viu suas palavras cintilarem alegremente. Um sorriso antigo brotou em sua alma sem idade, e ele foi levado mais uma vez por aquelas que sempre o amaram, e que ele, sem pestanejar doava todo o amor que cabia em sua alma à elas; às suas palavras.
“Então morrer é assim?” – pensou mais uma vez enquanto enlaçava-se com as suas palavras. “Palavras de ontem, de hoje, de amanhã. E que prevaleçam nesse abraço até a eternidade resolver apagar as suas reticências deixando um ponto ínfimo ocupar o final de seus traços.” – Ele assente, mas planeja desafiar o tempo. Ora, ele é ou não é um poeta? Então ele fará do final uma continuação para qualquer lugar sem restrição, a única condição imposta é que a sua mala esteja preenchida por palavras, porque a sua alma já se banhou com elas, e prometeu jamais abandoná-las. Jamais haverá um outro adeus, porque agora ele só sabe dizer olá às suas amigas; companheiras; e acima de tudo, amantes.


Bem, achei que o velho poeta merecia essa continuação, por isso, depois de reler a primeira parte dessa história resolvi escrever mais essa. Enfim, contem-me o que acharam a respeito desse acervo. Beijo grande.

7 comentários:

C. disse...

Surpreendente! Eu achava que ele tinha morrido na primeira parte já e você o ressuscitou.
Porque é bem isso o que a palavra significa a um poeta, a vida na morte, a alegria na dor... e o que seria desses, sem essa insaciável fonte de quereres chamada inspiração do poeta.

Gabriele Santos disse...

amei ter continuação.
eu também pensei que ele tinha morrido e vem você e mais uma vez nos surpreende.
É realmente eterno o amor do poeta por suas palavras.
Parabéns flor.

Elania disse...

Eu havia lido a primeira "parte".E tinha gostado muito.

Essa continuação me surpreendeu bastante. Ele morreu, mas estava vivo e ainda tinha sua alma de poeta. E as suas amantes foram com ele. muito lindo

Ariane disse...

Adoro ressucitação , sé que é isso né ?
e amei a frase : E que prevaleçam nesse abraço até a eternidade resolver apagar as suas reticências deixando um ponto ínfimo ocupar o final de seus traços
beijo beijo !

Sabrina Torres disse...

“Palavras de ontem, de hoje, de amanhã. E que prevaleçam nesse abraço até a eternidade resolver apagar as suas reticências deixando um ponto ínfimo ocupar o final de seus traços.”
-Primeiramente adorei esta frase.

- Bom eu não havia lido a 'primeira parte' entao resolvi procurar e ler. Confesso que me surpreendi, pois achei que havia morrido e essa 'ressucitação' foi inesperada *-*

Bjo bjo

Indioh disse...

Gostei muito do texto, reflexivo e bem descritivo. Passei a seguir seu blog, agora irei ler outros posts.

Monique Premazzi disse...

Eu já tinha amado a primeira parte dessa história, essa então eu me arrepiei totalmente com as palavras sempre tão boas de ler. Suas histórias dançam na nossa mente, passa tão rápido e só queremos mais e mais.
PERFEITO!

Beijinhos, se cuida s2