sexta-feira, 1 de abril de 2011

(A)fins


Aquela deveria ser uma manhã como outra qualquer, onde eu acordo cedo e bato a mão no despertador que insiste em findar o meu sono. Levanto-me assustada por saber que chegarei mais um dia atrasada ao trabalho, e reclamo por ter quebrado mais um despertador. Olho com olhos sonolentos para o lado esquerdo da cama bagunçada e vejo um rosto sereno dormindo em profunda tranqüilidade. Aquele começo de dia deveria ser exatamente assim, mas o que diz respeito a essa última parte, ela mostrou-se para mim de uma maneira diferente.
O que eu vi naquela manhã que decidiu rebelar-se contra a minha rotina, foi a cama vazia me encarando enquanto silenciava julgamentos sobre o lençol que já estava frio daquele lado esquerdo da cama.

Levantei-me tombando em alguns livros que estavam no chão e manuseei cegamente a minha penteadeira, era lá que os costumeiros bilhetes deixados por ele dormiam. Porém nunca haviam deixados para justificativas de ausência, eles apenas eram sentimentais, e isso me bastava.
As minhas mãos descompassadas não encontraram o bilhete, resolvi que enxergar era necessário, enxergar o que aquilo significava.
Abri as janelas deixando a luz invadir o aposento. E com a claridade presente eu vasculhei o quarto com os meus olhos, procurando por qualquer resquício que servisse de pista e explicação para aquela ausência incômoda.

Embaixo do travesseiro a ponta de um papel deixava-se à mostra. O resgatei levando-o para perto dos meus olhos.

Bom dia Janie. Eu espero que tenha tido uma boa noite de sono, e que a minha insônia não a tenha incomodado. Ah, você não sabia que ando tendo insônia todas as noites? Bem, não a culpo, eu realmente queria poupá-la desses meros detalhes que nem chegam a ser um problema perto do que você chama de problema. Bem, serei o mais breve possível. Você sabe que não gosto de despedidas, por isso resolvi deixar esse bilhete, então pode começar a me chamar de egoísta, de cretino, ou de um verme asqueroso, não me importo. Na verdade o que importa é: Estou indo embora; da sua casa e da sua vida. Pois é J; eu cansei. De você, de nós, de tudo. No mais, fique bem.

P.

Durante a leitura eu sentia o rosto queimar, a garganta apertar, as lágrimas mancharem a caligrafia dele. Apertei o papel com força e caí estagnada na cama, onde derramei litros de lamentações que eram encobertas por perguntas como: O que eu fiz de errado? Por que ele se foi? Aqui não estava bom? O que aconteceu? Porque isso está acontecendo comigo?
Ainda em prantos eu tirei de uma das minhas gavetas todos os bilhetes que ele havia me deixado durante os cinco anos que estivemos juntos. Cinco anos deixados em uma bela caligrafia. Confesso que naquele momento pensei em atear fogo em tudo, mas o meu bom senso e equilíbrio foram mais rápidos do que a minha insanidade. Chorei agarrada com os restos dele, molhando aqueles papéis com lágrimas acompanhadas de gemidos animalescos.
Depois de alguns minutos de puro descontrole emocional, levantei-me e encarei o relógio. Eu realmente estou atrasada para o trabalho. – foi o que pensei enquanto fungava.

Naquele dia eu fui trabalhar depois de fazer e refazer por muitas vezes a maquiagem que se diluía com as lágrimas que insistiam em me contrariar. Bem, eu não podia deixar a minha vida pessoal interferir em minha vida profissional, e hoje percebo que isso talvez tenha sido o maior problema de todos. E às vezes até a solução, depende do ângulo pelo qual você observa.

Depois de mais um dia rotineiro no trabalho, eu me vi andando pelas ruas sem um propósito exato, pensando com quem eu iria discutir naquela noite, em quem iria ocupar o lado esquerdo da minha cama, e quem iria concertar o meu lado esquerdo. E ainda para uma maior desventura, quando cheguei em casa, percebi que os papéis não estavam mais lá.
O cretino havia voltado só para não me deixar ficar com os seus restos.
Custava a ele deixar aquelas malditas palavras para me servirem de consolo e desgosto? Custava? Presumi que custava sim, e muito, porque ele não deixou nada em minha casa. Nada além das memórias sujas que insistiam em me importunar. E digo a você, me importunaram por noites e noites de insônia, aliás, mais isso ele deixou que ficasse comigo: a sua infeliz insônia.

Hoje ainda encaro o lado esquerdo da cama vazio, ainda tenho o meu lado esquerdo afetado, mas não como antes, porque o tempo me ajudou com isso, e não sei mais por onde anda aquele egoísta. Quer dizer, ele era mesmo egoísta? Ou era eu o tempo todo? Ou éramos nós? Sabe, como eu estou contando a minha versão, obviamente não deixarei que a culpa caia inteiramente sobre mim.
No entanto, eu estou bem, cabivelmente bem. Fui promovida e andei viajando por alguns lugares, conhecendo novas pessoas, novas culturas, arejando a mente, voando por aí. E essa foi a minha recompensa paga pela solidão que só se faz incômoda quando as luzes estão apagadas, e eu encaro pela milésima vez depois de ter rolado horas e horas, o lado esquerdo vazio.

* 60ª Edição conto/história - Bloínquês

Hello people. Então, hoje pensei em postar alguma coisa sobre a mentira, mas então lembrei que havia escrito esse texto para o Bloínquês. Enfim, gostaria de agradecer pelos comentários, e dizer que eu vou sim responder a todos, mas estou fazendo isso lentamente, é que essas semanas estão me atribulando por conta das provas na faculdade que se iniciam na próxima semana, e isso não é uma mentira. (hihi).
Ah, isso já se tornou tão comum que quase esqueço de comentar, sobre o tamanho do texto, espero que não o achem maçante por estar enorme. É isso. Beijo grande.

12 comentários:

rafaela ivo, disse...

Eu não queria, mas não queria mesmo, viver isso que ela viveu :/

vell disse...

Maçante? Foda seria a palavra certa. Beijos SUA LINDA ;*

. pamela moreno santiago disse...

Prometo que volto para ler. Só passei rapidinho para dizer que meu novo selo oficial foi dedicado à você. Só passar em "Selos e Projetos" e pegá-lo. Obrigada ^^
Beijos, Pamela.

J. disse...

Nada de maçante é simplesmente...
lindo..triste..feliz

Dani Ferreira disse...

Fiquei tipo "é ..."
Tentando procurar um motivo certo que tivesse feito com que ele partisse. No começo parecia tudo tão bem. Um mistério. Tudo bem que ele escreveu que cansou, mas mesmo assim... Exigo melhores explicações HUAHAUA
E o mais complicado é que mesmo conhecendo novas pessoas, ela ainda continua ligada nele. O amor é fogo rs.

Ps: Vou ler a terceira parte do conto que perdi :B

Bgs Mai:*

C. disse...

Eu diria que passei por um momento tao igual que fiquei lendo e pensando "será que eu contei pra Mai?" rs

O momento do deixar ir é algo muito dolorido, duram anos até você se esvaziar de toda a ressaca moral, ainda mais quando é por traição (como foi meu caso).

Mas o amor prega pecas e como ela meu lado esquerdo, tanto como o meu coração, ficaram carregados de solidão por anos e ainda na esperança de um retorno... ôh vida cruel viu.

Ficou maçante de bom ler teu texto e que bom nao postou nada sobre a mentira, nem assim devemos dar vazão para ela.

#Beijinhos e boa sorte nas provas!

Jéssica Trabuco disse...

O texto foi grande sim, mas vc o fez e uma forma que a leitura ficou gostosa, curiosa.
Gostei muito, parabéns.

C. disse...

Mai, engraçado ver meu coment publicado ainda no dia 1/4, sendo que aqui já é 2/4. Obviamente, já que seu blog é configurado no teu horário rss

Jaynne Santos disse...

Mai, confesso que me deixou carente de explicações esse seu conto. Mas, acredito que o mistério e o que fica em oculto nos permite criar nossas próprias conclusões, e com isso, escrever juntamente com você esse conto tão cheio de literatura.
Gostei do final.
"E eu encaro pela milésima vez depois de ter rolado horas e horas, o lado esquerdo vazio."
Bem, como sempre digo, suas palavras [in]cantam completamente meus sentidos!

Grande beijo;

blakhorshed disse...

Gostei demais do seu blog, você se faz entender, e entrete quem lê, sabendo o que diz.

Acho, que já gosto bastante de ti.

bjo no coração.

Mayara disse...

Adorei o conto. Ao ler a parte dos bilhetes, só pensei assim: qual é a razão pela qual o levou a fazer aquilo? Tudo bem que ele se cansou, mas mesmo assim... Não queria estar no lugar dela.

Estou a seguir o seu blog Maiara com "i". Ahah

Beijos.

Mayara disse...

Adorei o conto. Ao ler a parte dos bilhetes, só pensei assim: qual é a razão pela qual o levou a fazer aquilo? Tudo bem que ele se cansou, mas mesmo assim... Não queria estar no lugar dela.

Estou a seguir o seu blog Maiara com "i". Ahah

Beijos.