quarta-feira, 20 de abril de 2011

Noturna - Parte II

Leia a parte I

Quando o homem saiu, eu corri para perto do corpo ensangüentado jogado no chão. Deitei-me em seu peito sujando-me com o seu sangue – com o meu sangue. Minhas lágrimas desciam quentes, cortavam-me a face, queimavam-me por dentro e por fora. E naquela noite chorei como nunca havia chorado antes, e como jamais choraria novamente.

Você mataria por vingança?
Mataria por prazer?

Suíça, Abril de 2000

Eu estava terminando o colegial, tinha 16 anos, e ainda desenhava o rosto do homem asqueroso nas paredes do meu quarto.
Depois da morte do meu pai fui morar com uma tia um pouco distante - distante demais. A casa dela era um verdadeiro deleite para mim, havia um sótão que eu chamei de meu, era lá onde eu passava boa parte do meu tempo quando não estava na escola. Lia os livros antigos dela, treinava com os equipamentos do meu falecido tio. E a melhor parte era que estudava os materiais cirúrgicos que estavam espalhados por todo o canto, nunca a perguntei o porquê de eles estarem lá, provavelmente eram lembranças antigas, pois descobri que em minha família distante havia alguns médicos, mas isso não importava, aqueles objetos cortantes me fascinavam profundamente.

Na escola as pessoas me chamavam de esquisita, pelo fato do meu batom escuro e das unhas pretas. E também por eu não falar com ninguém, aliás, nesse meio tempo eu nunca havia feito um amigo sequer. Mas isso foi escolha própria, eu não queria que ninguém soubesse do meu passado, e também não queria ninguém para interromper as minhas intenções futuras.

Certa vez, desenhando o rosto do homem na minha parede como de costume, eu resolvi que havia chegado a hora. Era o meu aniversário, e a vingança entoava em meus ouvidos como doces canções de ninar. Mas eu não dormiria naquela noite; eu ganharia o meu melhor presente.

“Agora somos os dois filhos da noite. Vamos minha pequena, anoitecer.”
Em minha memória a frase do meu pai reverberava. “Sim pai, irei anoitecer.” – pensava eu enquanto caminhava pelas ruas escuras.

Eu tinha um endereço em mãos, o consegui depois de me relacionar com os mais estranhos tipos de pessoas pela internet. Com uma identidade falsa eu consegui enfim chegar até o homem que tem o rosto desenhado em minhas paredes. Descobri que ele fazia tráfico de armas e que morava a duas horas de mim.
Arrumei uma mochila com as poucas coisas que eu tinha, roubei alguns instrumentos cirúrgicos e livros, e por último o carro da minha tia. Segui por ruas pouco iluminadas até encontrar a que ele estava; até encontrar o seu leito imundo.

Continua...

6 comentários:

Roberta Galdino disse...

muito bom, meus parabéns!!

http://rgqueen.blogspot.com/

Bell Souza disse...

Um conto que me prendeu! Essa garota tem problemas, fato! Vou ficar ansiosa para saber como tudo isso vai acabar.

C. disse...

Ela deve ser a irma do Wellington, o brasileiro matador mais atual e lembrado... se isolando, engenhando, família desestruturada... isso aí vai dar zica. Mas tô gostando do suspense, tô achando esse conto o melhor, porque talvez nem eu sabia que gostava do gênero suspense :-)

Jaynne Santos disse...

Mai, suas palavras sempre invadindo ferozmente minha visão aguçada e concentrada nas entrelinhas de cada conto- que por sinal, possui uma personalidade única, mesmo que diversa.
Sinto o gosto desejoso de vingança na boca. Sinto o cheiro da dor no coração da personagem. Assisto o drama aqui exposto num roteiro indócil, mas tão cativante.
Agarre-se as palavras e não deixe que ninguém as puxe de você, seja de que forma for, seja por que motivo for- agarre-se a elas.

Grande beijo e volto.

Monique Premazzi disse...

Esse conto simplesmente está ficando demais e eu tenho certeza que vou me surpreender MUITO ainda com essa história. A principio, acho que ela vai conseguir matar o cara, mas se não conseguir, ele vai passar a perserguir ela como o novo alvo depois do seu pai. Quero muito saber!

FELIZ PASCOA.
Beijinhos, se cuida s2

Júlia disse...

continue, continue, continue!!! *.*
amei a história, mal espero pela continuação... isso me trás um pequena lembrança do livro " a garota da capa vermelha"