domingo, 24 de abril de 2011

Noturna - Parte III


Leia a parte I e a parte II

Subi as escadas enferrujadas que davam para um apartamento miserável, vi uma luz amarelada acesa e a silhueta dele passando pela janela de cortinas rasgadas. Aquilo me fez suspirar como se eu houvesse sido agraciada com a mais bela visão do planeta.
Subi mais alguns degraus e bati na porta. Ele estava sem camisa, e os meus olhos cravaram em sua face que eu já conhecia muito bem.
“Ora, o que temos aqui...” – disse ele com um sorriso imundo no rosto. Senti vontade de arrancá-lo dali com a lâmina fria em minha cintura.
“Eu me perdi, será que você poderia me ajudar?” – eu disse colocando uma das mãos em seu rosto sujo. Ele não tirava os olhos do meu decote, e eu sorri maliciosamente.
“É claro que eu posso, entre, pode usar o meu telefone.” – deu-me passagem para entrar. Eu sorri como uma menina indefesa. Entrei e ele fechou a porta atrás de si.

Caminhei até o telefone e disquei um número inexistente, pedi um táxi para a gravação que dizia que o número não existia. Dei o endereço que eu já havia decorado, e que ele ingênuo, nem desconfiava o motivo. Talvez estivesse embriagado pelos hormônios, ou muito provavelmente fosse mesmo estúpido.
“Pronto, agora preciso esperar alguns minutos.” – disse eu com um sorriso amigável no rosto. Ele se aproximou. E naquele momento eu senti o meu coração bater mais rápido.
“Posso fazer um chá, você aceita?” – passou a mão em meu cabelo. “Claro, adoraria.” – respondi naturalmente. Mas aquilo estava destroçando as minhas entranhas, tudo veio como num turbilhão em minha mente, mas mantive-me fria mirando o meu foco. Mirando o meu maior prazer.

Ele caminhou até a pequena cozinha, sentei-me no sofá estudando o ambiente. Tirei umas luvas da minha mochila e as usei. Segui em passos lentos até a cozinha, onde ele estava de frente para o fogão assobiando. Senti a lâmina gritar em minha cintura, aquela era uma sensação maravilhosa. Um passo me dividia dele, encostei meu corpo delicadamente em suas costas, e ele suspirou. Passei a mão em seu cabelo, ele ainda estava de costas para mim, e nesse momento tirei a lâmina rapidamente e a fiz conhecer o pomo de adão dele. “Sabe quem sou eu?” – perguntei puxando o seu cabelo grisalho.
“Eu sou a filha do homem que você matou no dia nove de julho, de 1993.” – sussurrei em sua pequena orelha. Ele estava ofegante agora.
“Por que você o matou?”
– quis saber. E ele riu, mas o nervosismo entre a sua gargalhada o denunciava. “Porque é o que sei fazer. Matar.” – disse em um tom doce. “Por que você o matou? Não hesitarei em fazer o mesmo com você, está me entendendo?” – disse com uma voz firme encostando ainda mais a lâmina em seu pescoço. Pude ver uma gota de suor escorrer por sua testa. O cheiro do medo que emanava dele me deixou inebriada. “Ele roubou a minha mulher.” – o seu tom soou quase inaudível. E eu gargalhei na cozinha. Ele matou o meu pai por conta de um rabo de saia. “Ela se parecia muito com você...” – disse ele em seguida. E então eu estremeci. Por minha cabeça passou a possibilidade de essa mulher ser a minha mãe.
“O que aconteceu com ela?” – senti a minha voz falhar, e me amaldiçoei por isso. “Eu a matei”. – deliciou-se ao dizer. E eu fechei as minhas pálpebras como se as palavras me ferissem.
“Você gosta dessa brincadeira, certo? Pois eu também adoro brincar.” – falei retomando os sentidos e passando a lâmina em seu pescoço. Vi quando seu pomo de adão mexeu-se, engolindo em seco. Eu ri sentindo um sopro leve de vingança em meus ouvidos.
“Tenha bons sonhos seu desgraçado.” – falei pressionando a lâmina contra a garganta dele. E ele caiu aos meus pés, agonizando. Eu encarei o sangue manchar o piso da cozinha, aquela cena merecia ser moldurada e posta em minha casa para eu encará-la todas as vezes em que eu me sentisse triste. Aquilo com certeza sempre iria me arrancar sorrisos.
Abaixei-me perto a ele no chão, e limpei a minha lâmina em sua roupa. E no meu rosto um riso vitorioso se formava, nunca na vida havia sentido tamanha satisfação.

Procurei um vidro de álcool e espalhei por todo o lugar, em seguida um pequeno fósforo terminou o trabalho. E tudo ficou em chamas, queimou, como as lágrimas que haviam queimado em meu rosto há alguns anos atrás.

Continua...

5 comentários:

Mero Esmero disse...

Parabéns pela fluência textual. Você realmente tem o dom da escrita. Belo e árduo esse caminho que escolheste.
Mas se sairá muito bem!

Fraterno Abraço.

Pedro Menuchelli disse...

Incrível como você consegue mexer com a cabeça das pessoas de tal forma que elas têm a ideia de que estejam participando da sua história. Muito lindo o texto, eu amo a maneira que você escreve, de verdade. Seria bom se fosse tão fácil as pessoas colocarem fins à sentimentos com a mesma facilidade de que a menina conseguiu. Sem mais, uma boa semana. Um grande beijo,

Pedro.

C. disse...

Uau, a mente foi tomada pelas serpentes da vingança, e o coração pela raiz do mal...

Será que mais sangue será jorrado através dessas maos da pessoa com coração amargurado?

Yohana SanFer disse...

Nossa, que conto forte! To aqui procurando as outras partes e aguardando as proximas...
bjs

Monique Premazzi disse...

I-N-C-R-I-V-E-L essa parte. Essa idiota não merecia nada além disso, a morte. Foi ótimo para ele aprender, agora sim esta tudo certo, só quero saber o que vai acontecer em seguida *-* Posta logo a proxima parte, ein? Beijinhos, se cuida s2