sábado, 16 de abril de 2011

Noturna - Parte I

Você teria coragem de matar?
Quais são os motivos que o levaria a matar alguém?
Você mataria por vingança?
Mataria por prazer?
Você mataria para salvar uma vida?


Suíça, 09 de Julho, 1993.

A chaleira chiava no fogão, o cheiro de chá já esquentava as minhas narinas. Eu observava o chão xadrez com atenção, evitando que os meus pés tocassem nos pisos brancos. “Noite, noite, noite.” – eu dizia quando os meus pés tocavam a superfície escura.
O homem que se espreitava na cozinha me deu uma olhadela antes de servir o chá em grandes xícaras. Ele me olhava com estranheza, e me sorria em seguida, talvez por achar que a filha era tão peculiar quanto ele. Aproximou-se me jogando em seu ombro, pulando nos pisos escuros enquanto eu ria descontroladamente. “Agora somos os dois filhos da noite. Vamos minha pequena, anoitecer”. Ele dizia com uma voz grossa enquanto me jogava no sofá.
“Eu quero ser como ele”
– era o que eu pensava enquanto o observava e soprava a superfície do meu chá.

Os nossos risos foram interrompidos por alguém que batia na porta com vigor. Eu desci do sofá e encostei o meu rosto na janela embaçada, passei a manga do meu casaco no vidro e observei a escuridão tingida com poucas luzes lá fora. O meu pai me olhou com uma expressão temerosa. “Fique aqui, e não saia por nada, entendeu? Nada.” – disse ele me pondo atrás da nossa grande cortina na sala. Eu balancei rapidamente a cabeça em sinal positivo. Encarei os pés envolvidos em meias coloridas, eles estavam exatamente em cima de um piso escuro, isso de alguma forma estranha me acolheu.

Enquanto o meu pai abria a porta, eu o observava por uma pequena brecha na cortina. Vi um homem robusto postar-se na entrada de casa, ele entrou sem convite, e encostou algo que reluzia no peito largo do homem que eu amava. Os meus olhos estavam estáticos, eu senti vontade de correr, de impedir qualquer coisa que eu sabia que não seria capaz, mas tentaria. Tentaria se eu não houvesse recebido uma ordem. E eu nunca desobedecia à ordem alguma dele.

Um barulho estridente foi o suficiente para marcar-me para o resto de minha vida. Os olhos de meu pai foram apagados, vi o sangue manchar todo o seu peito - o mesmo peito em que eu encostava a minha cabeça enquanto ele me contava histórias sobre a noite que eu tanto amava. Naquele momento eu senti raiva da noite, porque ela havia trazido aquele homem asqueroso. O homem que matou o meu pai; o homem que me transformou para sempre.
Antes de deixar as lágrimas embaçarem a minha visão, observei atentamente o rosto dele, que agora sustentava um sorriso enquanto guardava a sua arma.
No piso escuro eu desenhei mentalmente a sua face, as sobrancelhas cheias, o nariz desproporcional para as pequenas orelhas, o lábio inferior dividido. Eu não me esqueceria, jamais.

Continua...

Olá pessoas, como vão vocês? Bem, a faculdade/curso vêm me ocupando bastante, por isso estou um pouco ausente. Mas aos poucos vou retribuindo um comentário aqui, agradecendo uma gentileza ali. Então, essa é a primeira parte de mais um conto. Espero que gostem e contem-me o que acharam. Beijo grande.

15 comentários:

Roberta Galdino disse...

incrível. *.*
amei!!!

http://rgqueen.blogspot.com/

C. disse...

A história já começa "quente" e cheia de suspense, sra Maiara Hitchcock lol

Beijos

» Cynthia Brito! disse...

Puxa! Agora fiquei louca pra ler esse :O Ainda hoje venho ler. Bom domingo, flor! beeeeeeijo.

Jaynne Santos disse...

Estamos começando um conto de amor/perda/dor/vingança? Ah, Mai. Amo esses contos asssim, eles mexem com a gente, cutuca nossa imaginação desejosa de fantasias.
E você sabe fazer com que a gente viaje com e nas palavras. Bem, farei o possível e até mesmo o impossível para acompanhar esse conto até o final.

Grande beijo!

» Cynthia Brito! disse...

Ótimo! Adorei o enredo dessa história. Sabe, Mai, você é sempre muito boa em contos! Admiro tanto isto em você. Espero a continuação, e mesmo que não goste do suposto fim deste conto, saiba que a sua técnica na escrita já é suficientemente bela para me convencer da sua experiência e domínio com as palavras. Desculpa a minha ausência também, mas, assim como você, os afazeres do dia-a-dia me consomem...

Um beijo enorme e bom domingão:*

Chupa Filho da Puta disse...

Aqui quem fala é a Ju House do cacheada e cheia de onda
eu to num projeto juntamente com minha amiga de levar adiante um sonho antigo que era falar sobre problemas
femininos, o blog seria como um disconte no cara que fez ela sofrer, e seria uma forma de ajudar alertar ou
manter a mente de outras mulheres abertas, mostrar do que o amor é feito, é a verdade nua e crua. O nosso
projeto é de tirar sarro dos acontecimentos, ao invéz de se deprimir e ocupar a mente com besteira a nossa
idéia é mostrar onde tá o erro no relacionamento na postura da mulher com a vida que está levando.
Faremos isso também em forma de vlog, que é inclusive uma forma mais rápida de divulgar, porém vamos
começar por aqui para termos umas histórias, se você tiver algum dilema, conhecer alguém que tenha,
mande-nos, dá uma olhadinha no nosso post, pode mandar anonimo mesmo pro e-mail, é melhor que invente
um nome um lugar pra vocês mesmas identificarem a história, no post ou aqui mesmo, porquê faremos
questão de responder a cada um dos e-mail's.Se quiser divulgar o blog e a idéia eu agradeceria também!


Beijos sentimentais!

Lucas Stefano disse...

Caraca , tomei um sustoo. Bela história maninha. A , estou de link novo pro meu blog , visita lah






http://podefucar.blogspot.com/

Alexandre Fernandes disse...

Um início arrepiante. Que deixa de forma clara o modo como irá se conduzir a continuação. A dor da morte, um pedaço de vida que esvai, mesclada com a sensação de raiva, anseios de vingança. Tudo isso encaminhará o futuro.

Estou curioso. Um conto que tem tudo para marcar.

Beijos!

ps: blog bom o seu. Gostei!

rafaela ivo, disse...

É bem diferente do que tu normalmente escreve, mas mesmo em meio ao suspense do texto, há a leveza das palavras. É descrever um assassinato com palavras bonitas, foi um texto deveras interessante! Parabéns pelo teu incrível dom, Maiara! Beijão!

Minne disse...

Daria um belo livro sabe ? Fiquei maravilhada e me enchi com as mesmas sensações que preencheram o coração da menina, como a Rafa disse, é realmente diferente do que você costuma escrever por aqui mas é tão incrível quanto. Maravilhoso Mai :3

C. disse...

Adoro as interpretacoes acertadas que dá aos meus textos...

Beijinhos querida, boa semana!

Caroline Araújo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caroline Araújo disse...

Assim como eu não esquecerei jamais.
Deixo, primeiramente, um longo pedido de desculpas pela minha ausência aqui. Fiquei sem computador, estou estudando demais, enfim, tudo me afastando desse lugar que tanto amo. E hoje após ler e reler esse texto, e observar de angulos diferentes a escuridão do olhar morto do pai, indago-me como palavras tão belas traduzem tamanha tristeza sem deixar de reluzir a sua beleza.
Espero ansiosa pela continuação do conto, pois esse começou logo roubando-me para si; O qual fez-se essencial nesta noite tão doce, se comparada a da escuridão que levou a vida de homem tão amado pela filha.
Lindo demais querida Mai, e surpreendente apesar de eu já saber quão talentosa és tu.
Grande beijo.

Monique Premazzi disse...

Simplesmente INCRÍVEL! Eu sou super fã de coisas obscuras assim, morte e sangue. Principalmente quando eu to irritada demais com algumas coisas, como agora. KK
Quero a próxima parte! Preciso ler esse conto loucamente.

Esperando, ein?
Beijinhos, se cuida s2

Pedro Menuchelli disse...

Incrivel Maiara.. toda vez que venho aqui, saio sem palavras. Fico procurando cada expressão nos extremos do meu coração e da minha alma e parece que todas as coisas que tenho dentro de mim fugiram para um lugar muito distante, muito longe, que me faz perder o sentido das coisas em momentos que mais preciso, como esse.
Queria te falar que adoro demais aqui e adoro o que você me faz sentir com seus textos. Sempre acabo me colocando dentro da história e isso me deixa super bem. Fugir um pouco da realidade faz bem! Só é preciso saber o momento de voltar, né?

Um grande beijo e uma ótima semana. Com carinho,
Pedro.