segunda-feira, 4 de abril de 2011

Perfume Campestre - Parte final

Leia a parte I, parte II, e parte III

- Espera. – disse um pouco ofegante.
- Sim? – freou os passos me encarando.
- Quer tomar um café, alguma coisa?
- Não, obrigada. – voltou a andar.
- Como você se chama?
- Por que quer saber? Você deve continuar no anonimato para mim, não quero saber de identidades. Não quero saber se você gosta de café forte ou mais leve. Não me importa quantos anos você tem, ou se gosta de lua cheia. Não me interesso por seus interesses, nem por suas estórias. Não quero que me conte sobre as suas cicatrizes de infância, e também não quero saber se você era bom aluno na escola, mas que sempre tirava notas ruins por brincar demais. Não me conte nada sobre o seu antigo cachorro que morreu como tantos outros, não quero que me fale sobre o seu perfume preferi... – beijei delicadamente os seus lábios ligeiros, fazendo-a calar-se. A abracei em seguida a aninhando em meu peito, como eu tanto queria. Aquilo foi estranho, devo dizer, mas eu nunca havia me sentido tão estranhamente feliz antes.
- O meu perfume preferido é o campestre que exala de seu cabelo. E eu não sou o seu antigo namorado, as estórias dele não me pertencem. – olhei-a nos olhos. E ela me abraçou mais uma vez, molhando o meu moletom e apertando-me com força.
- Desculpe, eu não sei o que há comigo. E por que me beijou? Não posso mais me envolver com ninguém, não dá para mim. – seus olhos permaneciam fixos nos meus.
- Você não parava de falar, então...
- Ah, então você só fez aquilo para me calar? – ergueu a sobrancelha.
- Hum. Também. – enrubesci. Em seguida olhei em volta para ver se a minha solidão estava por perto, ela não podia ver esse homem de vinte anos enrubescendo assim.
- É verdade, aquilo sobre o meu cabelo? – secou os olhos com as mangas do suéter.
- Sim. – disse colocando uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha. Ela parecia surpresa, e eu também.
- Ah, não pretendia mais fazer, você sabe... Quer dizer, desculpe. – falei com um tom de voz inseguro.
- Não tem importância. Você já me beijou. – olhou-me e voltou a andar. E eu mais uma vez senti o rosto queimar. A observei por algum tempo, enquanto aquela incômoda distância tornava a postar-se entre nós.
- Ei, vai ficar aí parado? Não ia me pagar um café? – disse virando-se em minha direção. E eu inevitavelmente sorri. Ela tirou mais uma mecha de cabelo da frente dos olhos, e sorriu timidamente. Eu sabia, seria um terreno perigoso e sensível ao mesmo tempo, mas eu estava disposto a explorá-lo mesmo assim, passo a passo, cuidadosamente.

O vento mais uma vez correu por seus cabelos, e não pude deixar de ter uma ponta de ciúme dele, afinal, ele parecia amá-la, e eu queria aprender a fazer isso tão bem quanto ele fazia. Aliás, eu queria fazer isso melhor que ele. Foi pensando nisso que eu me aproximei dela, e então senti mais uma vez o cheiro do meu perfume preferido. Perfume campestre.

Hoje as minhas manhãs ainda têm um cheiro de campo deixado por aqueles cabelos desgrenhados ao meu lado, e que inacreditavelmente ainda permanecem lindos emoldurando a face daquela que se tornou a minha vida.


Fim



Bem, confesso que esse conto não iria ter um final fixo, mas então me imaginei lendo um conto sem um final e não achei uma grande idéia (haha). Por isso está aí o fim, que na realidade nunca o é de verdade, já que passamos a imaginar inúmeras coisas sobre a os fatos subsequentes da história.
Então espero que tenham gostado.
Ah, só para avisar, gostei dessa experiência de postar um conto. Postarei um outro, mas esperarei a semana de prova acabar, e tudo o mais. Posso adiantar que será completamente diferente desse, completamente mesmo. Digamos que quem gosta de contos sobre assassinatos, amores mal resolvidos, e dualidade vertida, irá gostar desse conto. Vou parar de descrever ou vai perder a graça, (kkk). É isso gente, beijo grande.

6 comentários:

Jaynne Santos disse...

Mai, esse seu conto ficou tão doce. Me senti comendo chocolate, e eu amo chocolate. Pois bem, preencheu minhas espectativas para o final. Muito lindo mesmo.
Gosto dessas estórias assim, com um tom de mistério no início, uma decepção passada e um amor futuro. Bem, confesso que fiquei realmente a dar continuidade a vida dos personagens. Imaginei uma possível conversa enquanto apreciavam o café. Imaginei ele a levando para casa, a beijando de novo e enfim.
Desculpa eu estar meio sumida daqui. Li a continuidade do texto: Requíscios de um velho poeta velho e senti que você o concluíu perfeitamente bem.

Grande beijo;

Joyce C. disse...

Oh, seu conto ficou tão bonito.
Eu amei os personagens. E o que dizer da narração? Bela demais!

E com toda certeza, é possível imaginar momentos bonitos dos dois.
E acredito que desse café, surgirá um amor daqueles cheios de sutilezas.


Beijos, Maiara!

Ana Beatriz disse...

Adorei o conto e achei ele lindo. Ainda não tinha lido todo ele, por isso voltei nas páginas atrás para ver como estava. Seus textos são ótimos!
Visite: http://elasdisseram.com

C. disse...

Particularmente (nao sei porque) nao gosto de contos, mas esse foi bem suave e pincelado, e mesmo assim me prendi.
Do momento de encantamento (começo) eles adentraram na profundeza e imensidão do amor. Pois entao que seja eterno enquanto dure!

#Beijinhos

• Cynthia Brito • disse...

Que doce, Mai! Adorei ler este conto. Até me imaginei com esse perfume campestre agora... rs' Bom, aguardo seu próximo conto, porque, sim, já sei que vou gostar! Ah, não sei se já avisei aqui, mas têm selinhos para ti em meu blog.
Beeeeeijo! Com amor,
|Cynthia|

Rodolpho Padovani disse...

Aê, o final, muito bom como todo o resto e desde o começo eu já tava torcendo para os dois ficarem juntos, hahaha, ainda bem que ele tomou iniciativa, né?

Bom, pelo que li hoje é seu aniversário, então já aproveito para lhe desejar os parabéns e muitas felicidades na sua vida, hoje e sempre, que você possa realizar seus sonhos e continuar a escrever para nos encantar.

Outra coisa, te adicionei no msn, pois tenho um convite a fazer, mas depois falamos disso.
Até mais.

Beijos.