sexta-feira, 29 de abril de 2011

Precipício temporal

Olho no espelho pela quinquagésima vez nesta noite, e me perco nos traços feitos pelo tempo. Ao lado, observo uma fotografia antiga, onde eu me encontro num sorriso desconcertante de moça jovem que acaba de desbravar o mundo.

Todas as noites eu faço esse mesmo ritual, antes de dormir observo incansavelmente aquela foto. Sei que maltrato o meu coração maltrapilho desse jeito; sei também que há coisas maravilhosas na velhice que podem me deixar contente. Mas nada; nada será como antes. E disso eu sinto muita falta.

Sabe, quando se tem filhos, e netos, e um amor de mãos enrugadas para sobrepor a minha, essas reclamações de mim para mim mesma parecem egoístas. Mas veja bem, eu sou feliz, muito. Mas também sou pura nostalgia, sempre fui. E esse é o meu jeito, não há outro jeito que me sirva tão bem quanto esse.

E agora me pego outra vez mergulhada em melancolia, culpando o tempo por ter me levado embora de mim mesma. Nessas horas sinto como se houvesse um abismo em mim, onde eu insisto em cair nele todos os dias, e durante a queda eu sempre perco algo de muito valor.
Primeiro foi a dança, e isso me fez sentir como se cada célula do meu corpo fosse atingida. Quando olhei para o palco e não pude subir nele sem precisar da velha bengala, apenas chorei. Chorei lágrimas de sangue que me destroçavam a cada descida.
Depois foi o meu violino, que reclamava emitindo barulhos animalescos quando eu o tentava tocar com as minhas mãos trêmulas. Fui obrigada a abandoná-lo. Ah, que saudade sinto...

E quanto mais o tempo se passava para mim eu percebia que mais coisas eram tiradas; e que as quedas em meu próprio abismo existencial se tornavam constantes. Pois logo depois, a minha memória começou a bater em retirada em pequenas doses. Houve vezes em que esqueci os nomes dos meus próprios filhos, e então pensei que dor maior não existia. Até perder a minha amiga; a minha fiel amiga. Ela, como eu, já estava limitada de tantas coisas... E quando a olhei deitada naquele caixão frio percebi que sorria. Talvez estivesse cansada demais de ser sucumbida pelo tempo. Ah, Amélia me foi uma irmã emprestada que a vida me deu e que o tempo me tomou. No dia do seu enterro eu não consegui tocar dignamente a sua música favorita em meu violino, mas tentei, e sei que fiz feio. Mas ela não se importou, sei que não.

Há quem diga que tudo isso não passa de um capricho meu, mas eles não sabem o que eu sei, porque todos os que falam assim são jovens, estão vivendo correndo contra o tempo, mas quando perceberem já foram atropelados por ele; e já estão velhos o suficientes para olhar-se no espelho e chorar olhando uma fotografia antiga.
Espero que consigam chegar até onde eu cheguei, e que tenham muita força para isso. Porque a velhice não é de toda ruim. Como agora, nesse momento que olho para trás engolindo doses de passado e observando o rosto tranquilo que em minha cama repousa. Enxugo as lágrimas das minhas rugas cansadas, e vejo aquele sorriso de menino pregado na face do meu eterno garoto. Impressiona-me tanto olhá-lo, porque por mais que eu veja rugas e cabelos grisalhos, a alma dele transparece toda a sua juventude, e me sorri como na primeira vez em que foi apresentada a mim. E isso é o que me faz feliz nesses dias que eu sou toda nostalgia. Esse menino que me puxa de volta é o equilíbrio que preciso quando estou titubeando à margem de meu precipício temporal.

* 66 ª Edição Musical - BLQ

Oi pessoas. Hoje tenho uma coisa importante para ressaltar, mas antes vale dizer que a próxima parte do conto será a próxima postagem porque não resisti à frase tema da semana no BLQ.
Mas enfim, fui convidada para fazer parte da ABL (Associação Blogueira de Letras), a ideia desse interessantíssimo projeto foi do Marcos. E eu sou uma das integrantes da equipe, se caso sentir vontade de conhecê-la por inteiro é só clicar aqui.
Bem, o projeto é basicamente uma ajuda aos blogueiros de plantão, tem como objetivo divulgar o seu trabalho e ajudar no reconhecimento do mesmo. E como funciona? Você só precisa entrar na comunidade e cadastrar um dos seus textos preferidos, responder alguns mínimos requisitos, e pronto.
Quer conhecer mais afundo? Visite o nosso Blog e a nossa comunidade no orkut.
Blog;
Comunidade;
E é isso pessoas, fiquei contentíssima por ter sido convidada para participar desse brilhante projeto. Um beijo, e espero vê-los por lá.

6 comentários:

Andarilho disse...

Belas metáforas nessa postagem. Tens o dom da escrita.

Fraterno abraço.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

fotografias antigas trazem melancolia, o espelho nem sempre reflete o que desejamos e o temporal pode ser bom, para ao fim de tudo lavar

Nara disse...

Primeiramente, parabéns por integrar a equipe da ABL, muito interessante esta idéia!
E como sempre, mais um belo texto!
(Desculpe o tempo sem visitar teu canto, ando ocupada :X)
Beijos e sucesso!

Sam disse...

Olá Maiara !
Gostei do seu blog. Visite os meus:
http://palavras-e-sentimentos.blogspot.com/
http://junglegirl-na-janela-secreta.blogspot.com/
Sua visita e de seus seguidores são bem vindas.
Se gostar pode seguir, ficarei feliz em ver você por lá. :D

Jéssica F. disse...

Eu senti a nostalgia dela. Lindo texto! *_*

C. disse...

Acho você reúne todas as chances para fazer parte da ABL, porque tem escrito belos textos!

Beijos!