quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ainda assim


Estou batendo os pés embaixo da mesa, a minha paciência já foi por água abaixo. Já amassei três guardanapos, e disse ao garçom que você só estava atrasado; um imprevisto, mas logo estaria ali. Estava mentindo para mim mesma naquele momento, mas quem liga?
Olha, o garçom se aproxima, revira os olhos, e eu digo que vou pedir uma água só para ele parar de me importunar, aliás, onde está o gerente? E é nesse instante que você entra no restaurante como se tudo estivesse bem, sorri, e eu te nego um beijo. Poderia ser mais pontual? Porque trinta minutos de atraso eu ainda aceito, mas duas horas e meia... Não, isso eu não sei fazer.

Você diz que foi o trânsito, mais uma vez. Tudo bem, eu já nem quero falar sobre isso. Mas preciso dizer que o sorvete lá em casa vem acabando de maneira muito rápida, e o travesseiro anda sempre cheio de choro, isso está me cansando. Um dia desses pensei que fosse dissolver-me entre um soluço e outro, pura histeria. Mas eu finjo não me importar, no fundo queria dizer que me importo sim, e que quando você some me tira do sério. Por que não liga? Custa dar uma satisfação? Ah, custa sim, é o seu orgulho. Ou é o meu que não me deixa transparecer? Sabemos mesmo que a culpa é nossa, mas sua do que minha, porque essa é a minha versão da história.

Você está sorrindo, e nem entendo o motivo. Porque estou furiosa; meus braços cruzados não te intimidam? Você coça a cabeça, parece nervoso agora, então relaxo um pouco. Mas não pense que deixo brechas. Então a sua boca abre devagar, mas desiste de falar. Droga, fala de uma vez!
Coça o queixo, suspira pesado, e eu me afundo em curiosidade. Será que devo dizer que não preciso mais de você antes que você o diga? Mas espera um pouco, quem disse que eu não preciso mais de você? E mesmo que você faça todas essas asneiras; mesmo que eu engorde por conta do sorvete, e me desidrate por conta do choro, ainda assim eu preciso de você; preciso dessa tua cara mansa com esse sorriso de canto.

Então você abre a boca mais uma vez, se inclina na mesa, e eu penso em apertar as suas bochechas para ver as palavras pularem dali. Mas não é preciso, você enfim fala. Diz que tem sido um errante, e que eu também pareço não me importar com nada, mas ainda assim sofre calado por eu ser dessa forma tão largada; dada ao vento. Eu sorrio, mas é de alívio, e logo te explico, digo que me importo sim, e que tudo isso é pose, não deveria te dizer, mas se esse é o problema podemos resolver. Você me chama de objetiva hora sim e hora não, mas que gosta mais do sim, sempre gostou. Eu dou uma risada alta, e você a encobre com um beijo, diz que gosta do gosto do riso, e que é bonito mesmo que seja um escândalo. Sinto o rosto quente e me escondo atrás do cardápio, você sorri de lado, daquele jeito que enlouquece. Fala que eu fico uma graça assim corada, te dou uns tapinhas, e você tira do bolso um pacotinho azul, estremeço. Me olha fundo e se levanta, dá a volta na mesa e coloca em meu pescoço um colar delicado demais para os seus dedos desajeitados. Toco o pingente e o observo, é um coração pequeno com nossas iniciais gravadas. Você volta a se sentar, estuda o meu rosto, coça a cabeça. Eu sorrio e me levanto rápido demais, quase derrubo a mesa enquanto me jogo em seu abraço. Você diz que esse jeito estabanado te fascina, eu acho graça, e estranho também. Te beijo agradecendo o presente, dizendo que foi uma grande delicadeza, você sorri satisfeito e diz que me ama, assim, desse jeito inesperado. Aliás, esperado demais, os meus sorvetes que o digam. Eu volto a te abraçar forte, e digo que o amo, e que esperei muito por isso, tive medo que soasse desesperado. Será que pareceu um apelo à falta de solidão? Não, na verdade pareceu o que tinha de parecer mesmo, um apelo à constância do amor.

3 comentários:

Jaynne Santos disse...

Mai, suas palavras me envolvem de forma especial. Sinto-me abraçada por elas. Como criança a dormir com o balanço da rede. Sua escrita me balança, e eu fico indo do doce ao ácido. Do alegre ao triste. Do cerne ao superficial.

Muito bom me balançar nessa rede de constante inconstância. Linda estória!

Beijos.

C. disse...

Que fofos! Na verdade cada um gosta de um jeito, e mesmo na contramao, os dois se entendem e se amam. Assim parece. Existem presentinhos que falam por nós nao é mesmo? Um pingente com as iniciais dos nomes achei o máximo!
Que saudade tava daqui Mai!

Pedro Menuchelli disse...

Mai, como é bom saber que existem pessoas que ainda cativam características diretas sobre o verdadeiro amor à um outro alguém. O amor sempre foi um dos sentimentos mais lindos e indiscutíveis do mundo inteiro, contudo, com suas palavras fica realmente impossível destacar alguma expressão que possa definir um pouco do significado do amor. Você sempre consegue ir mais além do que penso, consegue mexer com minhas emoções com uma facilidade unica e, claramente, és uma pessoa com um bom coração, dotada de sentimentos maravilhosos. Você é linda, tanto por dentro quanto por fora Mai. São de pessoas assim que o mundo precisa!

Com carinho,
Pedro.