segunda-feira, 9 de maio de 2011

Caleidoscópio


Caleidoscópio - Os Paralamas do Sucesso
Pega o telefone e rompe a noite com uma voz camuflada. Fingi-se de ríspido; frio, com aquela mesma desculpa de que os dias passam, as pessoas mudam. Depois diz que a culpa é mais minha do que sua. Fala que aquela música já não faz sentido, apesar de que ela está tocando baixinho aí do seu lado; eu a ouço, ao longe.
Me acusa de insensível e de dona da verdade. Diz até que o trecho daquele livro eu já esqueci, e que você também já o esqueceu. Que livro mesmo? – você pergunta para me contrariar. Solto palavrões para o seu nome e para todos os seus ancestrais, digo que não me importo, e que diferença você não faz. Falo que da música eu nunca gostei, e que fingia bem só para te agradar. E o trecho do livro já nem lembro mais. Aliás, que livro mesmo? – me enfureço. Digo que já chega; já dá. Ainda escuto as suas reclamações antes de desligar.

Encaro o celular fervilhando de raiva, e sei que do outro lado você faz a mesma coisa. Grito alto só para relaxar, não adianta, e sei que o que vou fazer agora, mais tarde vai me atormentar. Mesmo assim me jogo na cama, cubro o rosto com o travesseiro, e choro socando o colchão. Imagino que você esteja fumando um maldito cigarro, só porque eu mandei você parar. Posso até ver você andando de um lado a outro do quarto, desligando o rádio que toca a música que era tão nossa. E chora também; sei que chora.
Engulo algumas lágrimas, soluço, observo o celular. Porque a demora de ligar? Ainda preciso acabar. – só desculpa para ouvir a sua voz. Você nem sabe disso, e eu finjo não saber. Penso em telefonar, encosto o dedo nas teclas, mas logo os contraio, e digo para mim mesma que a isso eu não vou me prestar.
Suponho que você deva estar fazendo o mesmo. E enfim o visor do meu celular brilha.

Deixo tocar duas vezes, só para você pensar que eu já estava ocupada com outra coisa. Já havia te esquecido, foi fácil até. Dou de ombros, pigarreio tentando limpar a voz - esperando que você não note o choro recente.
Enfim atendo, com rispidez e indiferença.
- O que você quer? – engrosso o tom só para te intimidar.
- “Fechei os olhos para não te ver, e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei...” Ainda lembro o trecho; ainda ouço a nossa música. – diz com voz mansa; quase cansada. Eu deixo uma lágrima ferir o meu rosto, e o orgulho apertar a garganta, então choro sem máscaras. Você fica ouvindo o choro, sem palavras, apenas com cumplicidade.
- Consegue me perdoar? – dizemos em uníssono.
- Como não conseguiria? – você pergunta em voz tênue.
- Não sei...
- [...]
- Faz poesia pra mim? – peço.
- Vem aqui. – responde.

E eu vou. Você joga os cigarros fora; toca uma música doce no violão, diz que fez há uma semana, e que é pra mim. Eu sorrio com uma cara abobalhada, beijo o sua boca e digo que gosto do gosto das notas. Você sorri; nós sorrimos. E levamos assim, com melodia; telefonemas; e uma poesia no fim do dia sussurrada ao pé do ouvido que é para não fugir.


* 68ª Edição Musical - Bloínquês



11 comentários:

» Cynthia Brito! disse...

Um doce! Estive até com saudades de ler suas palavras tão poéticas, Maiara! Acho que matei-as agora, talvez. Mas, ainda assim, não me canso jamais de cá vir.

|Grande beijo|

» Cynthia Brito! disse...

E eu também senti falta daqui... Na verdade, nem sei como passei tempo afastada desse mundo entrelinhas! :/

Boa noite, Maih!

Por que você faz poema? disse...

"Eu fecho os olhos e tudo vem
Num Caleidoscópio sem lógica".

Gabriel G. disse...

como assim? sua tratante, fez meus olhos brilharem pra no final descobrir que era ficção.[desapontado] olha, este texto é lindo, e dizer mais que isso seria desnecessário...
*-*

C. disse...

Um texto literário não deve ser justificado. Ele deve apenas se bastar.

Beijo linda Mai!

rafaela ivo, disse...

Eu sei exatamente como é isso!
Meu namorado e eu éramos assim no começo, depois viramos pessoas mais quietas e normais IUSHAUDHUAHDIU

Adorei demais o texto, acho que por me ver ali. Beijão, Maiara!

Fernand's disse...

um furor só!

:D

Jaynne Santos disse...

Mai, foi estranho ler esse conto. Parecia que eu estava cantando, sabe, uma canção com melodia de dor. Uma dor que no fim sempre se acaba com um beijo doce. Um beijo com acordes suaves.
Engraçado também que, suas palavras sempre me causam reações tão diversas, às vezes contraditórias, ás vezes emoções sem nomes já inventados. E isso é muito bom.

Grande beijo.

Andarilho disse...

Bela teia palavras metafóricas, porém sensivelmente reais...

Parabéns!

Fraterno Abraço

@juusep disse...

Lindo, lindo, lindo! Maravilhoso. Só tirei pontos de ortografia por causa das virgulas antes do e, em muitos casos. Beijo, lindo!

Jeniffer Yara disse...

Vi o link do seu post no twitter da @juusep,e vim aqui ler. Simplesmente achei maravilhoso,e muito lindo mesmo,casais problemáticos tem sempre um final mais intenso e verdadeiro,não sei por quê,rs.

Beijo