domingo, 1 de maio de 2011

Noturna - Parte IV


Você mataria para salvar uma vida?

Brasil, 08 de Janeiro, 2005

Eu estava sentada numa mesa do lado escuro de um bar suburbano. Já fazia algum tempo que eu havia me mudado para o Brasil, as pessoas começaram a falar em assassinatos, e no fundo eu sabia que jamais me encontrariam, mas eu estava com vontade de mudar; conhecer coisas novas, clima novo, cultura nova. Então fiz um curso rápido de línguas, aprendi o suficiente para poder me virar.
E lá estava eu, apagando o meu cigarro e tomando mais um gole do meu conhaque. A minha frente postou-se uma silhueta masculina. Ele cravou olhos brilhantes nos meus, e eu o estudei com monotonia. “Sem companhia esta noite?” – perguntou acendendo um cigarro.
“Felizmente.” – tomei mais da minha bebida. E ele sorriu encarando a minha face.
“Tão linda, e sozinha... Isso é estranho.” – disse tirando o copo de minhas mãos e entornando-o. Revirei os olhos e o lancei um olhar cortante. “Oh, não me intimidas. Ainda a acho mais bonita assim.” – se aproximou dizendo as palavras próximas ao meu rosto. Era ousado, devo admitir. Levantei-me da cadeira para sair, queria matá-lo simplesmente por prazer, mas ali não era o lugar certo. “Na sua casa”. – disse eu sorrindo para ele. E ele levantou-se com um sorriso riscado no canto da boca, me seguiu.

Seguimos para o seu carro, e ele me espreitava pelo canto do olho durante o trajeto, eu fingia estar distraída.
Entramos em seu apartamento, e o coloquei contra a parede. “Você é um tolo.” – sussurrei em seu ouvido, e ele riu. Senti a sua mão deslizar por minha pele e tirar delicadamente a lâmina presa à minha coxa. “Você está certa disso?” – passou a lâmina por meu rosto - a minha lâmina. A raiva me culminou por dentro naquele momento. “Como?” – não pude evitar o tom de surpresa. “Eu sou como você, querida. Mas não pretendia matá-la, não literalmente. E você precisa saber distinguir os seus desejos.” – sussurrou em meu ouvido enquanto me beijava com fervor. Entreguei-me ao mistério do homem, os instintos gritavam por sangue, mas havia uma outra coisa que pedia pela vida dele. Decidi que naquela noite apenas nos entregaríamos. E assim anoitecemos juntos. Lâminas foram deixadas na mesinha de centro, e entregamo-nos à vida sem findá-la.

Acordei, vesti-me comigo mesma, e resgatei a minha lâmina. Na mesa de centro deixei um bilhete.

Amanheceu. E eu sou noturna, e sozinha. Mato aqui as esperanças para salvar a minha vida.

Continua...

7 comentários:

Júlia disse...

ownt, ameiii! quem será o rapaz? será que a fará bem ou mais um cara bobo em sua vida? eis a questão! mal espero pelo próximo capitulo ushahsuahsuahs

Jaynne Santos disse...

Mai, fui correndo ler a parte anterior que eu havia perdido e li essa agora.
Esse conto está me surpreendendo de forma a me conduzir a um êxtase de emoções.
São palavras deliciosas de se ler e que juntas nos carregam para um novo mundo. O mundo mágico da imaginação.

Beijos.

Mero Esmero disse...

Talvez eu não matasse pra salvar uma vida... mas não por falta de vontade ou pela ausência de um espírito abnegado, mas sim porque provavelmente já tenham matado meus sentimentos e crenças bem antes de sequer haver tempo para uma reação em contrário.

Parabéns pela forma de construção textual. O talento transpira por aqui.
Fraterno Abraço.

Pedro Menuchelli disse...

Acho ainda que você deveria escrever um livro. A cada dia, a cada postagem, me surpreendo ainda mais com tudo que você escreve por aqui. Gostaria que pudesse imaginar o quanto fico bem lendo e refletindo sobre cada linha dos seus textos.

Dê valor à esse dom. Poucas pessoas são como você. Um grande beijo, ótima semana!

Andrezza Vieira disse...

Não li as partes anteriores, então fiquei um pouco confusa. ela é uma serial killer??
mas sobre o que entendi, posso comentar.. vc conseguiu me envolver na leitura, e não descreve tanto. fala mais das atitudes das personagens. isso é legal pra vc, que posta as historias num blog ;)
vou voltar mais vezes e ler os próximos posts!
bjss

www.ocontadordeodisseias.blogspot.com

Monique Premazzi disse...

Não acredito que eu perdi essa parte do conto! Morri aqui lendo. Já até sei, ela vai se apaixonar por esse cara e vai ter que matar ele, ou ela vai ter que se matar pra salvar a vida dele D: Ou pode ser completamente diferente disso. AAA Não sei! Preciso de mais. Tá muito bom *-*

Beijinhos, se cuida.

C. disse...

Direta e objetiva, e absolutamente cortante!