sábado, 7 de maio de 2011

Noturna - Parte V


Leia a parte I, parte II, parte III, e a parte IV

Brasil, 25 de Março, 2005

O homem misterioso ainda habitava a minha memória, uma parte queria esquecê-lo, e uma outra irracional insistia em lembrá-lo. Pensando nisso eu tinha os meus olhos fixos nas janelas do metrô, era mais um dia monótono de trabalho numa agência publicitária. Suspirei cansada.
“Noturna”. – sussurrou alguém ao meu lado. Os meus olhos converteram-se em surpresa enquanto o encarava. “Você está me seguindo, ou o quê?” – suspendi uma sobrancelha. “Tenho culpa se o acaso gosta de nos manipular?” – sorriu inocentemente. E percebi quão boa era a sua atuação para o resto das pessoas, mas não tão boa quanto a minha.
“Vai matar alguém hoje à noite? Quer tentar me matar mais uma vez?” – sussurrou beijando as palavras em meu ouvido. “Não o matei por vontade própria. Mas o faria se quisesse”. – sussurrei igualmente em sua orelha. Ele deixou um sorriso malicioso nos lábios. “Você não o faria, porque você não consegue fazer, assim como eu.” – disse em um tom sério. E percebi, estávamos entregues um ao outro. Ele beijou-me no rosto e disse que nos mataríamos esta noite, mais uma vez.

Saí do metrô sentindo-me atônita. Amaldiçoei a mim mesma e a minha burrice. Como eu estava deixando alguém me revelar? Como alguém poderia ser a minha maior fraqueza e o meu maior deleite? Matar era o meu maior prazer, apenas matar. Mas então aparece aquele homem que até o nome eu desconhecia, e faz de mim um ápice da fragilidade descoberta. Era algo inaceitável.

A noite caiu sobre mim, e anoitecida fui para o apartamento dele. Lá as lâminas foram esquecidas, e nós entregamo-nos mais uma vez um ao outro.
Não podemos continuar com isso”. – eu disse em uma voz arrastada. “Por que não?” – suspirou como se já soubesse a resposta. “Por que nós dois juntos nos tornamos fracos. Não podemos ser quem somos quando existe o nós, entende? Você poderá ser usado para a minha ruína, e eu poderei ser usada para a sua”. – minha voz soou calma, mas eu sentia todas as minhas cicatrizes sendo abertas.
“Eu entendo”. – disse apertando-me contra si. E aquele foi o abraço de despedida.

Amanheceu e eu guardei mais uma vez a minha velha companheira de todo o sempre - a minha lâmina. Em sua mesa deixei mais um bilhete - o último bilhete.

Amanheceu. E eu sou noturna, e sozinha.

Não sei ao menos o seu nome, e nem você o meu, mas o que aconteceu enquanto nós existimos um para o outro bastou, e não exigiu identidades. Ter que ir embora me destroça, mas ter que ficar pode exigir muito da morte, e muito da dor. E nós sabemos que a morte só é bela quando somos nós os seus praticantes. Hoje parto e mato aqui o amor, para não deixá-lo vazar para os ouvidos de outros que andam por aí lado a lado com a nossa arte. Perdoe-me.

O bilhete fora escrito enquanto eu sentia os meus olhos arderem. Senti uma dor indescritível enquanto uma lágrima solitária descia pesada. E isso me fez perceber que aquele homem realmente era a minha ruína. Eu estava vulnerável para ele, e ao lado dele. Saí sem bater a porta, antes espiei o seu rosto calmo enquanto dormia, parecia profundamente tranquilo, acredito que nenhuma morte o assombra, a não ser a que ele provavelmente fora obrigado a presenciar. Somos mesmo muito parecidos.


Hey people. Essa é a penúltima parte do conto e espero que gostem do final que estar por vir. Enfim, como sempre agradeço por todos os comentários atenciosos deixados aqui.
Ah, e quando a sua mãe disser amanhã que não precisava se incomodar, ela está sendo apenas gentil, porque se você esquecesse do dia simbólico dela, com certeza iria notar que a comida passou a ficar acidentalmente mais salgada, aliás, muito salgada. Falo isso por experiência própria. Brincadeira, eu não sou tão desnaturada assim.
Enfim, feliz dia das mães, esses seres são incríveis duas vezes mais. Primeiro por serem mulheres, e segundo e não menos importante, por serem mães. Porque não é para qualquer um gerar uma vida dentro de si. E depois tem a parte da educação, e ainda o trabalho, a casa, e o salto alto. Ah, tem muitas outras coisas que só mulheres e mães conseguem fazer, mas vou parando por aqui para isso não virar um texto maior que o conto. É isso meu povo, forte abraço.

8 comentários:

. Nadine disse...

Não deve ser fácil falar sobre a morte, e eu adoro a forma como você escreve - me levando para dentro do texto. Ansiosamente espero a parte final *O*

Ah, e que você tenha um domingo lindo com a sua mãe! =) Abraço forte!

Jaynne Santos disse...

Mai, perfeitamente escrito, ardentemente lido. Assim, nessa sútil linha de escritora e leitora, em que meus olhos fervem nas entrelinhas, posso te afirmar que eu sou fã do seu trabalho.
Vou te fazer um convite pessoal: Vamos mudar a sina do Brasil enquanto publicações? Esse negócio de que só os escritores estrangeiros fazem sucesso? Pois é, convido-te a escrever um livro e publicá-lo. O sucesso será uma consequência do talento sempre crescente.

Grande beijo.

Monique Premazzi disse...

Sabia que ela ia se apaixonar por alguém, tinha que ter algo assim, né? Fala sério *-* Ai, morri com essa parte. Ficou demais, amiga. Estou louca para ler o final desse conto maravilhoso.

Beijinhos, se cuida s2

Leonard M. Capibaribe disse...

Lindas as suas palavras aqui! Gostei bastante! Parabéns! Estarei seguindo!

Monique Premazzi disse...

Awn, obrigada pelo comentário amiga *-* Confesso que eu não gosto muito dessa minha fase melosa, mas... tudo bem, preciso passar por ela mais uma vez.

Beijinhos, se cuida s2

Pedro Menuchelli disse...

Eu fico feliz e ao mesmo tempo triste quando venho aqui. Fico mega feliz porque a forma que você escreve me dá uma viagem gratuita aos seus textos que sempre me deixam pensativo e reflexivo. Clarice Linspector trabalha demais com esse fator e, quando leio seus textos, acho até que estou lendo contos dela, porque você escreve tão bem quanto ela. E, por fim, eu fico triste porque tenho que esperar pra ver o final. É como se, conforme lesse seus textos, ficasse amarrado de tal forma que a curiosidade em saber do final fosse maior do que eu mesmo. Em todo caso, eu espero né? hahahaha

Uma ótima semana Má, um grande beijo e te agradeço demais pelas lindas palavras sempre deixadas no meu blog. Com carinho,

Pedro.

Déborah Arruda. disse...

Parei para ler as partes anteriores já que na penúltima parte do conto, pareci ficar cada vez mais presa e com vontade de descobrir o que falta.
Parabéns pelo modo de escrever, Maiara. (:

C. disse...

Eu nao curto muito conto porque me perco e acabo perdendo o fio da meada.

Beijos