terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma xícara de açúcar


Olho através do olho mágico e encaro a silhueta despreocupada dela. Está lá, segurando uma xícara vazia e ajeitando a blusa, olhando-se por inteira só para se certificar de que não tem nada de errado.
Eu acho graça, abafo uma risada do lado de cá da porta, e percebo que ela escuta, pois logo posta-se ereta, com um olhar de quem não se importa.

Há três dias me mudei para esse apartamento simpático; e há dois, observo a moça do lado. Confesso que já estava pensando em pegar uma xícara também e ir bater lá em seu apartamento 104. Pensei até em ir perguntar se ela não precisava de um encanador, um mecânico, um pedreiro, ou um poeta apenas. Mas não foi necessário, ela também está precisando de açúcar, e foi mais rápida que eu.

Abro a porta e a encaro sem olhá-la da cabeça aos pés, para ela não achar que tem alguma coisa errada. Olho os seus olhos amendoados, e ela sorri entortando a boca.
- Posso ajudar? – pergunto sorrindo.
- O açúcar... Estou precisando. – diz com uma expressão séria enquanto me estende a xícara. E percebo que ela não está falando apenas daquele açúcar.
- Quer entrar? – pergunto assim mesmo. E ela me encara meio desconfiada, olha para os lados titubeando entre e o sim e o não.
- Bem, acho que mal não faz. – dar de ombros e entra. E lamento em seguida pelo convite, já que o apartamento está caótico.
- Ah, desculpe por isso. As mudanças acabam me revirando pelo avesso. Senta aqui, já volto com o açúcar. – digo levando-a até o sofá que está servindo de porta livros e discos.
- Não tem importância. Hum, Lya Luft... – diz pegando um dos livros que estão no sofá. Na cozinha eu enrubesço, pois suponho que provavelmente ela esteja se perguntando sobre a minha opção sexual.
- Feminino demais? – digo entregando-a a xícara de açúcar.
- Pra dizer a verdade, sim. – sorri me passando o livro e tirando a xícara das minhas mãos. Por um instante nossos dedos se tocam, e sinto aquele arrepio estranho e sem explicação.
- Bem, o que acha de homens sensíveis em pleno século XXI? – digo pigarreando.
- Uma lenda. – revira os olhos.
- Prazer, Ricardo, uma lenda em ascensão. – sorrio abertamente enquanto lhe estendo uma mão. Ela me oferece uma risada alta; daquelas gostosas de ouvir.
- Júlia, apenas em ascensão. – sorri enquanto aperta firme a minha mão. Em seguida anda até a porta, e me dói o peito de pensar que a risada está indo junto com ela. Eu sei, eu sei, sou um dramático; quase um ator mexicano.
- Mas já tão cedo? – pergunto com certa tristeza na voz. E torço para que ela não seja tão perceptiva quanto parece.
- Preciso terminar a minha torta. E não se faz torta sem açúcar. – torce o nariz e me lança uma piscadela; toda moleca. E sinto que estou começando a traduzi-la, mas no fundo ainda espero que ela me surpreenda, e sei que vai. As mulheres são assim.
- É... Não se faz quase nada sem açúcar. Até limonada precisa de açúcar. – balanço a cabeça em sinal positivo e coço a barba. E ela ri mais uma vez.
- Você parece antiquado demais para o rosto que tem. – ela diz sorrindo.
- O que tem de errado com o meu rosto? – digo arqueando uma sobrancelha. Ela se aproxima, e contorna a minha face como as pontas dos dedos finos que tem. Suspiro sentindo os pêlos eriçarem.
- Você deve ter nó máximo 20 anos. E fala do açúcar sabiamente, apesar de parecer que já sentiu por muito tempo a sua falta. – diz em uma voz baixa embargada pela melancolia. – Eu não consigo ser assim, quer dizer, o amargo sempre se sobressai e me lembra que o passado é como uma fênix que sempre está disposta a reviver das cinzas. – abaixa os olhos até o açúcar em sua mão. – Às vezes sinto como se eu fosse um barco, e como se os remos estivessem em um lugar inalcançável. E eu fico a deriva de mim mesma. Você me entende? – me encara através de uma cortina embaçada.
- Eu entendo. Eu já me senti muitas vezes assim, mas arrisco-me a dizer que aprendi algumas coisas com as quedas. De todo o jeito, eu sempre estou disposto a aprender, e nesse momento estou pronto para embarcar em um barco que aparentemente não possui remos. – encaro-a passando as mãos em seu rosto amedrontado.

Sei que parece loucura entregar-se assim a primeira que bate em sua porta com uma xícara vazia pedindo açúcar. Mas veja bem, ela não quer encher a sua xícara de porcelana de açúcar, ela quer encher o seu âmago, quer fazer das suas cinzas um recomeço de algo sem nome; algo ilógico e incomum. E quem sou eu para negar-te?
E não me importo se por acaso - ou descaso - doer, porque poeta que é poeta conhece bem da dor. E olhando agora para esse rosto a minha frente não posso resistir, então a beijo com ternura, e em seguida ela vai embora, sorrindo, dizendo que me trará uma fatia da torta mais tarde. E eu aceito, digo que quero provar daquilo que ela fez com o meu açúcar; e que gostaria muito de fazê-la lembrar o gosto que ele tem. Ela sorri timidamente, mas sei que um sim se espreita por entre os seus lábios.
E esse é o nosso começo açucarado.


67ª Edição Musical - BLQ

12 comentários:

Jéssica F. disse...

Tudo sempre começa açucarado, não é? Adorei o texto, muito fofo *-* Boa sorte (yn) Bjs

Joyce C. disse...

Incrível! Mesmo.
A leitura fluiu tão leve. Seria ótimo ler mais relatos desse casal.
Amei como tudo começou. Uma xícara de açúcar, e a certeza de um amor bonito que vem surgindo.

Mais uma vez, texto agradável.

Beijos, Maiara!

Gabriel G. disse...

Cara amiga baiana, me faz sempre querer voltar aqui, para te reler e decifrar-te.
Continue escrevendo para eu continuar dizendo " te vejo em breve"

Bell Souza disse...

Muito bom, de verdade. Criativo. Se fosse avaliar apontaria uma coisinha ou outra passiva de concerto, mas como leitora - maravilhoso!

Jonas G. disse...

Quem diria foi só com a xícara e a falta de açúcar que eles se conheceram...
Adorei o texto. Seus textos parecem ser escritos "entrelinhas" onde há detalhes que poucos percebem :)

Monique Premazzi disse...

Como eu queria que fosse tão simples achar pessoas assim na porta da frente. Mas, ainda é bom sonhar com todas essas histórias fofas *-*

Achei super lindo esse texto, amiga. Você é demais! :D

Beijinhos,
se cuida s2

Jaya Magalhães disse...

Meu Deus, Maiara! Meeeeeeeeu Deus!

Você tem noção do quanto teu texto me deixou suspensa? Não toquei o chão em nenhum momento enquanto mantive os olhos grudados nas tuas letras. Fui transportada até o apartamento. Eu vi a xícara, vi o rosto dele, a risada indo embora com ela, o diálogo. A dor. Eu vi o começo açucarado como quem quer fazer parte. Como quem quer que continue na medida.

Como quem pede: vê se tá bom de açúcar? [Como no meu texto antigo].

E nossa, como foi encantado. Parabéns sempre! Seus contos são fantásticos, moça. Aplausos demais.

E um beijo.

C. disse...

Quem dera os dias que seguem fossem sempre iguais ao primeiro ... doce, leve, disposto... e a exigência em voltar fosse desnecessária, fosse apenas espontânea.

Beijo minha querida!

Iandê Albuquerque disse...

Oiee, Sou do blog: www.iandeee.blogspot.com ''Além do sol...''

Vi seu texto no ABL.
Abraço, adorei aqui.

Nicole Medeiros disse...

TEM UM SELINHO LÁ PRA VOCÊ NO MEU BLOG
www.continuo-apenas.blogspot.com

Lara Vic. disse...

lindo o texto e o blog. Acho que nunca imaginaria tal sentimento e reflexão em uma coisa tão antiga que é pedir açúcar ao vizinho *-*
seguindo seu blog!

@juusep disse...

Avaliação Detalhada, BLQ:

Lindo, lindo, lindo, lindo! A unica coisa que fez perder o embalo todo, foram alguns erros ortográficos. Mas o texto é maravilhoso. Beijo