sábado, 18 de junho de 2011

Ao pé da laranjeira


Os passos esmagavam a grama rapidamente, os olhos mantinham-se erguidos para o alto da colina. Ao longe avistou a menina de vestido florido e pés descalços, ela sorria e acenava ao pé duma laranjeira. Aproximou-se ainda ofegante, tirou do bolso uma florzinha esmagada pela correria.
- Para você. – sorriu envergonhado pela flor que estava em pedaços.
- É muito bonita, obrigada. – respondeu ainda sustentando um sorriso largo.
Sentaram-se ambos na grama orvalhada.
Ele a observava pelo canto do olho, enquanto ela admirava a pequena flor entre seus dedos. Sorria, e quando se virou para ele novamente, o sorriso fora soprado da sua face jovial.
- O que aconteceu? – disse apontando para um borrão roxo estampado no braço fino do menino.
- Nada, eu caí. – cobriu a mancha com a manga da camisa clara.
- Onde?
- Em casa. – abaixou a vista.
- Mentira!
- É verdade, eu caí. – ele fitava as mãos.
- Não minta para mim, conte-me a verdade, por favor. – sua voz soou suplicante. O menino suspirou passando as mãos nos fios de cabelo castanho que trazia na cabeça.
- Meu pai... – rompeu o silêncio com uma voz arrastada, quase inaudível. A menina ainda o encarava, e seus olhos agora penavam.
- Por quê? – quis saber.
- Não importa. – ele não conseguia encará-la.
- Por quê? – insistiu.
- Por favor. – levou os olhos temerosos até os dela.
- Me diz, vamos. – insistiu. O menino soltou o ar pesadamente.
- Ele diz que eu tenho o sangue azul, veja. – disse enfim mostrando os pulsos pálidos com veias azuladas. Ela fitou os braços pálidos do menino, tirando os olhos dos deles e levando-os até o próprio pulso moreno.
- Foi o que ele disse. – juntou os joelhos observando a grama.
- Ele disse que o meu não era como o seu. Não disse? – ergueu-se tirando um espinho afiado da laranjeira.
O menino a encarou confuso. Ela voltou a sentar-se ao seu lado.
- Veja. – disse ela espetando o espinho na ponta do dedo indicador.
- Não deveria ter feito isso. Eu sei que o seu sangue é igual ao meu. – disse assustado.
- Que importa agora se meu dedo já foi furado? – respondeu levando o dedo à boca. O menino aquiesceu, e sacudiu a cabeça positivamente.
- O meu pai disse que não posso ser amigo de gente de cor. – ele fitou os pés.
- O teu pai quer que seja amigo de gente invisível? – franziu o cenho.
- Foi o que eu disse para ele, e então ele fez isso comigo. Disse que eu teria de ter amigos que tivessem a pele como a minha. – deitou-se na grama encarando o céu límpido.
- Ah, entendi. – disse ela fazendo o mesmo.
- Posso me pintar de branco se ele quiser. – ela falou depois de um pequeno silêncio formado entre eles.
- Eu gosto de você assim. E se você fosse azul, eu gostaria de você assim mesmo.
- Porque diz isso? – fitou o rosto que ainda mirava o céu.
- Porque você iria rir do mesmo jeito que ri agora; porque você falaria rápido do mesmo jeito que fala agora; porque os seus olhos teriam o mesmo brilho que têm agora; por que você correria como o vento na relva alta do mesmo jeito que agora; porque você seria exatamente igual ao que você é agora. – virou-se para olhar o sorriso tímido que se mostrava nos lábios dela.
- Ontem, quando me cortei com a ponta do canivete do meu pai, o sangue não era azul. – segurou no dedo dela que trazia uma pequena mancha vermelha consigo.
- Somos iguais. E mesmo que o meu pai me machuque eu não deixarei de ser o seu amigo. Você entende? – fitou-a. Ela aquiesceu entristecendo a face.
- Olhe para aquela nuvem branca, está vendo? Parece uma tartaruga velha, e se ela fosse de qualquer outra cor, ainda assim seria uma tartaruga velha. – disse enquanto apontava para o céu. A menina encarou a nuvem, soltou um risinho. Adorava aquele menino.
- Não quero que você se machuque por minha causa. – seus olhos apagaram-se outra vez.
- Me machucaria muito mais se tivesse de ficar longe de você. – enrubesceu. A menina tocou em suas bochechas coradas.
- Sente vergonha? – brincou ela, vendo o outro avermelhar-se por inteiro.
- Sim.
- Por quê?
- Não sei, a gente sente essas coisas quando...
- Quando gosta muito de alguém?
- É. – pigarreou. Ela sorriu satisfeita.
- Até amanhã, tenho de ir agora. – levantou-se de súbito.
- Espera. No mesmo horário? – disse ele.
- Sim, no mesmo horário. E quero que fique com isso. – aproximou-se beijando a bochecha ainda corada do outro. Esse riscou um risinho no canto da boca. E enquanto a observava pular serelepe para longe, levou uma das mãos até a bochecha, sentindo o presente que lhe foi concedido com tanto esmero. Sentiria aquilo mesmo se ela fosse azul, afinal.

Já faz algum tempo que eu não posto nada assim, estava sentindo falta desses diálogos pueris.
Ah, e obrigada por todos os comentários atenciosos, irei responder cada um deles, não o fiz antes por falta de tempo mesmo, mas agora estou de férias, que alegria poder dizer isso. *-*
Então, me digam o que acharam do texto, apesar de extenso, para mim não foi cansativo escrevê-lo e muito menos lê-lo e relê-lo. Enfim, beijos e até breve.

6 comentários:

T. disse...

Essa é uma das coisas mais encantadoras que já li na minha vida, com certeza. Nem um pouco cansativo. :3

Mero Esmero disse...

Parabéns pela leveza e lirismo de uma linguagem plenamente simples e envolvente.

Fraterno Abraço

Pedro Menuchelli disse...

E agora, você conseguiu me deixar sem ter o que falar, de verdade. Ao mesmo tempo que tento escrever algo, rola uma lágrima do meu olho e que, ai.. você vai entender melhor se eu te contar.

Algumas vezes, esse determinado preconceito não acontece apenas pela cor, mas sim por posição social também e, no meu caso, foi assim. Vamos dizer que a unica pessoa que gostei de verdade, a Nina, a gente terminou por isso. Ela sempre foi mais rica do que eu e os pais dela tinham uma ideologia que classificava as pessoas como boas ou ruins através dos bens materiais que elas possuiam e, mesmo que a gente se gostasse mais do que quase tudo nesse mundo e se parecesse mais do que dois gêmeos idênticos interiormente falando, isso não era muito perante aos pais de uma menina de 16 anos que não tinha maneiras legais de se sustentar sozinha e sair disso. Se fosse possível, eu fugiria com ela para bem longe, mas infelizmente isso não é imaginável a nossa realidade atual. Hoje faz um ano mais ou menos que tudo isso já se passou e eu me comporto de uma maneira melhor, mas mesmo assim ainda ficam marcas que são fortes perante a uma pessoa tão fraca como eu, ainda mais um cara tão bobão que é levado demais pelos seus sentimentos quando gosta, que não esconde quando ama e não consegue fingir nada nesse mundo, por mais que isso coloque a sua vida em risco.

O maior problema do mundo atual não está em saber amar as pessoas certas, mas sim amar o próximo. Não tô falando pra gente sair por ai falando que ama todo mundo, longe disso.. mas eu falo aquele amor de compaixão, aquele amor de irmão mesmo, de pessoas, de ser humano, de saber que a gente está sim em um mundo, mas que é preciso saber respeitar as diferenças, saber respeitar culturas, ideologias, porque é disso que somos feitos: diferenças. Nada mais, nada menos, diferenças. Encontrar alguém totalmente igual a nós seria um caos, pois tudo seria pré-dito e o legal da vida está em saber viver cada momento sem esperar o amanhã, porque ele infelizmente pode ser tarde...

E desculpa, mesmo. Pelo desabafo aqui. Eu juro que não consegui me conter perante a um texto tão lindo e tão verdadeiro como o seu. Admiro demais a sua escrita e a maneira com a qual você consegue se expressar. Mesmo. É um dos blogs que mais admiro.

Desculpa, mais uma vez. Ótima semana Mai, um grande beijo.

Jaynne Santos disse...

Lindo, Mai.
Simplesmente traz uma realidade nua e crua e acima de tudo cruel. Realidade de muitos, nó na garganta para os poucos que não suportam mais todo esse preconceito. Coisa de gente mesquinha, ignorante, vazia, fria, supérflua. Coisa de gente que não tem amor, pois somente o amor vence essas barreiras.

Desculpa pelo sumiço, mas tenho que dizer que estou acompanhando seus textos, não me faltou ler nenhum, mas a pressa não me deixava comentar. Devo-lhe confessar que me identifiquei com o texto 'Somos' e adorei o texto 'Ím(par)'.

Beijos.

Su disse...

Nhá...>___< Que história mais lindinha!

Maria Beatriz de Castro disse...

Own! Que meigo. Tudo quando nós olhamos pelo olhar de uma criança se torna tão mais verdadeiro e estável,não é? Um texto que normalmente é pesado, por falar de preconceito, ficou leve e gostoso de ler. Gostei muito!

Estou seguindo e estarei sempre visitando aqui! Me siga e visite: http://biacentrismo.blogspot.com

beijos!