sábado, 25 de junho de 2011

Bucólico

Os dedos se agitam ao sentir o orvalho na grama; um suspiro leve brinca nos pulmões. Sensação de refúgio anuncia o fim da fuga de si mesma.

A memória sussurra que ao decorrer dos sete anos a única coisa que quis foi provar para o mundo que a necessidade da volta era tão relevante quanto a cor do teu vestido. Mas não houve provas; nem sentido. E ela voltou.
Sem orgulho na mala foi recebida pelos braços envelhecidos da avó quase mãe. Chorou no colo da mulher que afagava o seu cabelo dizendo que sabia; que entendia, e que nunca deixou de amar a sua garotinha.
Ela desejou ser como aquela mulher naquele momento. Que apesar de nunca ter saído daquele pequeno lugar, sabia mais do que qualquer aventureiro; sabia mais do que ela, que esbravejou para a pobre senhora que precisava ir, pois ela não cabia mais ali; era grande demais. Precisou conhecer os asfaltos do mundo para perceber que a grandeza morava no peito da avó, que sempre lhe sorriu com toda a alma a mostra.

Nesse momento de culpa, inspira a brisa que balança as ondas derramadas por seus ombros. Isso a faz lembrar a calmaria da mulher que está ao pé do fogão fazendo a sua comida preferida.

O cheiro de grama fresca que a invade faz um arrepio percorrer por sua espinha. Se sente tão menina como da última vez que saiu com o choro veemente e a boca seca.
Afasta as lembranças ferinas por um instante, e corre a favor do vento. Ao longe observa o céu engolir o restinho de dia, e a noite começa a tingir o manto celeste com pontos cintilantes.

Senta-se próxima ao velho carvalho, onde se escondia sempre que dizia que ia embora para nunca mais voltar. Mas lá estava ela, mulher-menina, que sem pretexto de fuga passa a mão pela madeira áspera. Fecha os olhos por um instante, inundando-se em sua nostalgia.

Afasta-se do tronco que tem o seu nome gravado mentalmente, pois não teve coragem de tatuar a pobre árvore muda. A delicadeza, ela tinha de admitir, a foi concedida pela avó.
Uma lágrima acaricia gentilmente o seu rosto, firmando o fim de saudade e o reencontro com a sua melhor parte; o seu inteiro.
Tira uma vela do bolso, e a ascende rompendo a escuridão da noite. Um rito pessoal que inventou quando os seus dias pareciam nebulosos demais para se apagar todas as luzes.
Descansa as pálpebras, e deixa a magia noturna tomar conta dos seus sentidos. Um cricrilar mansinho; um farfalhar de folhas; um vento sereno; e uma luz pálida toca o seu corpo calmamente. A vela é apagada por um sopro leve, enquanto ela volta para a casa de luz acesa e vaga-lumes ao redor. Na porta a silhueta amada a espera dentro de um vestido florido. A senhora acena alegremente, e ela se aproxima beijando a cabeça coberta por uma nuvem clara. Sorriem juntas, e a sábia mulher diz em voz serena que é muito bom ter a sua netinha de volta, e que o prato está na mesa, junto a um galho de alecrim, porque a menina sempre gostou do cheiro, e ela tem certeza que a menina continua ali.

7 comentários:

Mero Esmero disse...

Há tempos não leio algo tão tocante, envolvente... comovente. Tanto que lágrimas vieram-me aos olhos. Sensibilidade à flor da pele... plantada no jardim da alma dos leitores que por aqui passam.

Belo domingo a ti.

Maria Beatriz de Castro disse...

Seu blog não se chama "Entrelinhas" a toa hein?! auahuah Precisa muita calma e concentração pra ler seus textos, mas eu gostei muito. Eu escrevo sobre a realidade e as fatalidades, às vezes metaforicamente. Mas você descreve sentimentos e memórias de uma forma muito poética, o que eu raramente faço. Gostei muito fofa!
Beijinhos

http://biacentrismo.blogspot.com
Beijo

Pedro Menuchelli disse...

As memórias descritas com tanta sensibilidade fazem o leitor entrar em sua história e querer fazer parte. Eu não consigo ver um ponto que possa melhorar, não consigo enxergar um aspecto sem sentimento e simplicidade em seu espaço Mai, deve ser por isso que sempre acabo me perdendo com minhas palavras em meio a tanta coisa bonita e bela que você escreve.

Obrigado pelas palavras de conforto em meu espaço. Fiquei muito feliz quando vi você por lá,me dando um apoio. Um grande beijo, ótima semana.

ϟ Cynthia Brito disse...

Maiara, lindeza!
Acho lindo quando você usa essas palavras inteligentes, dignas da beleza da sua escrita.

Obrigada por sua visita em meu jardim!

Beijos.

Nayara disse...

Tem um selo pra você lá no meu blog, passa la pra pegar.
http://nayara-soares.blogspot.com/2011/06/os-abracos-apertados-porem-suaves-onde.html#comments

beijos.

C. disse...

"Precisou conhecer os asfaltos do mundo para perceber que a grandeza morava no peito da avó, que sempre lhe sorriu com toda a alma a mostra."

Todo o texto remeteu-me à menina que fui e que creceu sem saber essa verdade mais que bem dita que você soube sintetizar tao bem aqui:)Lindo! Vou levar a frase para o meu Face. Falando em Facebook, você tem?

Beijinhos, e que bom tá de férias, eba! Curta bem, bom descanso.

C. disse...

cresceu.
(mania de nao revisar comentários...)