quarta-feira, 13 de julho de 2011

Por ser tão passado


Vai com os olhos embaçados enquanto observa a pequena cidade ficar para trás a cada árvore que passa ligeiro por sua visão; a cada casa pequena, a cada habitante daquele lugar. E aquilo estava passando, já havia se conformado por tudo ser assim; por tudo um dia precisar passar, até ela mesma.

Um semblante triste enfeita o seu rosto. E esse é só mais um sinal da lembrança recente que guarda a silhueta de sua mãe desmoronando na porta de casa, enquanto sussurrava um “volte logo”. E a sombra de seu pai atrás da persiana da sala. Ele bancava o durão, mas na noite anterior ela o ouviu fungar algumas vezes na varanda escura, enquanto fumava um cigarro. Estava cansada de pedir para ele parar de fumar, e quando foi se despedir num abraço meio desconsertado, fez mais uma vez esse pedido. Ele assentiu, bateu a mão em suas costas algumas vezes como se não quisesse soltar, e não disse nada, era o jeito de dizer tudo.

Lágrimas rolam nesse instante. Ela as enxuga com a manga do casaco. O casaco. Presente dele. Aquele que prometeu esperar mesmo que demorasse, era só ela dizer que a volta é certa, e o esquecimento inexistente. Naquele momento ela fez um sinal positivo com a cabeça, meio perdida nos olhos expressivos do outro. Sempre odiou despedidas. Ambos odiavam. Então não disseram muita coisa. Apenas eu amo você em uníssono. Foi o suficiente.

Cheirou o casaco, tinha cheiro dele. E só ela sabe como foi difícil deixá-lo com aqueles olhos vermelhos, de quem passou a noite em claro, chorando no escuro. Sentiu-se egoísta enquanto trazia essas memórias para perto; sentiu-se egoísta em ir e deixar tanto de si para trás. Mas ainda assim resolveu que seguiria, porque nunca foi de voltar antes de sentir-se satisfeita com a partida. Desde menina batia o pé até conseguir o que queria. E não seria diferente agora, porque afinal, ainda guarda muito do passado dentro de si. E mesmo que o sonho de formar-se numa universidade renomada parecesse distante, os seus braços sempre foram grandes o bastante para alcançar os seus desejos. Por isso está indo agora. E por ser tão passado continua com os olhos presos do lado de fora da janela, guardando tudo na memória para não se esquecer de como é o caminho que tem de tomar quando chegar a hora de voltar.


* 76ª Edição Visual - BLQ

7 comentários:

Minne disse...

Gente determinada é outra coisa, quando a partida é necessária ao nosso ver, mesmo que doa e que dê saudade de todos e tudo, é melhor se determinar e fazer a escolha que aparentemente seja certa, porque a dor de se arrepender por não ter feito algo é mesquinha e demora pra ir embora.

Taynná disse...

Ah, quantas vezes eu já quis partir... Mas sempre me faltou a coragem de acreditar na verdade que aquilo que é nosso, é. A gente parte, volta, dá mil voltas e continua lá... Acho na verdade que não confio tanto no que planto, não confio que cresça sem meus olhos... Deve ser!
Lindo texto, sempre um prazer ler você, eita saudades de avaliar aqueles textos cheios de sentimento que você postava...

Jéssica Trabuco disse...

Mudanças são sempre assustadoras... mas quando são de algo que é necessário, para o nosso bem, realização de nossos planos... a gente tem que ter coragem e lutar.

Maria Beatriz de Castro disse...

Voltar não é falta de personalidade nem de força de vontade. Quem sabe voltar é tão digno como quem sabe ir. Só isso que eu digo!
Um beijo, @biacentrismo - http://biacentrismo.blogspot.com

Jaynne Santos disse...

As despedidas sempre exigem muita coragem... É necessário mais de si mesmo; para fazer-se forte o bastante e assim ser digno de seus próprios sonhos, mas, também é necessário menos de si mesmo; para ter a coragem de deixar o seu mundo, seu mosaico externo no qual se fazia parte como único, pela peça interna insubstituível.
O que nos basta como impulso é a certeza. Certeza de que irá valer a pena quando existem pessoas que irão sentir saudades da gente e que, fies a si mesmas aguarda contando os segundos a nossa volta. Porque quando se ama, a distância é apenas física, nada mais...

Seus encantos quando percorridos com os olhos da alma sempre ficam, permanecem...

Grande beijo Mai!

C. disse...

Despedidas com rastros de volta pelo caminho já conhecido, sao as melhores.
Nao há sonho que se realize sem esforco, sem vontade própria, eles nao acontecem sozinhos. O crescimento chega exatamente quando devemos trilhar nossos caminhos, e o caminho lutado é sempre florido!

C. disse...

Tao lindo esse texto... me fez lembrar tanta coisa, amiga...